alfredo passos.br

Cinema e Literatura

alfredo passos

Alfredo Passos, Prof.Dr. (professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo). Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Isabelle Huppert, o pensar chega ao Oscar

As atrizes americanas recusaram. E o diretor holandês Paul Verhoeven chegou ao seu nome. Já ganhou o Golden Globe. Na Europa é reconhecida e muito premiada. Na França uma lenda. Essa é Isabelle Huppert, a francesa que agora concorre ao Oscar de melhor atriz 2017.


elleCartaz.jpg

"Não me deixo intimidar por aspectos incomuns ou inesperados de uma personagem. É para isso que eu vivo", conta a atriz, para a jornalista do Valor, Elaine Guerini em Toronto, onde "Elle" foi uma das atrações da 41ª edição do Tiff, o festival de cinema da cidade.

O filme em questão chama-se “Elle”. Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela.

elle2MV5BMTc5NDI5MzA1OF5BMl5BanBnXkFtZTgwMTQzNTQwMDI@._V1_.jpg

"Não vi motivo para qualquer polêmica. Não há razão para isso, se nós nos acostumarmos de uma vez por todas com a ideia de que as pessoas nem sempre reagem da maneira que esperamos", afirma Isabelle.

Além do Golden Globe, prêmios é o que não faltam para esta francesa de 63 anos, discreta, quatro premiações em Veneza, 15 vezes indicada ao César (prêmio equivalente ao Oscar na França), presença recorde em Cannes.

Segundo, Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo, Isabelle Huppert , é a atriz de cinema melhor preparada intelectualmente que conheceu. Cita como exemplo, uma entrevista com a atriz, em agosto de 1994, em uma mostra de cinema no Rio, ao acabar de ler a edição especial da revista Cahiers du Cinema (nº477, março de 1994) por ela editada da primeira à última página.

"Gosto de personagens com camadas, permitindo leituras mais profundas sobre a condição humana", diz Isabelle, referindo-se a "Elle".

Entre seus filmes estão “Amor” (2012) que retrata a paixão de um casal de idosos; “A professora de Piano” (2001) uma professora que frequenta sex shops e se envolve com aluno; “Madame Bovary” (1991) adaptação de Gustave Flaubert por Chabrol; “Um assunto de mulheres” (1988) filme de Chabrol, onde faz papel de analfabeta que faz abortos e tem final trágico; “Um Amor tão Frágil” (1977) sua personagem trabalha em um salão de beleza e vive um amor impossível com universitário.

"Quem disse que é preciso entender perfeitamente uma personagem para interpretá-la? É até mais divertido quando eu não a entendo, e isso acontece com certa frequência", diz Isabelle, rindo. "Aprecio mais as obras que propositadamente fogem das respostas objetivas, instigando assim a subjetividade da plateia. “O fato de a executiva de "Elle" não justificar as suas ações, mesmo quando tem relações sexuais com um suspeito de ser seu agressor, só confirma que a atriz estava no caminho certo. Ou, como ela prefere dizer, "no caminho inesperado para uma vítima de estupro".

Ganhou o troféu de melhor atriz do Festival de Cannes por "A Professora de Piano" (2001), de Michael Haneke, na personagem de uma mulher de 40 anos incapaz de se relacionar com o sexo oposto, limitando-¬se aos filmes pornôs e aos rituais eróticos masoquistas.

Com Claude Chabrol (1930-¬2010), filmou "Um Assunto de Mulheres''(1988), arrebatando a Copa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza pelo desempenho como a analfabeta que sustenta os filhos fazendo abortos na França ocupada pelos nazistas.

Elle

“Talvez o estupro não seja o que mais perturbe no filme”, na visão de Isabelle. "Ainda que 'Elle' seja iniciado com o crime, o propósito do longa não é discutir a violência contra a mulher, muito menos de forma realista", diz. Nesse sentido, o drama segue o tom elíptico e elegante do livro no qual foi baseado, "Oh..." (2012), do escritor francês Philippe Djian. "A obra é uma espécie de fábula sobre uma mulher que, mesmo sendo poderosa, não consegue escapar de um ato brutal. O que parece realmente incomodar é Michèle não seguir o comportamento feminino padrão após o ocorrido, recusando-se a procurar a polícia e a bancar a vítima." Embora haja explicação para a executiva não registrar a ocorrência ­ uma tragédia familiar a levou às páginas policiais dos jornais ­, talvez Michèle seja livre demais para obedecer aos códigos da sociedade. "Por que ela não pode preferir resolver a questão sozinha?'', diz Isabelle.

elle3MV5BM2I4NjA2NWEtNTFkZS00MjNkLWI4MzAtYjE2NzJjMzYyODRmL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyNDUzOTQ5MjY@._V1_SY1000_CR0,0,1502,1000_AL_.jpg

Na 89ª. edição do Oscar, a produção francesa “Elle” não vai disputar a categoria de melhor filme estrangeiro. Será representada apenas por Isabelle Huppert. Suas concorrentes são Emma Stone (La La Land), Meryl Streep (Florence: Quem É Essa Mulher?), Natalie Portman (Jackie) e Ruth Negga (Loving).

Em tempos de governo Donald Trump, esperar que o Prêmio de melhor atriz seja dado para uma francesa é acreditar em Papai Noel e Branca de Neve, mas vale acreditar. Será a segunda vez que isso acontece, em língua francesa. Marion Cotillard foi a primeira atriz a levar um Oscar, por interpretar “Piaf: Um Hino ao Amor”, em 2008.

Simone Signoret (1921-1985), estrela de cinema francesa dos anos 1940 e 1950, foi premiada em 1960, mas pelo filme americano “Almas em Leilão”, atuando em inglês.

Claudete Colbert (1903-1996), atriz nascida na França e criada nos EUA, conquistou o Oscar por “Aconteceu Naquela Noite” (1934), contracenando com Clark Gable (1901-1960), mas em inglês.

A ver.


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //alfredo passos
Site Meter