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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

Cannes, alagoanos e cinema brasileiro

A união dos alagoanos Cacá Diegues e Jorge de Lima, leva a Cannes suas respectivas obras: “O Grande Circo Místico”.


A028_A_1.5.6.T.jpg Bruna Linzmeyer em 'O grande circo místico', de Cacá Diegues - RAFAEL D'ALO / Divulgação

Se o Oscar é uma celebração do cinema americano, com um destaque internacional apenas para o “melhor filme estrangeiro”, Cannes na França é a celebração do cinema mundial.

Carlos José Fontes Diegues, Cacá Diegues é alagoano, assim como Jorge Mateus de Lima. O primeiro nasceu em Maceió e o segundo em União dos Palmares.

Aos 78 anos (19 de maio de 1940), Cacá chega mais uma vez a Cannes com mais de 20 longas-metragens, mais de 20 prêmios no Brasil e no exterior.

Por sua vez, Jorge de Lima, nascido em 23 de abril de 1893 e falecido em 15 de novembro de 1953, é o criador do poema “O Grande Circo Místico”, na qual o filme se baseia.

Certa vez, sendo entrevistado para um jornal, em 1952, Jorge de Lima se definiu com singeleza: "Tenho um metro e 68 de altura, 59 quilos e meio e uso óculos. Sou meio careca e meio surdo. Sou católico praticante e meu santo é São Jorge. Visto sempre cinza e acordo às quatro da manhã, com os galos e a aurora. (...) Minha leitura predileta é poesia.(...) Sou casado, tenho dois filhos e quatro netos. Gosto de pintar, esculpir e compor."

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Jorge de Lima foi eleito Príncipe dos Poetas Alagoanos, em 1921. Foi pintor, desenhista, ilustrador, escultor, poeta, romancista e professor, além de médico, concluiu o curso de medicina no Rio de Janeiro, em 1914.

Como aponta a estudiosa Ana Maria Paulino, Jorge de Lima não se detém em um estilo único. A temática religiosa, que aparece em sua poesia, está presente também na pintura, em trabalhos em que dialoga com o expressionismo e em especial com a obra de Candido Portinari (1903 - 1962). Outra constante é a figura da mulher, retratada sobretudo como uma personagem contemplativa. Várias de suas obras apresentam ainda proximidades com o surrealismo, principalmente pelo clima onírico.

O filme

Desde que se tornou cineasta, no começo dos anos 1960, Cacá integrou quatro vezes a seleção oficial de Cannes, mais três vezes a da Quinzena dos Realizadores e uma vez a da Semana da Crítica. Ou seja, ele concorreu à Palma de Ouro três vezes, com “Um trem para as estrelas” (1987), “Quilombo” (1984) e “Bye bye Brasil” (1980). Também presidiu o júri do prêmio Caméra D’or, em 2012.

“O Grande Circo Místico” foi gravado em 2015, em Portugal. Conta a história de um grande amor entre um aristocrata e uma acrobata, juntamente com a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do século XX. Herdeiro de uma fortuna, Fred realiza o maior sonho de sua amada Beatriz e lhe dá um circo de presente, em 1910. A partir daí acompanhamos a trajetória de 100 anos de existência do Grande Circo Knieps – de seu apogeu ao renascimento das cinzas -, através de cinco gerações de uma mesma família e suas fantásticas históricas.

As filmagens foram até rápidas, apenas seis semanas. Filmamos em Portugal porque lá a lei permite usar animais de verdade, incluindo elefantes, no set. O problema veio na pós-produção. Refiz os efeitos especiais, que não estavam bons. Alguns eram decisivos para a história, porque a poesia de Jorge de Lima é surrealista. Precisei de dinheiro para isso, o que leva tempo — justifica Cacá Diegues.

O Grande Circo Místico

(Este poema está no livro “A Túnica Inconsútil” de 1938)

O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps -

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps

muito pouco se tem ocupado a imprensa.

Em entrevista recente, o cineasta disse: Não quero criticar jovens cineastas, que estão fazendo um ótimo trabalho de falar sobre temas atuais. Mas não acredito na reprodução da realidade, porque ela já está ao nosso redor. Defendo a tradição barroca da cultura brasileira, promovida por tantos compositores e escritores. Esse tipo de cinema foi um pouco esquecido. Quero resgatá-lo — conta Cacá Diegues.

Referências: O GLOBO, 22/4/2018

JORGE de Lima. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível aqui. Acesso em: 14 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7


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