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Cinema e Literatura

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Alfredo Passos, Prof.Dr. (professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo). Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Cinema e Psicanálise: A Bela da Tarde

O filme "A Bela da Tarde", vencedor do Leão de Ouro em Veneza, foi dirigido pelo espanhol Luis Buñuel Portolés (1900-1983), conhecido por sua obra surrealista e pela parceria com Salvador Dalí nos cultuados Un Chien Andalou e L’Age d’Or, um dos maiores autores do cinema, completa 50 anos.


20214109.jpg Um filme clássico dos anos 1960, completa 50 anos, com versão restaurada em 4K. Em Portugal o filme foi lançado com o título "Bela de dia", enquanto no Brasil recebeu o nome de "A Bela da tarde".

No elenco um das atrizes mais reverenciadas do cinema francês: Catherine Deneuve, vestida por outro renomado francês, Yves Saint Laurent.

O filme dirigido por Luis Buñuel em 1967, baseado no livro de Joseph Kessel, retrata a história de Séverine (Catherine Deneuve), jovem, rica, casada com um cirurgião de sucesso e infeliz, que procura um discreto bordel para realizar suas fantasias sexuais e conseguir o prazer que seu marido não consegue lhe dar.

Curiosa, Séverine termina acostumando-se a uma vida dupla. Até o aparecimento de Marcel, um delinquente que se enamora da mulher, e complica a cômoda situação da protagonista.

Os autores

O diretor, Luis Buñuel exilou-se no México durante a Guerra Civil na Espanha e adquiriu a cidadania mexicana. Venceu a Palma de Ouro e o Leão de Ouro, além do Oscar de filme estrangeiro por O Discreto Charme da Burguesia.

Joseph Kessel, escritor e jornalista francês nascido na Argentina e membro da Academia Francesa, foi correspondente de guerra. Kessel pertence à chamada era de ouro dos grandes repórteres. Como escritor, filiou-se à vertente do psicologismo francês. É autor de O Leão, filmado por Jack Cardiff, em 1962, e A Bela da Tarde, e assim justifica, a publicação em livro da narrativa que saíra previamente em fragmentos no jornal Gringoire, e que criara em seu redor uma instigante polêmica, no prefácio ao seu romance de 1928:

"Expôr o drama da alma e da carne sem falar tão livremente de uma como de outra parece-me impossível. […] O que eu tentei fazer com Belle de Jour foi mostrar o terrível divórcio entre o coração e a carne, entre um verdadeiro,imenso e terno amor e a exigência implacável dos sentidos. […] Escolhi tratar este assunto tal como se toma um coração doente para melhor saber o que se esconde num coração são, ou tal como se estudam as perturbações mentais a fim de compreender o movimento da inteligência. O assunto de Belle de Jour não é a aberração sensual de Séverine, é o seu amor por Pierre independentemente desta aberração, e é a tragédia deste amor".(KESSEL,1928, p.9)

O leitor e o espectador, podem, deste modo,aperceber-se da batalha que se trava no coração de Séverine, das emoções que ela experimenta, das dúvidas e remorsos que sente e, finalmente, do sofrimento que a atormenta quando Pierre se torna a vítima inocente do seu indecoroso comportamento.

Há muito de ensaio médico e “científico” nesta relativamente curta narrativa literária, constituída por um Prólogo e dez capítulos – onde os problemas afloram, aliás, durante uma longa doença de Séverine – , mas a dimensão moral não está ausente do dilema que aqui se configura, dando ao leitor os elementos e o tempo necessários para que possa ajuizar a complexa e bizarra situação que vê desenhar-se à frente dos seus olhos.

Depois da primeira ida à casa de passe de Mme Anaïs, onde lhe é dado o nome de Belle de Jour, Séverine regressa a sua casa, dominada por um turbilhão de pensamentos e sentimentos, procurando compreender a razão por que tomara aquela terrível decisão: Será que pode castigar-se um acesso de loucura?

E poderia dar-se outro nome ao que ela tinha feito? Era necessário curar o mal que a tinha atingido subitamente, nessa altura nada restaria desta semana horrível. E a cura, dizia se ela, seria certamente possível, pois ela quase morrera devido à sua louca iniciativa, e a mera ideia de voltar a casa de Mme Anaïs enchia-a de pavor [...] (KESSEL, 1928, p. 60)

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Pensando em Pierre, e no medo que a assaltava de que ele pudesse desconfiar de alguma coisa, a consciência de Séverine pesava, acreditando que o seu pecado pudesse ser visível a olho nu, que o mal da sua alma tivesse deixado marcas no seu corpo.

Belle de Jour inspirou música de Alceu Valença no Brasil e até outro filme de Manoel de Oliveira, Belle Toujours, tornando-se assim mito universal.

Cinema e Psicanálise

Jacques Lacan, formado em medicina, neurologia, chegou à psicanálise pela via do surrealismo. Buñuel foi sempre um de seus objetos preferidos de análise com estudantes. Não apenas Buñuel, diga-se de passagem. Lacan também adorava o rei do melodrama, Douglas Sirk. Mas da produção de Buñuel, era O Alucinado que ele gostava de exibir, e debater.

O filme se inscreve na vertente da análise do comportamento humano, como havia sido antes El Bruto e seria depois A Bela da Tarde. Buñuel inspirou-se no relato de uma autora espanhola, Mercedes Pinto, que contou, em primeira pessoa, sua relação com o marido paranoico.

Sobre o filme:

Título original: Belle de Jour. Origem: França, Itália. Gênero: Drama. Duração: 101 min. Diretor(a): Luis Buñuel. Roteirista(s): Jean-Claude Carrière baseado em romance de Joseph Kessel

Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clémenti, Françoise Fabian, Macha Méril, Muni, Maria Latour, Claude Cerval, Michel Charrel, Iska Khan, Bernard Musson, Marcel Charvey, François Maistre.

Referências bibliográficas:

BELLO, Maria do Rosário Lupi. DE KESSEL A BUÑUEL E OLIVEIRA:QUANDO O CINEMA RESPONDE À LITERATURA. UAb - Universidade Aberta de Lisboa. Cadernos de Semiótica Aplicada, Vol. 10.n.2, dezembro de 2012.

KESSEL, J. Belle de Jour. Paris: Éditions Gallimard, 1928.

MERTEN, Luiz Carlos. Obra-prima de Buñuel, ‘Belle de Jour’ volta em versão restaurada. O Estado de S. Paulo, 09 Dezembro 2017.


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