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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Brasil em tempos de filosofia grega

O Brasil vai continuar sendo o país do futuro? The Economist acredita que sim!


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A História tem certas semelhanças, ou certos destinos, que valem ser lembrados. Neste texto, procuro comparar o período vivido pelos filósofos sofistas e a atual realidade brasileira.

O período entre 440 e 400 a.C. é o período de hegemonia de Atenas, e chamado de “sofística”. São fragmentos conservados por Plutarco, Aristóteles, Platão, Xenófanes, Sexto Empírico.
As fontes consultadas por Henri Bergson para realizar seu “Cursos sobre a Filosofia Grega”, Martins Fontes, 2005, meu referencial bibliográfico, foram inúmeras, entre as quais: Diálogos de Platão: Górgias, Mênon, Protágoras, Teeteto, o Sofista; Memoráveis de Xenofonte; trechos bastantes numerosos de Aristóteles: Tratado da Alma, Metafísica, livros IV e VI, Ética a Nicômaco, IX: Pseudo-Aristóteles: De Melisso, XenoPhane et Gorgia: Plutarco, Diógenes Laércio, etc.
A causa da sofística não é puramente filosófica. Ela se explica, em parte, pela situação política e social de Atenas nessa época. Nesse momento, a aristocracia de nascimento havia sido substituída pela aristocracia de riqueza, a qual foi desalojada pela democracia pura.
Essas mudanças tiveram consequências morais e filosóficas. Percebeu-se, então, que as leis não eram de origem divina, mas de origem humana, uma vez que eram instáveis. Perguntou-se se não seria o caso de instituir um estudo especial das questões relativas ao governo, à legislação.
Assim, uma filosofia de um novo gênero e de um caráter original se constituísse em filosofia que tomou por objeto de estudo não mais a natureza, mas o homem. E os filósofos se colocaram as seguintes questões:
  • Qual é para o homem o melhor meio de tirar proveito das condições em que se encontra e viver feliz, honrado, estimado?
  • Como conseguir desempenhar um papel no Estado?
  • Como proceder para convencer seus semelhantes?
  • Como fazer adotar suas razões?

E se podemos classificar Sócrates entre os sofistas, é preciso dizer que era um homem positivo, que estimava a prática, o útil, e que desprezava a ciência teórica. Ainda dizia “só deve aprender da geometria, aquilo que é útil para medir”.
Mas, e o que isso tem a ver com o Brasil?
A revista The Economist, em sua primeira edição de 2016 faz do Brasil sua matéria de capa. E claro, coloca uma série de temas sobre as questões político econômicas nas quais o país está passando.
Se por acaso, Sócrates estivesse vivo, e, portanto, fosse nos ajudar com seu “método” (socrático), trata-se de reconduzir a espécie ao gênero, definir. Ele espera chegar a elas pela discussão pura e simples. Basta, com efeito, dar-se conta claramente do que se quer dizer quando se usam as expressões, como seria?
O primeiro parágrafo de The Economist ressalta: é “a recessão mais prolongada nos últimos cem anos; o maior escândalo de corrupção da história; a presidente mais impopular de que se tem notícia”.
Para Sócrates a primeira pergunta talvez fosse:
Qual é para o homem e mulher brasileira (s) o melhor meio de tirar proveito das condições em que se encontra e viver feliz, honrado, estimado?
Utilizando as informações de The Economist, “agora para 2016, é possível que a economia brasileira esteja 8% menor do que era no primeiro trimestre de 2014, quando parou de crescer; o PIB per capita talvez acumule queda de 20% em relação a 2010, quando atingiu seu valor mais elevado - situação não tão ruim como a vivida recentemente pela Grécia, mas não muito diferente. Duas agências de classificação de risco rebaixaram a dívida brasileira para a condição de investimento especulativo”.
Segunda pergunta de Sócrates: Como conseguir desempenhar um papel no Estado?
As dificuldades políticas de Dilma não são menos assombrosas do que seus apuros econômicos. Trinta e dois parlamentares, em sua maioria integrantes da coalizão liderada pelo PT, são investigados pelo recebimento de bilhões de dólares em propinas, provenientes de contratos superfaturados da Petrobrás. Em 15 de dezembro, a Polícia Federal fez buscas em residências e escritórios de lideranças nacionais do PMDB, assim como na sede alagoana do partido dirigido pelo vice-presidente Michel Temer”.
Analistas do banco Barclays estimam que a dívida pública brasileira chegará a 93% do PIB em 2019. Entre os mercados emergentes de maior porte, só a Ucrânia e a Hungria são tão endividadas. Comparado aos 197% da Grécia e aos 246% do Japão, o número pode não parecer tão assustador. Mas esses dois países são ricos, coisa que o Brasil não é.
Como proporção de suas riquezas, a dívida do Brasil é maior que a do Japão e corresponde a quase o dobro do endividamento da Grécia. Alguns economistas, incluindo Mônica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, acham que o Brasil está à beira da dominância fiscal. E, quando os juros deixarem de ter efeito sobre os preços, diz Bolle, o País corre o risco de entrar rapidamente numa espiral inflacionária. Segundo projeções do Credit Suisse, a inflação pode chegar a 17% em 2017”.
Terceira pergunta de Sócrates: Como proceder para convencer seus semelhantes?
Nas últimas semanas, esse esforço do governo teve alguns resultados positivos: pela primeira vez este ano, as manifestações favoráveis ao governo atraíram número maior de pessoas do que as organizadas pelos grupos favoráveis ao impeachment.
Não parece provável que o processo chegue ao Senado (coisa que faria o salseiro político se arrastar por mais seis meses). Mesmo assim, a atmosfera política dificilmente favorecerá a adoção de medidas de austeridade, sem falar na aprovação das emendas constitucionais que Barbosa diz serem necessárias para conter o efeito expansivo dos benefícios sociais sobre os gastos públicos. O ajuste fiscal é anátema para o funcionalismo público e para sindicalistas que formam o núcleo de Dilma”.
Quarta pergunta de Sócrates: Como fazer adotar suas razões? Assim como as dificuldades econômicas enfrentadas pelo País, os problemas políticos, por mais que estejam associados aos escândalos e manobras da atualidade, têm suas origens na transição democrática dos anos 80.
A história brasileira revela a tendência a soluções negociadas sempre que os brasileiros se veem diante da possibilidade de mudança. Foi o que aconteceu na Independência de 1822, declarada sem guerra ou regicídio; no golpe militar de 1964, que não descambou para os excessos sangrentos do Chile e da Argentina; e na transição para a democracia, que resultou na Constituição de 1988. Um dos aspectos desse traço com frequência admirável é a resistência a políticas de “limpeza” dos órgãos estatais.
Em meados da década de 80, inúmeras instituições, como a Polícia Federal, o Ministério Público, o Judiciário e uma série de órgãos reguladores, foram reformuladas ou recriadas. Mas muitos indivíduos identificados com o regime militar mantiveram suas posições no serviço público. Em vista disso, a transição levou uma geração inteira para se completar”.
Original: The Economist Publicado: Estadão: 31/12/2015 - Tradução: Alexandre Hubner

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