Alexandre Veloso

Amante da arte. Praticante da inquietação constante, que tudo muda de lugar o tempo todo. Produtor cultural, especialista em marketing e propaganda.

A boa rotina de abrir os olhos

Acordar pra vida e viver, todos os dias. Uma boa rotina é abrir os olhos depois de morrer.


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Sempre acordo, sonolento e de peso nos ombros. Abro os olhos antes de a consciência chegar e acusar a ressurreição acontecida há pouco. Estava eu morto. Estirado sem vida útil a mercê de qualquer inseto e muitas possibilidades, umas boas talvez e outras tantas ruins. Sem controle e sem nenhuma noção do real, apenas sou matéria, ocupando um lugar no espaço. Este também não importa. Nada importa estou morto.

O mundo continua girar, as coisas giram em minha volta, e eu morto. Parado. Estatelado horizontalmente como qualquer coisa jogada no monturo, que a queda e o relevo determinam a forma final. Tanto faz estou morto mesmo. Pouco sinto, e muito menos contribuo. Não ajudo, nem participo. Apenas consumo o ar, gasto coisas desnecessárias, coisas que não vejo e que não sinto, e que nem sei que existem. No escuro do interior, às vezes recebo visitas, umas agradáveis lembranças do que fui e talvez de coisas que gostaria de fazer. Às vezes o que jamais gostaria de ver também aparece, horrível, real, que me faz suar, mexer e até gritar. Passa. Continuo parado. Inerte.

Todo dia a mesma coisa. Antes de morrer, às vezes sou o super-homem, imbatível. Outros dias o ajudante de herói que só colabora. No outro a plateia que bate palmas para o artista imaginando como ele faz isso. Na maioria das vezes especial. Ora pra um, ora pra outros. Mais um ponto móvel no universo pequeno do trajeto de casa para o trabalho, com o desvio ao bar da esquina, ocasião especial o show do artista. Todo mundo faz isso. Também todo mundo tem seu super esconderijo. Ah! O meu é secreto, não posso contar. É secreto gente. Depois de lutar, correr, falar, rir, amar, usar a super visão pra identificar os perigos e também as belezas da selva, paro pra descansar. Ninguém é de ferro, DEUS parou no sétimo dia pra admirar sua obra e descansar. Ainda não terminei minha obra. Estou talvez fazendo mais um cômodo. Já joguei umas coisas fora e refiz coisas que não ficaram boas. Tá ficando legal. Mas preciso parar pra pensar, analisar e descansar. E aí eu morro.

Bom, que amanhã acontece tudo novamente. Amanhã junto com o sol abro os olhos. Volto a viver. Que bom!


Alexandre Veloso

Amante da arte. Praticante da inquietação constante, que tudo muda de lugar o tempo todo. Produtor cultural, especialista em marketing e propaganda..
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