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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Woody Allen, cineasta

Allan Stewart Königsberg, (Nova Iorque, 1 de dezembro de 1935) é um cineasta, roteirista, escritor, ator e músico norte-americano. São 48 filmes (longa metragem), 10 peças teatro e 12 livros. Nome artístico, Woody Allen. Aos 80 anos, eis um profissional que em plena atividade (lançou o filme "Café Society"), não precisa provar mais nada a ninguém!


woodyallen15214220.jpeg Acorda cedo, leva os filhos adolescentes para a escola, caminha na esteira e depois passa horas na cama ou na máquina de datilografar que o acompanha há mais de 60 anos. É assim que Allen, um dos cineastas mais importantes da história, continua a dirigir e escrever um filme por ano.

Essa visão não é diferente daquele Woody Allen entrevistado pela Rolling Stone, americana em 1987, que ao ser perguntado se era feliz quando estava filmando respondeu "sim, é uma distração importante. Sempre achei que se alguém consegue ajustar sua vida de modo a manter-se obcecado por coisas pequenas, acaba evitando ficar obcecado com as coisas realmente grandes. Se você cria uma obsessão por algo muito grande, acaba se sentindo impotente e assustado, porque não há nada que possa fazer a respeito do envelhecimento e da morte. Mas você pode passar o dia obcecado por coisa pequenas, como uma boa tirada para o terceiro ato. Esse é o tipo bom de problema para se concentrar, porque não é tão grave quanto pensar em cirurgias, por exemplo. Sou um pouco mais mórbido que as pessoas normais".

Em 2015, quando esteve em Cannes na França, para lançar "Homem Irracional", conversou com Rodrigo Salem da Folha sobre morte, frustrações, mulheres bonitas e o projeto no Rio que nunca foi adiante. Vale lembrar, que em 2016, já lançou "Café Society".

Mas, para captar o pensamento de Allan Stewart Königsberg, melhor voltar um pouco no tempo, quando em entrevista a Joseba Elola de El País, quando disse "vivemos em um mundo que não tem sentido nem propósito. Somos mortais e todas as perguntas importantes... Para mim o importante nunca foi quem é o presidente dos Estados Unidos, essas questões vão e vêm. As perguntas importantes ficam conosco e não têm resposta. Por que estamos aqui? O que estamos fazendo aqui? Onde isso vai dar? Por que é importante envelhecermos, por que morremos? O que significa a vida? E se não significa nada, de que serve? Essas são as grandes questões que nos deixam loucos, não têm resposta, e é preciso seguir adiante e esquecer-se delas".

Perguntado se abordou todas essas questões ao longo de sua filmografia. À medida que o tempo passa, as pessoas as enfrentam de uma forma diferente? Responde: "algumas pessoas sim, elas mudam. Eu não mudei o suficiente; quem dera tivesse mudado mais. Há pessoas cujos pontos de vista se modificam conforme as décadas passam. Começam acreditando em Deus e quando são mais velhas param de acreditar, porque a vida as desiludiu. Com outros acontece o contrário, se tornam mais velhos e começam a acreditar em Deus porque sua experiência os leva à conclusão de que há um poder superior, que há algo mais..."

Sua visão não é muito otimista, aliás. A vida sempre lhe pareceu tão trágica?

"Sim, desde que fui capaz de pensar, desde que tinha cinco anos, sempre me pareceu tremendamente trágica".

Quando lhe perguntam sobre a questão de fazer um filme por ano desde 1966, com duas exceções. E como faz isso?

"Não se deve confundir a quantidade com a qualidade. Tenho saúde, graças a Deus, e continuo trabalhando, é agradável. Mas isso não diz nada sobre a qualidade dos filmes. Se me dissesse que fiz grandes filmes, um atrás do outro, desde 1966, isso seria um engano".

E quais são aqueles selecionados do autor? "Ah, sim; acho que fiz alguns filmes bons; não grandes filmes, mas filmes bons".

"A rosa púrpura do Cairo é um bom filme; Zelig também; Tiros na Broadway..."

Em 2011, foi produzido um documentário a seu respeito, sobre o que foi dito (o descreviam como uma pessoa tímida, um pouco adolescente, hipocondríaco, cheio de fobias). É assim?, faz um reparo, "Até certo ponto. Não sou cheio de fobias, tenho algumas. Não entro em túneis, sou claustrofóbico. Não sou hipocondríaco; sou mais um alarmista: não imagino que estou doente, mas se vejo uma coisinha pequena aqui, uma picada de mosquito, penso que é um tumor cerebral. Tenho peculiaridades, mas não são perigosas..."

Sobre suas características, afirma "sim, não sou um intelectual. Gosto de tocar jazz; gosto de assistir basquete, beisebol, futebol americano, tênis, gosto de esporte... Não são atividades de intelectual".

Sua visão sobre o Oscar e as pessoas

"Não sou uma pessoa de prêmios. É possível dizer qual é o filme favorito de alguém, mas não qual é o melhor filme. Quem pode dizer isso? São avaliações pessoais, não significam nada. Para o Oscar, as pessoas fazem campanha e gastam milhões de dólares para comprar esses prêmios".

O mundo

"Sou muito pessimista porque o problema do mundo é que ele depende das pessoas. Se você olhar a história, vê que as pessoas não fizeram um bom trabalho administrando-o, cuidando dele, vivendo nele. Não tenho muito claro que o mundo vá sobreviver; não há muitas razões para o otimismo no momento, talvez em alguns anos haja melhores perspectivas".

Esperança "Bem, há uma porção de pessoas agradáveis. Mas ou não há suficiente, ou são passivas demais, ou a tarefa é opressiva; ou os maus têm mais ambição e energia. Mas é difícil encontrar um ponto luminoso na história da humanidade".

As pessoas "As pessoas, em geral, estão assustadas. E quando estão assustadas, agem equivocadamente, se comportam mal. É a condição humana, a trágica condição da existência. As pessoas estão ansiosas e assustadas, não têm nada em que crer, nem têm esperança, e a vida é muito complicada, então se comportam mal. Se amanhã ficasse claro que a vida tem sentido, ou que há um deus no universo, sem dúvida as pessoas agiriam melhor e a situação mudaria radicalmente para melhor. Não é que as pessoas sejam inerentemente más, é que elas têm medo e por isso se comportam mal".

"Eu estou tão assustado quanto todo mundo, mais do que a maioria; e sou uma das pessoas que se comporta decentemente apesar de tudo. Há pessoas assim, mas não muitas".

Para os curiosos e interessados em geral, em qualquer biografia, alguma perguntas são necessárias. Escritor ou cineasta. O que vem antes quando você escreve: o personagem ou o tema? "Neste caso, o tema do filme veio antes e precisei criar o personagem para contar aquela história específica. Sabia que linha filosófica queria inseri-lo, então decidi que seria um professor. Pensei por dois meses e finalmente tudo ficou claro". (aqui faz referência ao filme e personagem de Joaquin Phoenix em "O Homem Irracional").

Há uma linha óbvia que podemos seguir nos temas dos seus filmes desde "Um Assaltante Bem Trapalhão"?

"Há temas recorrentes, mas acidentais. É como uma psicanálise: você fala e fala e fala e o médico não abre a boca. Depois de cinco anos, você nota que alguns assuntos aparecem frequentemente e, então, possuem algum significado. Então, ao longo dos anos, mesmo nos meus primeiros filmes, há um assunto presente: amor e morte. Você pode achar que há milhares de piadas diferentes neles, mas são todas sobre vida e morte, mortalidade e escolha. Não há nenhuma resposta, são apenas piadas. E tenho feito muita coisa sobre mágica, porque ela está relacionada à religião. Ambas falam sobre algo que não podemos ver, que existe uma força além, mas, no fim, não são verdadeiras. Tudo que temos está na nossa frente. Não há mágica, ninguém vai te salvar.

Em "O Homem Irracional", o personagem decide matar alguém para tomar uma decisão irracional. No começo, isso funciona e parece mudar sua vida para melhor, mas é irracional. Ao mesmo tempo, não é mais maluco que se você conversar com um católico fervoroso e ele falar que vai levar uma vida honesta para poder subir ao Paraíso abençoado. De certa maneira, isso é uma loucura também, porque nada vai acontecer quando ele morrer; não vai começar a flutuar e partir para o céu. Ou na religião judaica, quando Moisés divide o mar. Isso é loucura.

Mas, em ambos os casos, ajudam as pessoas a suportar melhor a vida. No caso do personagem de Joaquin, é um pensamento perigoso, mas, no caso da religião, está provado que milhões de pessoas morreram ao longo dos séculos por causa da religião. Então, você pode rastrear nas minhas obras uma preocupação. Quando comecei, era pessimista e isso não mudou. O trabalho do artista, na minha visão, é mostrar as pessoas que tudo que vocês estão fazendo é insignificante e que tudo vai desaparecer um dia. Então, aproveitem a vida. Se há um lado positivo, acho que falhei em encontrar nos meus 45 filmes. A minha maior contribuição é tentar distrair as pessoas por duas horas, fazê-las esquecer como a vida pode ser terrível e dos problemas. Meus filmes são como um copo de água gelado em um dia quente de Verão".

E por último os segredos do gênio

Como é sua rotina diária?

"Acordo cedo, por volta das 6h30, tomo café e levo as crianças para a escola. Na volta, ando na esteira e, depois, me sento na beira da cama para escrever com uma caneta e um caderno. Quando tenho o filme todo escrito dessa maneira, vou para a máquina de escrever e essa é a parte que eu odeio, mas ninguém pode fazer por mim, porque minhas anotações nos cantos dos cadernos são incompreensíveis para alguém de fora. Datilografo uma cópia e vou para a cama de novo para ajustá-la".

Você não tem um computador? "Não. Uso a mesma máquina de datilografar desde que comecei a carreira. Tinha 16 anos quando a comprei por US$ 40. É uma Olympia portátil que funciona bem até hoje. Só precisei mudar a fita nestes 60 anos".

Ser Woody Allen, basta! Foto: Woody Allen posa para foto em set de filmagem nos EUA, em 2014, Damon Winter/The New York Times.


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