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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

A escolha ou os desastres de Sofia?

“Nossa existência é feita de encruzilhadas. Escolher nem sempre é fácil, e, no entanto, estamos sempre escolhendo. Há decisões insignificantes e outras que alteram uma vida”.


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Todos os dias tomamos decisões. Sejam elas pequenas, médias ou de grande importância para nossa pessoa ou para outras pessoas que nos cercam ou talvez para quem nunca vamos saber, se estamos em uma organização, e naquele dia estamos demitindo uma série de pessoas.

Mas, diante das decisões existem escolhas. Desde as pequenas, como adicionar ou não açúcar no café, assistir ou não a um filme, a escolhas mais complexas, ter ou não filhos, a outras ainda mais difíceis, submeter-se ou não a um tratamento de quimioterapia.

Porém, como escreveu Sartre “somos condenados a ser livres”. Escolher é a marca dos seres humanos, nossa glória e nossa desgraça. Pode trazer grandes alegrias ou grandes amarguras. Não nos deixa ter aquela impassividade que vemos nos olhos dos animais. Somos forçados à decisão.

Para uma reflexão entre uma visão otimista e pessimista sobre a vida baseada na literatura, três autores; um americano, William Styron, uma brasileira, Clarice Lispector, uma russa, Sophie Feodorovna Rostopchine, a Condessa de Ségur, nos oferecem uma personagem, Sofia. "A escolha de Sofia", "Os desastres de Sofia" e "Os desastres de Sophia", em três diferentes situações, que conforme cada uma de suas vivências, podemos experimentar tempos e mundos diferentes para cada uma delas.

A escolha de Sofia

Publicado em 1979 e vencedor do National Book Award de 1980, "A escolha de Sofia", é um clássico moderno que relata o drama de Sofia Zawistowka, uma polonesa sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, história de um dos mais bárbaros crimes de todos os tempos: o Holocausto promovido pelos nazistas.

"A escolha de Sofia" narra o envolvimento de Stingo com a bela Sofia, assombrada pela terrível escolha que precisou fazer um dia e que definiu o resto da sua vida. 'A escolha de Sofia' mostra uma mulher entregue a uma relação alucinante e destrutiva, impermeável a qualquer felicidade capaz de desviá-la do puro e simples aniquilamento. Para além das cercas eletrificadas e das câmaras de gás, Auschwitz continuava a fazer vítimas. Por trás das angustiantes lembranças que atormentam Sofia, cujos mistérios são aos poucos implacavelmente revelados, o autor mergulha nas raízes da loucura e da crueldade humana

Escrito por William Styron, ganhador do Prêmio Pulitzer, entre outros, reconhecido pela elegância de sua prosa e por seu poderoso engajamento moral, e além de A escolha de Sofia, As confissões de Nat Turner e The suicide run – Five tales of the Marine Corps. Styron nasceu em 1925, no Sul dos Estados Unidos, e morreu em 2006.

A questão da escolha: dilemas morais

O significado. O nome Sofia surgiu a partir do grego sophia, que significa literalmente "sabedoria". Pode ser traduzido também como "o Verbo" (santidade) em sua forma feminina. Na antiga Constantinopla, atual Istambul, foi construída a Basílica de Santa Sofia.

Dilemas morais, como esse de Sofia, são situações nas quais nenhuma solução é satisfatória. São encruzilhadas que desafiam todos que tentam criar regras para decidir o que é certo e o que é errado, de juristas a filósofos que estudam a moral.

A origem do tema. Em entrevista para seus editores, para pergunta, como lidou com o tema do Holocausto (se era graças ao seu impulso criativo como romancista) ou porque queria que o mundo entendesse o que aconteceu e quais foram as implicações desse evento, Styron respondeu "acho que por ambas as razões. Não sei qual pesou mais quando comecei a escrever o livro. Eu estava obcecado com a metáfora central do livro,que é a escolha. Na década de 60 li a obra de Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém. Nesse livro ela menciona, en passant, uma cigana que foi forçada a fazer essa escolha, em outras palavras, tornar-se assassina de um de seus filhos. Fiquei chocado.

E ainda continua, "percebi de repente que aquilo tinha que ser uma metáfora para o despotismo mais tirânico da História, que aquilo era uma nova forma de Mal, um mal tão total que podia fazer uma mulher assassinar um de seus próprios filhos. Foi esse o fator principal que me motivou a escrever A escolha de Sofia. Outro fator foi uma coisa que me aconteceu. Fui ao Brooklyn, no fim dos anos 40, e conheci uma jovem — ela era mais velha que eu, mas mesmo assim era jovem — que fora sobrevivente de Auschwitz e ostentava uma tatuagem no braço. O nome dela era Sofia".

Voltando a questão dos dilemas morais, Rosseau (1712-1778) considerava o certo a vontade geral, a decisão da maioria, por sua vez, o filósofo inglês John Locke (1632-1704), definiu o bem pela não-agressão, aquela ideia de que “minha liberdade começa onde termina a sua”.

Mas qual era o dilema de Sofia? Neste trecho do livro, você pode ler:

Sofia ia responder, quando o médico disse: — Você pode ficar com um dos seus filhos. — Bitte? — volveu Sofia. — Pode ficar com um dos seus filhos — repetiu ele. — O outro vai ter que ir. Qual dos dois você escolhe? — Está querendo dizer que eu tenho que escolher? — Você é polaca, não judia. Isso lhe dá um privilégio — o de escolher. Sofia não conseguiu pensar. Sentiu as pernas cederem. — Não posso escolher! Não posso! — começou a gritar. Como se lembrava dos seus gritos!Nem os anjos tinham gritado tão alto ante a visão do inferno. — Ich kann nicht wählen! — gritou. O médico constatou que ela estava atraindo uma indesejável atenção. — Cale-se! — ordenou. — Escolha logo. Escolha, ou mandarei os dois para o lado esquerdo. Rápido! Sofia não podia crer no que estava acontecendo. Não podia acreditar que estava ajoelhada naquele áspero chão de concreto, puxando os filhos para si com tanta força, que teve a sensação de que a carne deles poderia enxertar-se na sua, apesar das camadas de roupa. A sua incredulidade era total, absoluta. Uma incredulidade refletida nos olhos do magro e pálido Rottenführer, ajudante do médico, para quem ela inexplicavelmente erguera o olhar súplice. Ele parecia atônito e devolvera-lhe o olhar com uma expressão perplexa, como quem diz: Também não posso entender. — Não me faça escolher — ouviu a si mesma implorar, num murmúrio.

Mas, qual foi a escolha de Sofia? Só lendo o livro ou vendo o filme!

Os desastres de Sofia: Clarice Lispector

Neste momento onde está em discussão uma nova reforma para o ensino médio no Brasil, nada melhor que reler "Os desastres de Sofia - Clarice Lispector".

Pois o ambiente do conto é a escola. A relação entre professor e aluna. Aos nove anos, a personagem demonstra seu interesse pelo professor “e eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara”. E confessa "aprender eu não aprendia naquelas aulas". Mas de repente ao fazer uma redação, o professor acaba por gostar de seu texto e a chama na sala de aula para conversar. Mas, quatro anos depois, ou seja, aos 13 anos, Sofia, terá uma surpresa.

Sophie Feodorovna Rostopchine, a Condessa de Ségur e seu "Os Desastres de Sophia"

Sophie Feodorovna Rostopchine, nasceu em São Petesburgo a 1 de Agosto de 1799. A sua família era originária da Mongólia. Viveu em S. Petersburgo até 1814, altura em que a família partiu para o exílio primeiro para o Ducado de Varsóvia, seguindo-se a confederação alemã e depois a Península Italiana. Em 1817 Chega a Paris, cidade onde viveu o resto da sua vida. Teve um casamento infeliz, e seu afastamento das netas Camila e Madalena, fez com que suas cartas, se tornassem em contos, e assim, livros. Entre esses, está "Os desastres de Sophia". "Sofia é uma menina linda, alegre e cheia de vida, mas também muito travessa. Ela apronta mil e uma, no entanto, mostra-se arrependida com seus erros e, principalmente, disposta a aprender com eles. Condessa de Ségur, dedica, “Os desastres de Sofia” às crianças que estão crescendo e descobrindo o mundo".

Assim, na visão de William Styron, Clarice Lispector, Sophie Feodorovna Rostopchine, fica uma reflexão para você.

O que a sociedade em que você vive tem lhe colocado mais? Os caminhos da escolha ou dos desastres? Conforme "A escolha ou os desastres" de Sofia, Sophia?

Foto: Meryl Streep como Sofia, na adaptação para o cinema do romance de Willian Styron


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