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Cinema e Literatura

alfredo passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

O cineasta que mostrou o Brasil

Nelson Pereira dos Santos, paulista, criador do cinema moderno brasileiro e influenciador de muitos cineastas


nelsonpereiradossantos_josepaulolacerda_estadao.jpg Foto: JOSÉ PAULO LACERDA/ESTADÃO CONTEÚDO/Arquivo

O Brasil ainda não tem uma indústria de cinema forte e consolidada, mas tem diretores de cinema de expressão internacional.

Uma das referências, sem sobra de dúvida, é Nelson Pereira dos Santos, falecido recentemente aos 89 anos.

Segundo Cacá Diegues “Nelson foi um dos maiores cineastas da América Latina, fez um cinema para pensar o Brasil e influenciou toda uma geração que não tinha existido, sem sua precedência. Seu filme “Rio, 40 graus”, está presente em todos os filmes brasileiros, mesmo que não seja assim percebido”.

Infelizmente só nessas ocasiões de perda que nos lembramos de ver ou rever as obras culturais que muito nos representa. Alguns dos filmes de Nelson Pereira dos Santos, são clássicos, portanto atemporais, sem se perder com o tempo.

Os filmes de Nelson Pereira dos Santos

“RIO, 40 GRAUS” (1955) rio-zona-norte-nelson-pereira-02.jpeg Primeiro longa-metragem do cineasta, é considerado um dos primeiros filmes brasileiros a dialogarem com o Neorrealismo Italiano. Do ponto de vista da representação das favelas, traz uma mudança grande para o cinema brasileiro: introduz um viés politizado, um realismo crítico. É considerado o marco inaugural do cinema moderno brasileiro.

“Eles Não Usam Black-Tie” cartel_eles_nao_usam_bt_medio.jpg Teve grande influência sobre a geração do Cinema Novo e sobre o início de um teatro moderno brasileiro no Brasil – foi uma referência direta para a escrita da peça do mesmo nome, pelo dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, mais tarde adaptada também para o cinema. Foi censurado pelo chefe de segurança pública do governo de Café Filho.

“VIDAS SECAS” (1963) lsobjc7fiso6.jpg Feito quase dez anos depois de “Rio, 40 Graus”, a adaptação da obra de Graciliano Ramos já faz parte do Cinema Novo. O cineasta segue com a perspectiva de uma representação politizada do popular, levando-a para o sertão. Sua narrativa é circular: uma família que tenta sobreviver na seca cria expectativas de superação da miséria mas, no final, acaba praticamente como no início. É um filme crucial dos anos 1960, considerado por pesquisadores e críticos um dos grandes pilares da primeira fase do Cinema Novo. Apesar disso, seu tom angustiante destoa da positividade revolucionária dos demais filmes desta fase.

“FOME DE AMOR” (1968) Feito após o golpe de 1964, no momento em que o grande projeto revolucionário do Cinema Novo entra em colapso. Mais experimental, o filme sai da narrativa convencional do realismo crítico. Entre outras coisas, trata de maneira alegórica da crise da figura do intelectual de esquerda nesse momento histórico.

“COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS” (1971) plano-critico-Como-era-gostoso-o-meu-francês-luiz-santiago.jpg Nesse caso, ele retoma narrativas de europeus que vieram ao Brasil no período colonial brasileiro, em busca de riqueza, e coloca seu protagonista europeu, um aventureiro, como prisioneiro dos Tupinambá, que eram canibais. Trata-se de um dos raros momentos do cinema brasileiro, até a década de 1970, em que há uma narrativa centrada na questão indígena. O filme tematiza as raízes culturais e históricas da colonização brasileira.

“AMULETO DE OGUM” (1974) Neste filme, o diretor faz uma revisão da primeira fase do seu cinema – a qual, entre “Rio, 40 graus” e “Vidas Secas”, é muito influenciada por uma herança marxista de representação do popular. Busca, nesse momento, uma representação menos ideologizada. Resultado de uma pesquisa sobre a umbanda, faz um filme policial, em que a narrativa aparece mediada por questões culturais da religiosidade afro-brasileira.

“MEMÓRIAS DO CÁRCERE” (1984) O filme adapta mais uma obra de Graciliano Ramos, na fase em que se discutia a redemocratização. Recupera, com isso, o espírito inicial do realismo crítico, trazendo à tona o debate sobre a retomada de projetos intelectuais e populares.

“NA ESTRADA DA VIDA” (1980) Inspirado na dupla "Milionário e José Rico", dupla de música popular brasileira, pode ser considerado um filme devotado à cultura popular e de massa.

Nelson Pereira dos Santos iniciou sua carreira, na década de 1950, o cinema brasileiro transitava entre dois grandes eixos industriais: as chanchadas, comédias de carnaval que traziam uma representação carnavalizada da classe popular os filmes da Vera Cruz, estúdio de São Paulo que tentava construir, no Brasil, uma indústria cinematográfica nos moldes de Hollywood. Composta em grande parte de melodramas, essa produção apresentava, em filmes como “O Cangaceiro”, de 1953, uma classe popular “folclorizada”.

Fonte: Juliana Domingos de Lima, NEXO, 23 Abr 2018 (atualizado 24/Abr 10h31).


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