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Cinema e Literatura

Alfredo Passos

Alfredo Passos, professor universitário, autor de livros, blogueiro, adora livros, cinema, música e andar a cavalo. Mais sobre autor em http://about.me/alfredopassos

O Cinema, a psicanálise e o Mundo Espiritual 1

De repente, a constatação da fragilidade física, em que a vida de todos se vê ameaçada por um vírus que prenuncia com a interrupção da jornada física, faz pensar, em questões como: O que tenho feito da minha vida? Que possibilidade tenho de recuperar o tempo mal utilizado? Como tenho distribuído meu carinho e atenção aos que me cercam? Quais os valores que tenho e podem ser melhores utilizados?


“O apóstolo Paulo diz em suas cartas aos Coríntios, 4:16, que “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova dia a dia”.

Espiritismo, catolicismo, budismo. Não importa a crença, em comum a certeza de que a ameaça do COVID-19 é a chance de cada um olhar para si e para o coletivo. O desafio da pandemia é uma chance de ascensão espiritual

De repente, a constatação da fragilidade física, em que a vida de todos se vê ameaçada por um vírus que prenuncia com a interrupção da jornada física, faz pensar, em questões como:  O que tenho feito da minha vida?  Que possibilidade tenho de recuperar o tempo mal utilizado?  Como tenho distribuído meu carinho e atenção aos que me cercam?  Quais os valores que tenho e podem ser melhores utilizados?

“De repente, temos a certeza de que somos peças importantes na vida do universo e sentimos vibrar em nós a vontade de recuperar o tempo perdido. Gravitar para a unidade divina é o grande objetivo da humanidade. E para alcançá-lo, precisamos vivenciar a justiça, o amor e a ciência. E diante dos cataclismas físicos ou morais somos abalados pelo convite à vida, pela vontade de nos elevarmos, pela atenção e solidariedade de nossos semelhantes. Assim, nos tornamos mais suaves, mais ternos, tolerantes e amigos. Estaremos então nos primeiros degraus da ascensão espiritual, segundo Juselma Coelho, presidente da Sociedade Espírita Maria Nunes (Seman) e da Sociedade Espírita Joanna de Angelis (SejaBH) e do conselho de administração do Instituto Assistencial Espírita André Luiz (Heal).”

O médico psiquiatra carl-g.-jung-012.jpg

Carl Gustav Jung (1875-1961, 86 anos) nasceu em Kesswil, Suíça. Médico psiquiatra. Em 1902, Jung obteve o doutorado na Universidade de Zurique, com a dissertação “Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”. Pai e familiares próximos eram pastores luteranos. Criou a Psicologia Analítica, termo cunhado em 1913 para distinguir da Psicanálise freudiana. Jung recebeu críticas por algumas aproximações entre a psicologia e outros saberes, por isso afirmou em uma carta endereçada a um teólogo protestante: "não sou espírita, ao escrever acerca dos fenômenos extrassensoriais, nem artista, ao tratar de história da arte, nem fundador de uma nova religião ou reformador do dogma, ao fazer psicologia comparada e história do pensamento" (Jung, 1971/2012d, p. 123).

A espiritualidade desempenha papel fundamental em seu pensamento. Crítico do materialismo racionalista do final do século 19, cuja concepção de homem e de mundo é insuficiente para abordar o sentido da existência humana, Jung encontra nas religiões e tradições espirituais, ocidentais e orientais, material que o permite desenvolver uma psicologia que diz respeito à totalidade do ser humano, um ser que vive no mundo material e espiritual, externo e interno, físico e psíquico, consciente e inconsciente, ou seja, um ser que está em constante conflito e, consequentemente, em sofrimento.

Encaro a religião como uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, ideias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados". (Carl Gustav Jung, 1978).

Cinema, Espiritualidade e Contemporaneidade "Quando o cinema nasceu, em 1895, a Igreja Católica interessou-se logo por este novo medium que tinha um enorme impacto sobre os espectadores. Mas, imediatamente, instalou-se uma relação ambígua, porque se, por um lado, a sétima arte contribuía para a evangelização através da apresentação da vida de Cristo ou de filmes hagiográficos (é um tipo de biografia, dentro do hagiológio, que consiste na descrição da vida de algum santo, beato e servos de Deus proclamados por algumas igrejas cristãs, sobretudo pela Igreja Católica, pela sua vida e pela prática de virtudes heróicas), por outro lado desenvolvia uma indústria promovendo filmes com valores morais contrários aos da Igreja.

Hoje, num mundo desiludido pelas falsas promessas de um suposto materialismo salvador e esvaziado pelo individualismo da indiferença, o cinema tem um lugar privilegiado no veículo de valores humanos e espirituais. Sendo a nossa sociedade constituída por jovens que cresceram imersos em imagens (e sons), elas tornaram-se os referentes da sua percepção e cada vez mais um lugar de descoberta e de inspiração. Se a sétima arte continua a fazer parte da indústria do entretenimento, assistimos a uma nova necessidade de utilização do cinema para questionar o ser humano e a sua relação com o mundo.

A linguagem fílmica, na sua diversidade, torna-se cada vez mais um espaço de diálogo e de procura de espiritualidade. A força do cinema reside na sua possibilidade de revelar a realidade ao espectador e, como disse o P. Amédée Ayfre a propósito do neorrealismo italiano, de o levar a uma “conversão pelas imagens”. De fato, o cinema desperta a consciência e transforma a experiência que o espectador tem do mundo.

Como exprimir Deus no cinema? Não é seguramente o cinema mainstream que continua a apresentá-Lo como onipotente e exterior ao ser humano. No cinema contemporâneo, a manifestação do sagrado e do transcendente manifesta-se sobretudo numa procura implícita de Deus: na relação com o outro, no encontro com a humildade e com o necessário baseados na esperança.

A transversalidade entre o cinema e a religião desenvolve-se cada vez mais, seja no mundo acadêmico ou nos festivais, para promover o despertar de uma espiritualidade que se tornou periférica, mas que continua viva e desejosa de se revelar". (Inês Mendes Gil, cineasta, docente na Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação, Universidade Lusófona, em “Observatório da Cultura”, edição n.º 21).

Os filmes:

Soul Soul_-_Novo_Pôster_Nacional_(2).jpg "Soul", uma comédia dramática da Pixar sobre o significado da vida, ganhou o Oscar de melhor filme de animação. Trata-se do 23º longa-metragem e a mais recente produção original da Pixar, que produziu "Toy Story", assim como outros filmes premiados: "Ratatouille", "WALL-E" e "Os Incríveis".

"Não tínhamos nem ideia do que o jazz podia nos ensinar sobre a vida. Assim como um músico de jazz, podemos transformar qualquer coisa que aconteça em algo de valor e algo de beleza", disse um dos diretores de "Soul", Pete Docter, ao receber o Oscar de melhor filme de animação.

"Soul" conta a história de Joe Gardner, um humilde professor de música do ensino médio em Nova York que quer ser um pianista de jazz.

Depois de conseguir tocar em um show que poderia ser sua grande chance, sofre uma grave queda e se vê preso entre a Terra e o além.

Depois, termina por engano no "Grande Antes", um mundo onde as almas não nascidas se preparam para a vida e obtêm seus traços de personalidade, bons e ruins, antes de ganhar um corpo humano.

Este universo abstrato, imaginado pelo lendário criador da Pixar Pete Docter, roteirista e diretor dos premiados com o Oscar "Up: uma aventura nas alturas" e "Divertida Mente", explora as profundidades da condição humana:  Nascemos com um propósito?  A vida tem sentido?  Precisamos encontrar esse significado?

A Pixar, pioneira tanto no tema quanto no formato de filmes de animação, volta ao tema da morte, como fez com "Up: uma aventura nas alturas" e com "Viva - A vida é uma festa". Docter disse à publicação Deadline no começo deste ano que "Soul" é "uma pesquisa sobre o que realmente está acontecendo na vida e como se supõe que devemos viver".

Outros filmes

A Cabana, 2017, direção: Stuart Hazeldine A CABANA.jpg

Um filme para quem perdeu as esperanças, a fé e deseja alcançar uma redenção. Estes são os sentimentos do protagonista em A Cabana, filme dirigido por Stuart Hazeldine e com atuações de Sam Worthington, Octavia Spencer, Alice Braga e Tim McGraw. Inspirado no livro homônimo do escritor canadense William P. Young, A Cabana aborda a "existência do mal" e como podemos (e devemos) procurar o amor e o perdão para nos livrarmos do ódio e da dor.

As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu, 2004, direção: Lloyd Kramer AS 5 PESSOAS.png

Baseado no romance de Mitch Albom, este é um filme dirigido por Lloyde Kramer que traz reflexões perfeitas para quem procura conhecer mais sobre a "vida após a morte" do ponto de vista do espiritismo. A história começa com a morte de Eddie, um veterano de guerra que passou toda a sua vida trabalhando num parque de diversões, e agora terá que descobrir qual o caminho a seguir ao atingir este novo "plano espiritual". Ao encontrar com cinco pessoas que passaram por sua longa vida na Terra, Eddie terá que compreender se a sua missão foi ou não cumprida. Será que estamos cumprindo a nossa missão nesta vida? Caso você tenha interesse por estes assuntos, com certeza o filme te fará pensar bastante.

Minha Vida na Outra Vida, 2000, direção: Marcus Cole minha vida na outra vida.jpg

Baseado em fatos reais que foram narrados no livro autobiográfico de Jenny Cockell, Minha Vida na Outra Vida é considerado um retrato lógico e fiel do que seria a reencarnação do ponto de vista da doutrina espírita.

O que você faria caso descobrisse quem foi e onde morou em vidas passadas? Esta é a missão de Jenny Cole (Jane Seymour), que começa a questionar sonhos estranhos sobre lugares e situações desconhecidas, mas que ao mesmo tempo são bastante familiares.

Ghost - Do Outro Lado da Vida, 1990, direção: Jerry Zucker ghost.jpg

Sam (Patrick Swayze) e Molly Jensen (Demi Moore) formam um casal feliz e apaixonado, até que Sam é morto em um assalto. Só que o rapaz não abandona sua amada, permanecendo preso no plano espiritual dos vivos, tentando ajudar Molly a se proteger do perigo que se aproxima. Para isso, Sam recorre a uma "médium" chamada Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), que passa a ser o meio de comunicação entre o casal. Sem dúvida, este é um dos filmes mais lindos e emocionantes sobre a existência da vida após a morte. Ghost foi indicado para cinco categorias do Óscar e ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Original.

Referência NASCIMENTO, Ananda Kenney da Cunha; CALDAS, Marcus Túlio. Dimensão espiritual e psicologia: a busca pela inteireza. Rev. abordagem gestalt., Goiânia , v. 26, n. 1, p. 74-89, abr. 2020 . Disponível em . acessos em 30 maio 2021. http://dx.doi.org/10.18065/RAG.2020v26n1.7.


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