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Cinema e Literatura

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Alfredo Passos, Prof.Dr. (professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo). Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Oprah Winfrey e sua Henrietta Lacks

A vida imortal de Henrietta Lacks reconstitui a vida e a morte de uma das mais injustiçadas personagens da história da medicina.


17111282oprah como henrietta lacks.jpg Foto: Quantrell Colbert/HBO via Associated Press

Nome de batismo, Loretta Pleasant, mas tornou-se Henrietta. Como? Ninguém sabe. Ela era descendente de escravos e nasceu em 1920, numa fazenda de tabaco no interior da Virgínia.Aos 21 anos, emigrou com o marido, David, seu primo em primeiro grau, para os subúrbios da região de Baltimore. Aos trinta anos, mãe de cinco filhos, Henrietta descobriu que tinha câncer. Em poucos meses, um pequeno tumor no colo do útero se espalhou por seu corpo.

Ela perdeu rapidamente o vigor, convertendo-se num “espécime miserável”, nas palavras impiedosas do prontuário médico do Hospital Johns Hopkins, onde se tratava e onde veio a falecer, em 1951. No Johns Hopkins, uma amostra do colo do útero de Henrietta havia sido extraída sem o seu conhecimento, e fornecida à equipe de George Gey, chefe de pesquisa de cultura de tecidos naquela instituição. Gey demonstrou que as células cancerígenas desse tecido possuíam uma característica até então inédita: mesmo fora do corpo de Henrietta, multiplicavam-se num curto intervalo, tornando-se virtualmente imortais num meio de cultura adequado.

Por causa disso, as células HeLa, batizadas com as iniciais da involuntária doadora, logo começaram a ser utilizadas nas mais variadas pesquisas em universidades e centros de tecnologia, nos Estados Unidos e no exterior.

O surgimento de uma bilionária indústria de medicamentos sintéticos e as fabulosas cifras atualmente envolvidas em pesquisa genética devem-se em grande medida à comercialização das células de Henrietta. A vacina contra a poliomielite e contra o vírus HPV, vários medicamentos para o tratamento de câncer, de aids e do mal de Parkinson, por exemplo, foram obtidos com a linhagem HeLa. Apesar disso, os responsáveis jamais deram informações adequadas à família da doadora e tampouco ofereceram qualquer compensação moral ou financeira pela massiva utilização das células.

A vida imortal de Henrietta Lacks – o livro 12974_gg A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS.jpg

Rebecca Skloot tenta reverter esse quadro, compondo um comovente relato da vida e da morte da mulher negra e humilde cujo trágico e precoce desaparecimento mudou a história da medicina. Por meio do estreito contato mantido com filhos, netos e o viúvo de Henrietta durante a pesquisa para o livro, a autora discute com muita lucidez as delicadas e complexas questões éticas e raciais envolvidas na história.A autora criou uma fundação para onde parte dos proventos do livro é encaminhada.

Rebecca Skloot , escreve sobre ciência e publicou artigos em veículos como The New York Times Magazine, Discover e O: The Oprah Magazine. Atualmente colabora como editora na revista Popular Science e é editora convidada do The Best American Science Writing 2011. Foi correspondente na NPR's Radiolab e na PBS's Nova ScienceNOW. Lecionou escrita científica e de não ficção nas universidades de Nova York, Memphis e Pittsburgh. A vida imortal de Henrietta Lacks, seu primeiro livro, tornou-se best-seller imediato nos Estados Unidos, recebeu inúmeros prêmios e está sendo traduzido para mais de vinte línguas. Foi adaptado para a televisão pela HBO, com produção de Oprah Winfrey e Alan Ball.

A vida imortal de Henrietta Lacks – o filme

Após tentativas frustradas, foi o diretor e roteirista George C. Wolfe que mostrou o caminho para transformar em filme o best-seller "A Vida Imortal de Henrietta Lacks, cujos diretos haviam sido comprados por Oprah Winfrey. O filme tira um pouco da ciência e centra mais o drama. Wolfe diz, a história da americana negra cujas células extraídas em 1951 revolucionaram a ciência moderna virou uma "jornada em busca do autoconhecimento".

A estreia mundial no HBO, mostram que filme e livro são homônimos. Produtora, Oprah também foi convencida por Wolfe a fazer o papel principal, da filha de Henrietta, Deborah Lacks. "Tinha medo de não ser boa suficiente. Não fiz muitos filmes [cinco]. Tinha medo de o diretor pensar: ai meu deus, deveria ter escolhido outra", contou Oprah, em entrevista à imprensa internacional. A insegurança faz pouco sentido. Sua atuação é o ponto alto do filme.

O filme é focado na relação de Deborah com a autora do livro, Rebecca Skloot, uma jornalista jovem e branca interpretada por Rose Byrne. Mesmo com a resistência de parte da família em confiar na escritora, as duas descobrem juntas como viveu a mulher pobre de Baltimore, que trabalhava na lavoura de tabaco. Vasculham de prontuários médicos a memórias de abuso infantil e racismo.

Henrietta soube que tinha câncer de colo do útero aos 30 anos e morreu meses depois em 1951. No tratamento no Hospital Jonhs Hopkins, um dos poucos que recebia negros, amostras de suas células foram extraídas sem seu consentimento. Descobriu-se que tinham uma característica inédita, a de se reproduzir de maneira impressionante e continuar vivas fora do corpo. Desde então, as células HeLa (as iniciais do seu nome) foram responsáveis por grande parte do avanço da pesquisa genética. Por causa delas, foi possível desenvolver vacinas contra a poliomielite, medicamentos contra o câncer, Aids, Parkinson.

A família Lacks demorou 20 anos para saber que as células haviam sido retiradas e nunca receberam por isso. "Estive no Jonhs Hopkins várias vezes e nas mesmas ruas em que sua família morou. Sou negra, conheço a história dos negros americanos e nunca tinha ouvido uma menção sobre seu nome", relata Oprah.

Para a apresentadora, o filme vai ajudar a luta da família. "Ninguém hoje estaria mais feliz do que Deborah Lacks [morta em 2010]. O que ela mais queria é que todo mundo conhecesse essa história."

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS DIREÇÃO George C. Wolfe - PRODUÇÃO HBO, EUA, 2016; 12 anos Fonte: RENATA CAFARDO, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM NOVA YORK, 22/4/2017.


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