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Cinema e Literatura

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Alfredo Passos, Prof.Dr. (professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo). Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Emma Stone e sua La La Land!

No 74ª. Annual Golden Globe Awards, a atriz Emma Stone foi escolhida a melhor atriz por sua performance no filme La La Land, ao lado, do também escolhido, como melhor ator, Ryan Gosling.


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Como definir a época que vivemos? Século XXI? Era pós-moderna? Tempos hipermodernos? Desde os anos 1970, muitos pensadores, da antropologia a teologia, passando pela filosofia e sociologia, tentam explicar e dar nomes ou metáforas, significados, além é claro de formular teorias para definir o mundo contemporâneo, o que inclui a ascensão e queda do capitalismo, com a crise de 2008, a era da informação, era do conhecimento, globalização, não globalização, entre outros.

Tempos hipermodernos é a definição de Gilles Lipovetsky, filósofo e sociólogo francês. Em seu livro “De la légèreté: vers une civilisation du léger” (2015), constata-se que o autor é um pensador desta época.

E o que isso significa? Época hipermoderna são tempos de aceleração, de tecnologia e de paradoxos.

Em 2015, por iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Lipovetsky recebeu o título de Doutor Honoris Causa da PUCRS. Dias antes da cerimônia, foi entrevistado pelo Professor Doutor em Sociologia pela Sorbonne, Juremir Machado da Silva, para o suplemento cultural do centenário jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Desta entrevista, vou reproduzir algumas de suas respostas para fazer uma conexão com o assunto do filme em questão.

Felicidade

“A noção de felicidade não mudou muito desde a antiguidade, desde os gregos, A felicidade é, antes de tudo, estar em paz consigo mesmo, estar de acordo consigo mesmo. Amar a si mesmo. Gostar da vida que se leva. O que mudou é a maneira de alcançar a felicidade. Na hipermodernidade, há uma oferta acelerada de instantes fugitivos de felicidade – comprar um carro, fazer uma viagem, trocar cor do papel de parede, enfim, ínfimas manifestações típicas do hiperconsumismo -, mas a verdadeira felicidade, como definida antes, é mais rara, mais difícil, menos disponível. A felicidade material avança, mas não a espiritual no seu sentido mais antigo e clássico. Não existe uma hiperfelicidade nos termos pensados pelos gregos.”

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After winning the category of BEST PERFORMANCE BY AN ACTRESS IN A MOTION PICTURE – COMEDY OR MUSICAL for her work in "La La Land," actress Emma Stone poses backstage in the press room with her Golden Globe Award at the 74th Annual Golden Globe Awards at the Beverly Hilton in Beverly Hills, CA on Sunday, January 8, 2017. Photographer: HFPA Photographer

Futuro

“A modernidade pensava ter decifrado o futuro. A filosofia da história dizia que a humanidade avançava com um sentido, em certa direção determinada. O futuro, de certa forma, estaria inscrito nas leis da história e nos genes do presente. Não é assim. O futuro está em aberto, exposto às incertezas e aos saltos da história. Isso cria ansiedade e temor, mas é uma sorte, pois a margem de manobra humana aumenta. Se o futuro estivesse predeterminado, nossa margem de liberdade seria ainda menor. O futuro depende de nós nas condições concretas em que vivemos. Podemos fazer projeções. O futuro produz esperanças, em função do desenvolvimento da ciência, e temor, por causa das ameaças da intolerância, dos conflitos e do ódio. Como viveremos juntos? Eis a questão. A educação contará muito para isso.”

Sobre o filme

Escrito e dirigido por Damien Chazelle (sua estréia foi em 2009, com Guy and Madeline on a Park Bench, e teve seu primeiro destaque internacional em Whiplash, que lhe rendeu cinco indicações ao Oscar 2015). LA LA LAND conta a história de Mia [Emma Stone], uma aspirante a atriz, e Sebastian [Ryan Gosling], um músico de jazz dedicado, que estão lutando para fazer face às despesas em uma cidade conhecida por esmagar esperanças e quebrar corações. Situado em um dia de Los Angeles, este é um musical original, sobre a vida cotidiana, que explora a alegria e a dor de pessoas que estão a perseguir seus sonhos.

Os musicais e o Oscar

Globo de Ouro é uma coisa, Oscar é outra.

Os musicais já tiveram seu tempo dourado. O musical "Melodia da Broadway" (1929) venceu a estatueta de melhor filme e foi o primeiro longa todo falado a ganhar um Oscar nessa categoria. O prêmio seguinte veio anos depois, em 1937, com "Ziegfeld - O Criador de Estrelas" (1936).

Na 17ª edição, a história de um jovem padre em "O Bom Pastor" (1944) levou sete Oscars, entre eles, o de melhor filme. Nesse ano, um dos atores, Barry Fitzgerald, foi indicado pelo mesmo papel em duas categorias, melhor ator e ator coadjuvante. Foi a única vez que isso aconteceu na história do Oscar. O resultado? Ele perdeu na categoria de melhor ator para o seu companheiro no filme, Bing Crosby, mas ganhou, como ator coadjuvante.

Em 1952 e 1959, "Sinfonia de Paris" (1951), com o ator Gene Kelly, e "Gigi" (1958), foram premiados. Este último entrou para a história do Oscar, mas não por causa do número de indicações ou vitórias. "Gigi" é o filme com o nome mais curto (apenas quatro letras) a ganhar a estatueta. O maior? "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" (2003).

Mas o período de glória para os musicais foi na década de 60. O gênero levou o prêmio nos anos de 1962 com "Amor, Sublime Amor" (1961), o musical mais premiado da história (dez prêmios Oscar); por dois anos seguidos - 1965 e 1966 - com "Minha Bela Dama" (1964) e "A Noviça Rebelde" (1965); e, por fim, em 1969, com "Oliver!" (1968). Depois disso, um musical só voltaria a ganhar na categoria de melhor filme, 34 anos depois: "Chicago" (2002), em seis categorias, entre elas a mais disputada: a de melhor filme.

Em 2013, portanto mais dez anos, outro musical conseguiu concorrer como melhor filme. Foi "Os Miseráveis", que recebeu oito indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme, melhor ator (Hugh Jackman), melhor atriz coadjuvante (Anne Hathaway) e melhor canção ("Suddenly"), mas perdeu na categoria de melhor filme para “Argo” e venceu na de melhor atriz coadjuvante com Anne Hathaway e mixagem de som com Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayes.

Será que esta falta de filmes musicais representa a era das utopias "light" como chama Lipovetsky? O elogio à magreza e a consagração do bem-estar triunfam. O mundo virtual, os dispositivos móveis, os nanomateriais mudaram nosso dia-a-dia. Do mesmo modo, a cultura midiática, a arte, o design e a arquitetura exprimem o culto contemporâneo à leveza. O leve invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal.

Será que não estamos em busca de nossa La La Land?


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