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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

O Cinema, a psicanálise e o Mundo Espiritual 3

A influência da religiosidade e espiritualidade na saúde e qualidade de vida de indivíduos é foco de interesse da sociedade há décadas.


No discurso que proferiu no funeral de Élder Thomas Williams, o Presidente Brigham Young disse o seguinte a respeito do mundo espiritual:

“Quão frequentemente a seguinte dúvida surge na mente das pessoas: ‘Gostaria de saber para onde irei!’ Será que podemos descobrir a resposta para essa pergunta? Ora, iremos para o mundo espiritual, onde o irmão Thomas se encontra neste momento. Ele, ou seja, seu espírito, passou para uma condição de existência superior à que vivia em seu corpo. ‘Por que não o podemos ver? Por que não podemos conversar com ele? Gostaria de poder ver meu marido ou meu pai e conversar com ele!’ Isso não seria adequado, não seria direito; poderíamos perder o propósito de nossa vida se tivéssemos esse privilégio, sendo que ainda teríamos de passar pelo mesmo teste de fé, sem uma senda de aflições tão severa por trilhar, sem uma batalha tão difícil para lutar, sem uma vitória tão grandiosa para alcançar, de modo que perderíamos a visão do próprio objetivo de nossa vida. É melhor que as coisas estejam como estão: que o véu esteja fechado; que não possamos ver Deus; que não vejamos anjos; que não conversemos com eles, a não ser pela estrita obediência às coisas que Ele exige de nós e pela fé em Jesus Cristo.” (DSNW, p. 28 de julho de1874, p. 1.)

Brigham Young (Whitingham, 1 de junho de 1801 — Salt Lake City, 29 de agosto de 1877) foi o primeiro governador do estado de Utah, pregador religioso e historiador americano. Foi também o segundo presidente d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Nos posts anteriores 1 e 2 foram abordadas questões ligadas a psicanálise e ao mundo espiritual, lembrando filmes que continuo agora.

O sonho: conceitualização e caracterização

Em um dos trabalhos mais importantes do século XX, A Interpretação dos sonhos, Freud (1900/2013) nos diz que o sonho é a consequência da perturbação do sono oriunda da realização disfarçada de um desejo inconsciente.

Ou ainda, segundo Žižek (2010), sonhar significa fantasiar para evitar o confronto com o real. Na obra, Freud apresenta uma ruptura em relação a todas as abordagens feitas até então sobre os sonhos. Sua interpretação parte do que denomina "pensamento do sonho", isto é, do conteúdo latente, inconsciente, e, portanto, recalcado, e não do conteúdo manifesto, ou seja, aquilo que se lembra dos sonhos.

Desse modo, Freud, ao assinalar um outro nível dos sonhos, se depara com a questão de como os conteúdos manifestos e latentes se articulam e organizam (Freud, 1900/2013; Jorge, 2005). Conforme Martta (2008), estudos de teoria do cinema, inspirados na Psicanálise, elucidam que o filme se organiza basicamente em torno de uma fantasia nuclear, sendo esta a cena primária, voyeurisme, por exemplo, questões da vida do diretor ou dado aspecto da sociedade: "Tal fantasia desencadeia maior ou menor identificação com o público, projetada em situações e personagens" (Martta, 2008, p. 45).

Sobre a relação entre a obra de arte, especificamente o cinema, e o sonho, quanto à movimentação de desejos, Kofman (1995) afirma que ambos são escritas do desejo, com a pequena diferença de que a arte, como obra cultural e função social, precisa ser compreensível e comunicável, o que não se faz necessário ao sonho, que pode permanecer como um enigma. Assim, a autora conclui que um filme, ou qualquer outra arte, é uma projeção que põe fim a uma perturbação interna, e que, como o sonho, permite uma realização alucinatória do desejo.

Religião e espiritualidade influenciam índices de qualidade de vida

A influência da religiosidade e espiritualidade na saúde e qualidade de vida de indivíduos é foco de interesse da sociedade há décadas. Enquanto muitos acreditam em benefícios da crença como forma complementar de tratamentos, outros enxergam nela prejuízos para os métodos da medicina tradicional.

Nos últimos anos aumentou o número de pesquisas que pretendem resultados mais específicos sobre o tema. Apesar de ainda ser uma área com escassez de publicações objetivas a respeito da aplicabilidade clínica de intervenções religiosas e espirituais, alguns resultados e conclusões já podem ser analisados e pretendidos como padrões.

Nesse contexto se insere o artigo, produzido na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Avaliação da Prática de Terapia Complementar Espiritual/Religiosa em Saúde Mental, de Juliane P. de Bernardin Gonçalves, Giancarlo Lucchetti, Frederico C. Leão, Paulo R. Menezes e Homero Vallada, que analisa estudos já publicados, a fim de encontrar semelhanças entre suas conclusões, juntar os resultados em uma técnica estatística e, então, contribuir para a evolução da pesquisa na área.

As publicações analisadas estudam as intervenções espirituais e religiosas – as IERs – e suas influências na saúde e qualidade de vida, principalmente de pacientes crônicos, mas também de profissionais da saúde e indivíduos saudáveis. Trata-se, porém, de estudos muito heterogêneos, o que, segundo a pesquisadora Juliane Gonçalves, dificulta a sumarização dos dados encontrados numa metanálise.

Na maioria dos dados analisados – qualidade de vida, dor, sobrepeso – foi possível somente uma comparação descritiva dos resultados. Por trabalhar com conceitos amplos, a pesquisa escolheu seguir uma linha de pensamento que define a espiritualidade como valores morais, crença em uma “força maior”, sem a necessidade de alguma filiação religiosa, podendo incluir grupos religiosos específicos e até indivíduos ateus e agnósticos; e a religião como “ligação com o sagrado ou transcendental através de um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos”, como o catolicismo, judaísmo ou islamismo, segundo, Laura Barrio, Jornal da USP .

Os filmes

Amor Além da Vida, 1998, Direção: Vincent Ward paraiso alem da vida.jpg Você acredita no Paraíso? Bem, em Amor Além da Vida toda a ideia de como seria o Céu é desconstruída para o espectador, que reflete sobre o verdadeiro significado da vida após a morte. Depois de enfrentar uma tragédia na família, Chris Nielsen (Robin Williams) e sua esposa Annie (Annabella Sciorra) conseguem seguir com a vida. Mas, Chris acaba morrendo e vai para um Paraíso bastante diferente daquele que sempre imaginou existir.

O Mistério da Libélula, 2002, Direção: Tom Shadyac misterios libelula.jpg Após ficar viúvo, Joe Darrow (Kevin Costner) começa a acreditar que o espírito de sua esposa está tentando se comunicar com ele. Para descobrir a verdade, Joe, que é médico, usa os pacientes que estão à beira da morte como "interlocutores" entre o mundo dos vivos e dos mortos. Será que vai dar certo? Ah, e como se isso não bastasse, para reforçar a sua "teoria", Joe passa a ser "perseguido" por muitas libélulas, inseto que era considerado o talismã de sua esposa.

O Sexto Sentido, 1999, Direção: M. Night Shyamalan sexto sentido.jpg "Eu vejo gente morta..." Muita gente pode achar que O Sexto Sentido não passa de um (bom) filme de terror, mas chega a ir além de um horror psicológico e pode dar uma pequena lição sobre o que é a mediunidade e como este dom pode ajudar a salvar vidas... mesmo após a morte. Dirigido e escrito por M. Night Shyamalan, um dos mais renomados cineastas do gênero de suspense, O Sexto Sentido conta a história de Cole Sear (Haley Joel Osment), um menino que vive assombrado com visões de pessoas mortas. Para ajudá-lo surge Malcolm Crowe (Bruce Willis), um psicólogo infantil que também enfrenta os seus "fantasmas".

Referência

BENINI, Rinália Taís. A Psicanálise vai ao cinema: relações entre a linguagem do sonho e a da sétima arte. Analytica [online]. 2019, vol.8, n.15 [citado 2021-05-30], pp. 1-15 . Disponível em: . ISSN 2316-5197.


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