Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

O que o karate me ensinou sobre o amor: ambos são o caminho com valor em si mesmos

O amor tem o mesmo papel do karate: ser o caminho para crescimento pessoal, fortalecimento e engrandecimento. Para começar o caminho do amor, é necessário humildade e coragem e o amor deve ser exercido como uma arte, assim como o karate. Todo mundo começa faixa branca, no amor e no karate. Assim como em qualquer treino de arte marcial, no amor muitas vezes saímos doloridos, machucados, com alguns roxos no corpo; no entanto, as dores e sofrimentos fazem parte de qualquer processo que vise nos elevar a uma versão melhor de nós mesmos.


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Comecei a praticar karate há muito pouco tempo. No entanto, o pouco que aprendi já valeu por anos de aprendizado. Karate-do significa “caminho de mãos vazias”. “Do” significa caminho; as mãos vazias referem-se ao fato de essa ser uma luta sem armas. Tomei contato com o karate-do há uns meses, por intermédio de um amigo, e ele me disse um dia que o karate-do ERA o caminho. Ainda, ele esclareceu: “não é o caminho, assim, literalmente”, apontando para a rua. Quando ouvi isso, não compreendi totalmente o que ele quis dizer. Tentei entender, achei até que tinha entendido, mas a compreensão só caiu na minha cabeça no momento em que pisei no tatame e comecei a tentar praticar essa arte marcial.

A prática do karate é bastante difícil para pessoas que nunca tinham tido contato com ele antes, como eu. O karate exige condicionamento físico, disciplina, foco, concentração, persistência, humildade, força, coragem, equilíbrio, respeito. Logo no primeiro movimento que fiz já percebi que se eu não focasse totalmente no treino, eu não conseguiria fazer nada. Quem pensa que é possível movimentar os dois braços de formas diferentes, manter a postura, fazer a base correta, respirar, e, ao mesmo tempo, pensar em outras coisas, como problemas no trabalho ou contas para pagar está completamente enganado. Se você se concentra muito, ainda assim faz movimentos com bastante dificuldade no início. E o que se nota logo de cara é o quanto não temos coordenação motora, resistência, postura, capacidade de concentração, etc. E o quanto será necessário treinar para adquirir tudo isso.

O que se percebe também é que se você ficar olhando o desempenho dos outros ao invés de olhar o seu próprio, não evolui em nada. Todos estão lá para superar a si próprios. Então, você entra lá com o intuito de sair melhor – melhor que você mesmo. E o clima durante o treino de karate é o mais amistoso e receptivo possível. Todos estão lá para ajudar os outros, ou seja, todos querem crescer e querem que todos cresçam.

Então, ficou claro para mim porque o karate é o caminho, já que o treino do karate é o caminho para melhorarmos muito em termos de postura, concentração, respiração, foco, disciplina, respeito, perseverança, resistência, equilíbrio, para testar nossos limites, testar nossa tolerância à frustração, dentre tantas outras coisas. Não é necessário nem dizer que tudo isso que aprendemos em um treino de karate estende-se para o restante da nossa vida. Quando você aprende a focar melhor no que está fazendo, usará isso em outras áreas da vida, como no trabalho, por exemplo. O mesmo para a tolerância à frustração, para a coragem de arriscar – e errar e ter que tentar de novo -, para a disciplina, para focar no seu desempenho e não no dos outros, etc.

Pense na vida de cada dia como um treinamento em karate. Não limite o karate apenas ao dojo, nem o considere apenas um método de luta. O espírito da prática do karate e os elementos de treinamento se aplicam a todos e a cada um dos aspectos da nossa vida diária. (...) Alguém cujo espírito e força mental se fortaleceram através das lutas com uma atitude de nunca desanimar não deve encontrar dificuldade em enfrentar nenhum desafio, por maior que ele seja”. ( Gichin Funakoshi, considerado o fundador do karate moderno).

Mas, o que isso tem a ver com o amor, afinal? Pois bem, todas essas reflexões deixaram claro para mim que o amor tem exatamente o mesmo papel do karate, ou seja, o de ser o caminho para um crescimento pessoal, um fortalecimento, um engrandecimento. O amor é o caminho tanto quanto o é o karate.

Embora muitas pessoas – arrisco a dizer que a maioria – vejam o amor como uma forma para chegar a fins fora dele, como casamento, filhos, status social, fim da solidão, etc, essas pessoas estão usando a palavra errada. Isso se chama relacionamento, não amor.

Quando nos deparamos com o amor sentimos a mesma sensação que senti quando subi naquele tatame pela primeira vez: o que estou fazendo aqui? Eu não vou conseguir. Não tenho habilidades corporais – justo eu, que sempre fui a nerd da turma? -, não tenho força física, tenho menos que zero de coordenação motora, mal consigo parar em um pé só sem desequilibrar. Fora que já estou com 38 anos, já passei da idade desse tipo de coisa. Muito mais fácil é ficar de fora, na minha zona de conforto. Nem entrar no dojo, para não ter que enfrentar o desafio.

Para começar o caminho do amor é necessário humildade tanto quanto para começar o karate. Porque quando você tenta fazer um movimento e não consegue, você vê onde estão suas falhas. Você é obrigado a olhar para seu próprio corpo, a tentar entender como ele funciona, descobre músculos que nem sabia que tinha. Você precisa se autoconhecer muito bem para poder avançar. Isso faz com que você enxergue tudo o que está ruim, tudo o que você negligenciou ao longo da sua vida sedentária, mas isso faz com que você tenha força e vontade de melhorar cada ponto do seu corpo que está precisando melhorar. Isso faz com que você perceba também seus pontos fortes e os use com sabedoria.

E a gente aprende lições incríveis, como a da criança que me disse: “calma, todo mundo começa faixa branca”. Assim também no amor: todo mundo começa faixa branca. É necessário ter coragem para olhar para si mesmo, detectar seus pontos fortes e seus pontos fracos, treinar e crescer, melhorar, disciplinar-se, focar, ter respeito, para poder progredir. É necessário o autoconhecimento.

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Esse mesmo amigo que me explicou sobre o caminho, que foi quem indiretamente me incentivou a procurar o karate para o meu filho e que, de quebra, acabou me levando a praticar também, disse-me assim um dia: “mudar por amor? E depois descobrir que foi tudo em vão?”. Bom, esse meu amigo entende tudo de karate, mas não entende muito sobre o amor. Dizer isso seria o mesmo que dizer: para que vou treinar karate, se na vida real, provavelmente eu nunca vou me deparar com uma situação em que precise usar a defesa pessoal, ou que, caso precise, estarei em desvantagem porque o agressor provavelmente estará armado? Isso é verdadeiro quando você acredita que o valor do karate está fora dele, está na sua utilidade. Quando você vê o karate como o caminho, com valor em si próprio, essa pergunta perde totalmente o sentido. Até porque, o treino do karate é constante, não tem um fim. Você sempre pode aprender coisas novas ou melhorar naquilo que já é bom, como disse meu sensei.

O mesmo vale para o amor. Se você realmente mudar para melhor, passar a ser uma pessoa mais forte, confiante, disciplinada, respeitosa, humilde, aprender coisas novas, melhorar nas coisas que já sabe, por amor, isso nunca será em vão, mesmo que a pessoa que lhe inspirou a seguir esse caminho resolva desviar o caminho dela em outra direção em um determinado momento.

Assim como no karate, no amor muitas vezes a gente sai um pouco dolorido, com alguns roxos no corpo, além de alguns dias mais frustrados do que em outros. O karate pode ser perigoso, você pode apanhar, cair, torcer algum músculo, ficar com bolha no pé (como aconteceu comigo), mas esses são apenas alguns percalços no caminho. Aliás, mais que isso, são passos necessários para que se cresça. Afinal, ninguém chega ao topo da montanha sem nenhum tipo de esforço e dor, como nos ensinou Nietzsche. Um pouco de dor e sofrimento, faz parte de qualquer caminho grandioso que busque nos elevar a uma versão melhor de nós mesmos. Querer entrar em uma relação de amor com garantias de que não vai sofrer nem um pouco é o mesmo que entrar em um treino querendo garantias de que sairá de lá sem nenhum roxo no corpo.

E eu entro no treino com um nível de energia e saio de lá com essa energia incrivelmente potencializada! O que se esperaria de um treino físico? Que saíssemos exauridos. Isso não acontece. O meu corpo fica bastante cansado, mas saímos de lá, eu e meu filho, muito animados, bem melhor do que entramos, tagarelando, discutindo nossos progressos, nossas dificuldades, admirando o desempenho dos mais graduados que nos ensinam tanta coisa.

E terei que ser repetitiva: o mesmo vale para o amor! O amor é aumento de potência, impulso em nossa energia. Essa é até a definição de amor que eu mais gosto na filosofia ocidental, do Spinoza: amor é aumento de potência associado à sua causa. Então, uma pessoa específica me gera aumento de potência, me faz sorrir, faz meu dia ser mais alegre e interessante apenas por ela existir. Isso é o amor de Spinoza. Por essa pessoa eu quero ser melhor, quero aprender mais coisas, quero ser mais bonita e interessante, mais forte, mais focada, mais equilibrada, menos ansiosa.

Por fim, o que aprendi com o sensei na primeira aula é que o karate precisa ser aprendido na prática. Novamente, o mesmo vale para o amor. É só tendo a coragem de entrar no dojo e começar a praticar essa arte – amar é uma arte tanto quando o karate – que vamos aprendendo como se faz e aprimorando cada vez mais essa prática. Não se aprende amar à distância, através de leituras, através de teorias, através da tela de nossos smartphones. Isso equivale a assistir uma aula de karate. A gente até aprende alguns conceitos, mas os benefícios mesmo só vem quando colocamos o corpo. O espírito sente e quer, a mente planeja a estratégia e o corpo age, como disse meu sábio sensei. O corpo precisa estar presente. E, repito, todo mundo começa faixa branca, no amor e no karate.

Tem um trecho do livro Cartas a um jovem poeta, do Rilke, que até já citei em outro texto, que eu realmente acho muito bonito sobre o amor: “O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe”.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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