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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

O impeachment de Dilma Rousseff

Os filmes que retratam o processo que destituiu a presidente em 2016


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Dilma Rousseff foi a primeira mulher a ser eleita para o mais alto cargo, o de chefe de Estado e chefe de governo em toda a história do Brasil, tornando-se a 36ª Presidente do Brasil.

Em 12 de maio de 2016, foi afastada de seu cargo por até 180 dias devido à instauração de um processo de impeachment que fora movido contra ela. Teve o mandato presidencial definitivamente cassado em 31 de agosto de 2016, porém não perdeu o direito de ocupar outros cargos públicos.

Em 2018, mudou-se para Minas Gerais e candidatou-se a senadora, sendo derrotada.Esse momento da história do Brasil está em cinco documentários: Democracia em Vertigem (2019), O Processo (2018), Excelentíssimos (2018), O Muro (2017) e Não vai ter golpe (estreia prevista para setembro 2019), selecionados pelo NEXO Jornal.

Democracia em Vertigem

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“Eu tinha 19 anos quando Lula foi eleito. Eu me lembro da euforia. Parecia um grande passo para nossa democracia. 20 milhões de pessoas saem da pobreza, a taxa de desemprego atinge o menor índice da história e o Brasil emerge como um dos protagonistas no cenário mundial. Para suceder, ele escolhe Dilma Rousseff, que se torna nossa primeira presidente mulher. Parecia uma mudança de símbolos. Mas algo no nosso tecido social começa a mudar”.

É assim que é anunciado o documentário Democracia em Vertigem, de autoria de Petra Costa, diretora de filmes como Elena e O Olmo e a Gaivota. O filme, que será lançado nesta quarta-feira (19) na plataforma de transmissão de vídeos Netflix, costura o passado da diretora, assim como seus relatos, com a democracia brasileira de 2002 até hoje, com filmagens exclusivas dos momentos que antecederam e sucederam o processo de impeachment.

O jornal americano The New York Times publicou uma lista com os melhores filmes de 2019 até o momento e, entre os títulos, está o documentário brasileiro Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa, lançado pela Netflix. “É uma crônica sobre traição cívica e abuso de poder, mas também sobre desilusão”, afirma o jornal sobre o filme.

Produzido pela Netflix, o documentário “Democracia em Vertigem” teve sua estreia internacional em 19 de junho de 2019. Aguardado pelo público, foi apontado pelo site Indiewire como um dos favoritos para concorrer ao Oscar de melhor documentário em 2020.

O Processo

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O documentário é mais focado na dinâmica jurídica e política do próprio processo de impeachment, que foi acompanhado de dentro por Maria Augusta Ramos resultando em cerca de 450 horas de material bruto.

O filme alterna, basicamente, entre cenas captadas durante as sessões do processo dentro do Congresso e bastidores da defesa de Dilma, formada por José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, personagens que assumem protagonismo na narrativa. Questionada pela Deutsche Welle sobre essa abordagem, a diretora respondeu: “Não é que seja a perspectiva da defesa: eu acompanho muito mais os bastidores da defesa porque a defesa me deu esse acesso.

A oposição não me deu esse acesso. Se tivesse dado, eu certamente teria filmado mais”. Sem entrevistas ou narração, o filme é um documentário de observação da diretora, que não se coloca de maneira explícita nem interage com seus personagens. A câmera assume suposta invisibilidade.

O documentário também traz algumas imagens panorâmicas dos manifestantes pró e contra o impeachment posicionados do lado de fora do Congresso em Brasília.

Para o documentarista e crítico Eduardo Escorel, “ao restringir o espaço principal do filme à sede do Senado Federal, onde transcorrem as etapas decisivas do processo de impeachment, Ramos exclui a participação da própria Dilma que, isolada nesse período no Palácio da Alvorada, é reduzida à condição de figurante dos procedimentos legais que levaram, primeiro ao seu afastamento da Presidência, depois, à cassação do seu mandato”.

Em sua crítica, Escorel enfatiza não só a ausência de Dilma como de Lula, um “figurante ilustre, de presença ainda mais fugaz”.

A diretora não teria pedido acesso a Lula pelo fato de o filme se passar em Brasília e ser focado “no processo jurídico-político que acontece fundamentalmente no Senado e do qual ele não participou diretamente”, disse Ramos a Escorel.

Quanto a Dilma, a diretora obteve acesso a ela no período em que estava afastada da Presidência, mas não há cenas desses encontros no filme.

Excelentíssimos

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Assim como Costa e Ramos, Duarte também obteve autorização para acompanhar e gravar o cotidiano do Congresso. “Já com as filmagens encerradas, sempre me pareceu que faltava parte da história que havíamos filmado dentro desse prédio”, diz o diretor na narração em off que abre o filme.

Diferentemente de “Democracia em Vertigem”, a narração do diretor não assume um ponto de vista pessoal e desaparece em vários momentos ao longo do filme. Para compreender o que ocorreu em 2016, o filme retrocede até 2014, quando Dilma foi reeleita por uma pequena margem de diferença para seu opositor no segundo turno.

O germe do impeachment, segundo o filme, estaria no fato de a oposição, representada por Aécio Neves (PSDB), não ter aceitado bem o resultado. O documentário acompanha reuniões, sessões do Congresso, colhe depoimentos de parlamentares e traz escutas telefônicas de membros do governo.

O Muro

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O filme surgiu da criação do “muro do impeachment”, em abril de 2016. A barreira metálica foi erguida em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, para dividir os manifestantes de direita e esquerda que ali se espalharam durante os meses em que se estendeu o processo.

“Ver Brasília, a capital utópica, aquele lugar específico imaginado para agregar, com um muro que dividia famílias, era a imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar. E não existe democracia sem diálogo”, disse o diretor em 2018 em entrevista à revista seLecT.

Nele, o espaço principal passa a ser não o interior do Congresso, mas o lado de fora, alcançando também outros lugares do Brasil e do mundo. O diretor entrevista manifestantes de ambos os lados desse muro, deixando seu depoimento em off enquanto a imagem os posiciona em pé, em silêncio, com seus adereços, bandeiras e slogans, posando para a câmera.

Ouve ainda cientistas políticos, historiadores e filósofos. Também há planos mais gerais dos protestos e diversas imagens em detalhe do próprio muro. O filme é o único dos quatro a extrapolar o contexto nacional para mostrar outros “muros”, físicos ou não: Berlim, a fronteira entre Estados Unidos e México e a barreira construída em volta de territórios palestinos pelo Estado de Israel.

O cineasta documenta os diferentes lados de cada conflito. Investiga menos o processo do impeachment em si e mais a polarização política criada em torno dele.

Não vai ter golpe

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Um dos grupos que convocaram protestos contra Dilma e a favor do impeachment a partir de 2015, o MBL (Movimento Brasil Livre) também está produzindo um documentário sobre os eventos, do ponto de vista da articulação da direita no Congresso e nas ruas. Intitulado “Não vai ter golpe”, o filme dirigido por Alexandre Santos, um dos fundadores do movimento, e Fred Rauh, tem sua pré-estreia prevista para setembro de 2019.

“Todo mundo tem sua visão sobre o impeachment, sua ideia do que aconteceu. Nos tempos atuais, de guerras de narrativa, isso está latente”, disse Santos ao Nexo.

Ele e Rauh filmaram manifestações e bastidores desde 2014. Também entrevistaram outros movimentos que estiveram por trás dos atos contra Dilma, como o Vem pra Rua, e pessoas como a deputada estadual Janaína Paschoal, autora do processo de impeachment, e o escritor Luiz Felipe Pondé.

A ideia, segundo Santos, é mostrar que o movimento pelo impeachment “começou com pessoas comuns, que não tinham nenhum contato com o mundo político, que não eram militantes. Eram pessoas normais, que estavam cansadas, sem rumo, vendo o país se fragmentando, quebrando, e resolveram se rebelar da sua maneira”.

As diferenças entre os filmes

Cada filme se “interrompe” em pontos distintos de uma narrativa que ainda se desenrola: “Democracia em Vertigem” vai até a posse de Bolsonaro e a nomeação de Sergio Moro para ministro da Justiça em 2019.

“O Processo”, por meio da inserção de uma cartela de texto pouco antes de o filme ser lançado, vai até a prisão de Lula em 2018; “Excelentíssimos” também chega até a prisão de Lula e “O Muro” chega a comentar as políticas do início do governo de Michel Temer, em 2016, e sua reflexão sobre o muro da Esplanada aponta para um futuro dividido, analisa Reinaldo Cardenuto, professor da Universidade Federal Fluminense, sobre os quatro filmes já lançados.

Fonte: Juliana Domingos de Lima, NEXO, 22 Jun 2019 (atualizado 26/Jun 14h23).


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