Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

A vida de Ivan Ilitch e a morte de todos nós

O livro de Tolstói nos acerta como um soco no estômago: como a iminência da morte de Ivan Ilitch nos leva a pensar em nossa própria vida. O que a vida de Ivan Ilitch pode nos ensinar para evitar a morte ainda em vida?


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Um homem tem uma vida mais ou menos medíocre, comum, e, ao descobrir que está morrendo, faz uma reflexão sobre sua vida e sobre a morte. Resumindo assim, o livro A morte de Ivan Ilitch, do russo, Leon Tolstói até parece mais um clichê, mas não é. Essa novela do famoso escritor de Guerra e Paz tem a fama de ser uma das melhores já escritas na literatura e faz jus a essa fama. Achei o livro profundamente perturbador. Daquelas obras que nos deixam pensando e refletindo por muito tempo depois, que deixam aquele gosto amargo na boca, uma sensação de peso no peito, de soco no estômago.

Tolstói expõe muitas feridas e coloca o dedo em todas sem dó. É rasgada a crítica feita ao sistema e à sociedade que guia a maioria das ações de Ivan Ilitch no livro: o advogado que se tornou juiz, casou-se, teve filhos, teve dinheiro, reputação, uma casa boa, tudo conforme se esperava dele. Para fugir das constantes brigas matrimoniais, dedicou-se ao trabalho. No trabalho, lutou para se distanciar o máximo possível do “lado pessoal”, sendo altamente eficiente no que fazia. A única alegria era o jogo de cartas com os amigos – amigos que, ao saberem de sua morte, ficam aliviados por não serem eles, no melhor estilo “antes ele do que eu”.

Por um acidente doméstico completamente bobo, Ivan Ilitch adquire uma doença que, na época – século XIX – não havia como diagnosticar com precisão, nem tampouco, tratar. A doença vai se agravando e, em um dado momento, ele percebe que está mesmo muito próximo da morte. Aí as reflexões começam, seus sentimentos todos afloram, especialmente a profunda solidão que ele sente nesse momento, e o medo sobre “o que virá agora?” vai ganhando força.

Durante todo o livro, há passagens bastante ácidas, como quando ele decide montar uma casa “dos sonhos” quando recebe uma promoção. “Na realidade, o efeito não passava do que normalmente é visto nas casas de pessoas que não são exatamente ricas, mas que querem parecer ricas e o máximo que conseguem é parecer-se com todas as outras pessoas de sua classe. (...) E no caso dele o efeito era tão exato que não causava impressão alguma, mas para ele tudo parecia ser especial.”

Esse trecho demonstra o esforço que ele fez a vida toda para se encaixar exatamente naquilo que deveria ser, no que esperavam dele. Assim como fez na casa, fez no casamento, no trabalho, e nas demais áreas de sua vida. Qualquer semelhança com a vida de muitos de nós não é mera coincidência. Ivan Ilitch fez aquilo que a imensa maioria das pessoas faz: seguiu com precisão o roteiro da “vida bem sucedida”.

No entanto, o tiro saiu pela culatra. Isso fica muito claro no momento em que ele começa a fazer suas reflexões. A começar quando se dá conta de que sim, está mesmo morrendo, e que ninguém se importa com isso. “Morte. Sim, morte. E nenhum deles entende, ou quer entender. E não sentem pena nenhuma de mim. Estão todos se divertindo. (...) Eles não se importam. No entanto eles também vão morrer. Idiotas!”.

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Depois, ele se dá conta de que é um simples mortal, como todos os outros. Lembra do silogismo: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”, mas, ele não era Caio! Era um ser especial! (acreditava-se especial) “Se eu tinha que morrer, assim como Caio, deveriam ter-me avisado antes. Uma voz dentro de mim desde o início deveria ter-me dito que seria assim. Mas não havia nada em mim que indicasse isso; eu e todos os meus amigos sabíamos que no nosso caso seria diferente. E eis que agora... Não... não pode ser e no entanto é assim! Como entender isso?

É interessante porque todos nós sabemos que vamos morrer, mas vivemos como se não soubéssemos disso, como se achássemos, como Ivan Ilitch, que com a gente será diferente e que não morreremos de uma forma inesperada, “antes da hora” – que hora é essa, mesmo? Como saber?

A dor foi piorando, o sofrimento pelo descaso dos outros, a raiva que ele sentia por todos fingirem que não sabiam que ele ia morrer, a mágoa que sentia ao ver aquelas pessoas esbanjando saúde enquanto ele adoecia, só aumentavam sua dor, seu sofrimento e sua revolta, inclusive, com Deus. Em um desses momentos de intensa dor, ele começou ouvir uma voz “de sua alma”, que começou a lhe questionar. “O que é que você quer?”, pergunta a voz. Ele diz que quer viver! Viver bem e agradavelmente, como antes. No entanto, ele se dá conta da dura verdade: “E ele começou a repassar em sua imaginação os melhores momentos de sua agradável vida. Mas, estranhamente, nenhum desses melhores momentos de sua vida tão agradável agora lhe pareciam o que pareceram na época – nenhum deles, exceto as primeiras lembranças de infância”.

“‘Talvez eu não tenha vivido como deveria,’ ocorreu-lhe de repente. “Mas, como, se eu sempre fiz o que devia fazer?’”.

Mas a constatação final é de que realmente, ele perdeu a chance de ter uma vida mais verdadeira, mais guiada por outros valores – os seus -, e essa constatação tornava sua dor “dez vezes pior”, conforme ele mesmo diz.

O título inicial que tinha pensado para esse texto era “A morte de Ivan Ilitch e a vida de todos nós”, mas, por sugestão de meu filho, inverti as palavras vida e morte e parece que o sentido foi alcançado em cheio: o que a vida de Ivan Ilitch pode nos ensinar para evitar a morte ainda em vida? Essa é a grande reflexão que fica após a leitura do livro, altamente recomendada.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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