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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Freud: Uma leitura para nosso tempo

Após longo convívio com textos e cenários da memória freudiana, no âmbito do ensino ou por ocasião de viagens e pesquisas, Elisabeth Roudinesco, historiadora, psicanalista francesa, que leciona na Universidade de Paris-VII, escreveu “Sigmund Freud: na sua época e em nosso tempo”.


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Várias dezenas de biografias foram escritas sobre Freud, desde a primeira, publicada com ele ainda vivo, em 1924, pelo seu discípulo Fritz Wittels, até Peter Gay, publicada em 1988, passando pelos três volumes de Ernest Jones, questionado a partir de 1970 por Henri F. Ellenberger e os trabalhos da historiografia científica. Ainda, Emilio Rodrigué, primeiro biógrafo latino-americano, em 1996. Cada escola psicanalítica tem seu Freud – freudianos, pós-freudianos, kleinianos, lacanianos, culturalistas, independentes -, e cada país criou o seu, Sigismund Schlomo Freud.

As obras de Freud caíram em domínio público em 2010 e o essencial de seus arquivos doravante encontram-se acessíveis no departamento de manuscritos da Biblioteca do Congresso de Washington (BCW) e também no Freud Museum de Viena.

São vinte obras, mais de trezentos artigos, além de anotações, rascunhos, agendas, dedicatórias e observações nos volumes de sua imensa biblioteca, atualmente no Freud Museum de Londres. Teria redigido aproximadamente 20 mil cartas, das quais apenas metade ainda existe.

Mas o que faz de “Sigmund Freud: na sua época e em nosso tempo” um livro especial?

Dividido em quatro partes: “Vida de Freud; Freud, a conquista; Freud na intimidade; e Freud, últimos tempos”, segundo a autora “narra a vida de um homem ambicioso, oriundo de uma antiga linhagem de negociantes da Galícia oriental, que se dá ao luxo, ao longo de uma época turbulenta – esfacelamento dos impérios centrais, Primeira Guerra Mundial, crise econômica, triunfo do nazismo-, de ser ao mesmo tempo um conservador esclarecido que busca libertar o sexo para melhor controla-lo, um decifrador de enigmas, um observador atento da espécie animal, um amigo das mulheres, um estoico fanático por antiguidades, um “desilusionista” do imaginário, um herdeiro do romantismo alemão, um dinamitador das certezas da consciência, mas, também e acima de tudo talvez, um judeu vienense, desconstrutor do judaísmo e das identidades comunitárias, aferrado tanto à tradição dos trágicos gregos (Édipo) como à herança do teatro shakespeariano (Hamlet)”.

Para que você meu caro leitor, leitora, possa se interessar ainda mais pela leitura deste livro, acrescento trechos de uma conversa entre Elisabeth Roudinesco e Carmen Lucia Montechi Valladares de Oliveira, psicanalista, doutora pela Universidade Paris VII, Professora da PUC/Cogeae.

Sobre os escritos de Freud, o que dizer do conjunto da obra

“Há de tudo em Freud. Eu procurei fazer uma leitura crítica. Considero Além do princípio de prazer extraordinário, genial. Não a Metapsicologia; os artigos são interessantes, apaixonantes, mas não há ali uma metapsicologia. Fui criticada quando disse isso, mas não sou a única, muitos dizem isso, inclusive Freud quando afirma que não consegue, que é a sua “bruxa”. Por sinal, uma das coisas de que gosto muito em Freud é que há em seu trabalho algo de inacabado. Ele intervém em todos os domínios e vemos nele uma desigualdade incontestável. Futuro de uma ilusão não é uma boa obra. É fraca. Ele confunde fé com religião. Penso que A interpretação dos sonhos é indiscutivelmente um grande livro; Psicopatologia da vida cotidiana também; Três ensaios evidentemente; Totem e tabu é outro grande livro de que gosto muito, assim como Mal-estar na civilização. Outro grande texto é, Para introduzir o narcisismo, ou ainda, Moisés e o monoteísmo. Temos também pequeninos textos que são verdadeiras joias, absolutamente formidáveis, como Grande é a Diana dos efésios. Porém, o conjunto é desigual.

Freud: o Doutor, o clínico

“Aqui temos um campo de pesquisa em que ainda há muito a ser explorado. Eu repertoriei cerca de 120 pacientes. É complicado, sobretudo, porque há pacientes que aparecem em uma carta aqui, outra lá, enquanto sobre outros existem muitos documentos; temos casos reconstruídos, com testemunho. Mas, há muita coisa para ser feita. Nos arquivos ainda podem ser pesquisados os testemunhos que estão sendo liberados para consulta. Já o Freud clínico era complicado. Por vezes era formidável, mas com a condição de que o paciente o fosse freudiano. O que coloca um verdadeiro problema.

Ou seja, com a condição de que o paciente entrasse no sistema de Freud, não diria em termos de transferência, porque não gosto de empregar palavras do jargão psicanalítico. Freud foi grande clínico para os neuróticos que tiveram problemas com seus pais e com suas mães. Sem dúvida ele tinha uma genialidade de adivinhação. Ele imaginava cenas primitivas e coisas que não existiram, mas que faziam sentido. O Freud clínico atribuía um sentido à vida de um grande número de neuróticos para quem não havia sentido.

Naquela época, para todas as teorias críticas como as de Janet, de psiquiatras, a neurose era um não sentido. As pessoas se tratavam em sanatórios; dava-se banho frio e quente, praticava-se esporte etc. E aí Freud chega e diz aos seus pacientes: “Você tem sonhos; você tem vontade de matar seu pai e dormir com sua mãe; você tem vontade disso, você tem vontade daquilo”. É uma verdadeira evolução nesse campo. É inimaginável, dá sentido à vida deles, embora seja necessário que tudo isso funcione, ou seja, que esse sentido seja aceito pelo paciente. Mas, depois, quando se torna um sistema, aí está tudo errado.

Quando ele diz isso para um psicótico, não faz sentido, porque isso não se encaixa na história dele. Daí o fato de que, quando escreve, Para introduzir o narcisismo, ele percebe que isso não faz o menor sentido. Quando escreve esse texto, diz que há pacientes que querem o contrário do que aparentam querer”.

Pode-se dizer que os analistas conhecem essa história?

“Não, poucos analistas conhecem sua história, e, quando a conhecem, conhecem mal. Principalmente os analistas europeus, e em particular os franceses.

Eles se fiam em Jones, e, embora o autor tenha feito uma obra de peso, ela não é o suficiente. Mas este não um livro apenas para os psicanalistas, aliás, eu nunca me coloco a questão nesses termos. É tanto um livro para psicanalistas quanto para todos aqueles que desejam lê-lo. Freud está além da psicanálise. Freud faz mais sucesso que a psicanálise, principalmente porque os psicanalistas se mostraram tão odiosos no mundo inteiro, particularmente na França.

Eu penso que a arrogância da disciplina está ligada à grandeza de Lacan. Em todo caso, ele atribuiu uma grandeza à essa disciplina ao retirá-la da clínica pura, e o resultado é que agora pagamos pelas consequências disso tudo porque os psicanalistas se veem como deuses que eles não são mais. Eles são psicólogos. Em todo caso, a psicanálise está em declínio na França”.

E se quiser maiores informações sobre psicanálise assista o documentário francês de 1997, que mostra, detalhadamente, a trajetória da psicanálise, desde seu nascimento até as direções tomadas no período após a morte de Freud, associando-a aos fatos históricos de cada época. Todo o filme é comentado por Elisabeth Roudinesco e Peter Gay, biógrafo de Freud.

Mostra vídeos raros como o de Jung descrevendo seu primeiro encontro com Freud e relato de Ernest Jones, como também as últimas imagens de Freud em seu apartamento em Viena. Da referência incontornável para o pensamento contemporâneo, Sigmund Freud, teremos ainda a única gravação em áudio de sua voz, em entrevista à BBC de Londres em 07 de dezembro de 1938.

Elisabeth Roudinesco, esteve recentemente no Brasil, foi entrevistada por Mario Sergio Conti, para o programa Diálogos da GloboNews, uma ótima oportunidade para conhecer ainda mais as ideias da autora sobre este livro. Acesse aqui.

Mas, afinal o que é psicanálise?

Segundo a psicanalista Carmem Mion, psicanálise refere-se a um método de observação da alma humana e um corpo teórico crescente que organiza essas experiências relacionando-as ao desenvolvimento emocional do homem.

Referências: ROUDINESCO. Elisabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro; Zahar, 2016 OLIVEIRA, Carmen.LUCIA Montechi VALLADARES. A biografa de um herói do pensamento. Mentecérebro, São Paulo, ano XII, n.284, p.16-23, set 2016.


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