alfredo passos.br

Cinema e Literatura

alfredo passos

Alfredo Passos, Prof.Dr. (professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo). Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Os diretores de cinema octogenários

Que profissionais podem estar no auge de sua força para trabalhar de forma tão vigorosa como o diretor de cinema, Clint Eastwood aos 86 anos de idade, ou irmãos Taviani: Vittorio, 87, e Paolo, 85 anos? Os oitentões, continuam produzindo como nunca!


Fernando_Pino_Solanas-k5zC-U201475228761dCC-1024x576@GP-Web.jpg Fernando Solanas, 80 anos. Foto: Jorge Barragan/Creative Commons

Será pouco provável encontrar outra pessoa com tanta energia física e criativa como a do diretor de cinema português, Manoel de Oliveira, que faleceu aos 106 anos, em 2015. Trabalhou com regularidade, dirigiu 62 filmes, entre longas e curtas. Tinha 84 anos de carreira e 47 prêmios no currículo.

Seus últimos trabalhos foram “O Velho do Restelo” e "Chafariz da Virtude", de 2014. Desde 1981, manteve média de mais de um filme por ano. Filmava o longa "Singularidades de uma Rapariga Loira", seu 42º longa, no dia em que completou 100 anos. Deixou a cadeira de diretor e correu para terminá-lo a tempo de apresentá-lo no Festival de Berlim de 2009.

Mas, Manoel de Oliveira, tem seguidores. Ainda não centenários, mas já octogenários, na verdade, alguns quase nonagenários, como os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani, os americanos Clint Eastwood e Woody Allen, o franco-suíço Jean-Luc Godard, o britânico Ken Loach, entre outros lembrados pela agência RBS.

Clint Eastwood, 86 anos clint-eastwood-k5zC-ID000002-1024x576@GP-Web.jpeg Apresentando uma sequência de dramas biográficos – “J. Edgar”, “Jersey Boys” e “Sniper Americano” –, o diretor lançou em 2016 o vigoroso “Sully: O Herói do Rio Hudson”, estrelado por Tom Hanks. Mas a história do piloto do Airbus que fez um pouso de emergência sobre a água, no coração de Nova York, salvando todos os passageiros e tripulantes, acabou esquecida na temporada de premiações. Eastwood está agora cotado para comandar “The Ballad of Richard Jewell”, sobre um policial americano suspeito de participar do atentado a bomba ocorrido na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Leonardo DiCaprio e Jonah Hill podem ser os protagonistas.

Roman Polanski, 83 anos Após o drama erótico “A Pele de Vênus” (2013), o realizador polonês toca dois projetos. Ainda este ano, Polanski lança o suspense psicológico “D’Après Une Histoire Vraie”, com sua mulher, Emmanuelle Seigner, e Eva Green, sobre escritora perseguida por uma fã obcecada. Também prepara uma releitura do Caso Dreyfuss, o julgamento do oficial acusado de traição que dividiu a França no século 19.

William Friedkin, 81 anos Depois de cair em desgraça em Hollywood, o autor de clássicos da década de 1970 como “Operação França” e “O Exorcista” ressurgiu com força nos anos 2000, em filmes como “Possuídos” (2006) e “Killer Joe – Matador de Aluguel” (2011). Friedkin está agora ligado à produção de “Frankie Machine”, sobre um insuspeito pai de família que é assassino da máfia.

Irmãos Taviani: Vittorio, 87, e Paolo, 85 anos Taviani_brothers-k5zC-U201475228761S4F-1024x576@GP-Web.jpg Os realizadores de clássicos como “Pai Patrão” (1977) e “A Noite de São Lourenço” (1982) conquistaram em 2012 o Urso de Ouro no Festival de Berlim com o inventivo docudrama “César Deve Morrer”, no qual acompanham presidiários encenando “Júlio César”, de Shakespeare. Apresentaram depois “Maravilhoso Boccaccio” (2015), adaptação de histórias do período medieval publicadas por Giovanni Boccaccio em “Decameron”. Em 2017, os manos devem lançar “Una Questione Privata”, sobre a resistência italiana contra o nazifascismo na II Guerra Mundial.

Jean-Luc Godard, 86 anos O mais inquieto dos realizadores da Nouvelle Vague já promoveu muitas reviravoltas na carreira. Foi um dos pioneiros no uso do suporte digital e, no experimental “Adeus à Linguagem” (2014), investiu na projeção 3D para expandir o impacto sensorial do espectador. O mestre franco-suíço segue remando contra a corrente do cinema como mero entretenimento. Sua próxima provocação está a caminho: “Image et Parole” deve ser apresentado ainda em 2017. Com cenário em uma região petrolífera do Oriente Médio, o filme embaralha ficção e documentário para tratar, como sempre à luz da sagacidade política, filosófica e humanista de Godard, de temas como guerra, poder e pobreza.

Woody Allen, 81 anos Como é recorrente, o diretor americano lança um filme já preparando seu próximo. Depois de “Café Society” e da série de TV da Amazon “Crisis in Six Scenes”, ambas produções que apresentou em 2016, Allen concluiu as filmagens de um drama ainda sem título ambientado na Nova York dos anos 1950. No elenco, estão Kate Winslet, Justin Timberlake, Juno Temple e Jim Belushi.

Ken Loach, 80 anos O cineasta britânico conquistou sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes com “Eu, Daniel Blake”, em cartaz nos cinemas. Atento aos dramas da classe trabalhadora, o engajado Loach coloca nesse filme o tema sob a perspectiva do desamparo na velhice, com a odisseia de um carpinteiro (Dave Johns) para receber o benefício social após sofrer um infarto. Também em 2016, Loach apresentou o documentário “In Conversation with Jeremy Corbyn”, registro de um encontro com o líder do Partido Trabalhista e principal voz da oposição no Reino Unido.

Carlos Saura, 85 anos O diretor espanhol de “Cría Cuervos” (1976) e “Bodas de Sangue” (1981), entre outros títulos marcantes, vem apresentando documentários sobre a cultura ibero-americana, como “Fados” (2007), “Flamenco, Flamenco” (2010) e “Zonda: Folclore Argentino” (2015). Em 2016, mostrou “Jota de Saura” (2016), sobre as tradições da região em que nasceu, Aragón. Tem na fila “Renzo Piano, an Architect for Santander”, sobre um projeto do arquiteto italiano na Espanha.

Fernando Solanas, 80 anos O renomado cineasta argentino passou a alternar seus documentários políticos com a carreira parlamentar. Se no começo da trajetória tratava de temas como a subserviência dos países latinos às nações neocolonialistas, Solanas dedicou-se nos últimos anos a iluminar o impacto social das sucessivas crises políticas e econômicas em seu país. Lançou em 2016 “El Legado”, com reflexões sobre a figura do líder político Juan Domingo Perón (1895 – 1974).

Em entrevista ao website “Mnemocine”, em um domingo, 10 de maio de 2009, perguntado sobre a relação do cinema com a política; cinema como bem cultural ou comercial, Fernando Solanas, respondeu:

"Com cinema se pode fazer muitas coisas, se pode fazer informações, se pode fazer comércio e publicidade, se pode fazer todas as coisas. O cinema é a linguagem cultural mais completa que existe, é, portanto, um bem cultural muito precioso; no cinema cultural, no cinema documental ou de ficção, deve-se proteger a diversidade; nós entendemos, e este é um pensamento europeu, que não pode haver grande criação sem liberdade de criação. Nos Estados Unidos o autor não é o autor, é o produtor; e na Europa existe a concepção de que o autor é o roteirista e/ou o diretor. Então toda a legislação do cinema está pensando no sentido de assegurar que a liberdade daqueles que conceberam o filme esteja assegurada em sua produção, entendeu? A diversidade cultural, essa é a concepção democrática da cultura.

Não o autoritarismo de impor um filme, um só tipo de cinema repetido mil vezes. Quando vejo uma película americana eu penso que já a vi, não, não é essa, são outros atores, não seria um remake? Ah sim, mudou um pouquinho (tom de ironia). Tem que se assegurar a diversidade cultural. É algo muito complexo e não dá para sintetizar agora, com quatro fórmulas, um tema bastante complexo. E depois tem a experiência de cada autor, uns mais inquietos por problemas intimistas, outros por problemas sociais.

Enquanto que "A Nuvem" é muito argentina, é um filme poético, sobre personagens apressados em uma realidade social dramática; essa realidade social tem a ver com um tempo que é esse da aplicação do modelo neoliberal, se quer uma explicação política. Esse modelo neoliberal é aplicado em muitos países no mundo. Por isso vamos à Rússia e os russos aplaudem e dizem: isso é Rússia, durante a projeção quando veem "A Nuvem". Na Itália dizem, “isto é, Itália", e é provável que no Brasil se diga: isto é Brasil... Porque são situações semelhantes, a corrupção na sociedade, os modos de prostituir o indivíduo, comprando, vendendo… Por isso que "A Nuvem" começa e termina com uma canção que diz "Digo não", pois nem tudo se pode vender, diga não, eu digo não. ”

Filmografia (wikipedia):

  • La Próxima Estación (2008) (direção, produção, roteiro)
  • Argentina latente (2007) (direção, produção, roteiro)
  • Carpani (2006) (ator) .... Ele mesmo
  • La dignidad de los nadies (2005) (direção, produção executiva, produção, roteiro, ator) .... voz
  • La resistencia (2005) .... Ele mesmo (entrevistado)
  • Memoria del saqueo (2004) (direção, produção executiva, produção, roteiro) (ator) .... voz
  • Afrodita, el sabor del amor (2001) (direção, roteiro)
  • Che: muerte de la utopia? (1999)
  • La nube (1998) (direção, produção executiva, produção, roteiro, ator)
  • El viaje (1992) (direção, produção, roteiro)
  • Sur (filme)|Sur (1988) (direção, produção, roteiro)
  • El exilio de Gardel (Tangos) (1985) (direção, produção, roteiro, ator) .... Discépolo
  • Le regard des autres (1980) (direção, roteiro)
  • Los hijos de fierro (1972) (direção, roteiro)
  • El camino hacia la muerte del viejo Reales (1971) (produção, roteiro)
  • Perón: Actualización política y doctrinaria para la toma del poder (1971) (direção)
  • Perón: La revolución justicialista (1971) (direção)
  • Argentina, mayo de 1969: Los caminos de la liberación (1969) (produção)
  • Hora de los hornos: Notas y testimonios sobre el neocolonialismo, la violencia y la liberación, La (1968) (direção, produção, roteiro, ator .... narrador
  • Reflexión ciudadana (1963) (direção, produção, roteiro)
  • Dar la cara (1962) (ator) .... Extra
  • Seguir andando (1962) (direção, produção, roteiro)
  • Sin memoria (1961) (ator)
  • El hombre que vio al Mesías (1959) (ator)

version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //alfredo passos