Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

Onde não houver alegria, não se demore

Onde não houver amor – ou ALEGRIA - , não se demore. Onde há tristeza, não se demore. Onde há frustração, dor, queda de potência, não se demore. Se não há como evitarmos as tristezas, as quedas de energia, há como escolhermos não nos demorar nelas, não gastar tempo com elas, não passar para frente, tentar nos livrar o mais rápido possível disso.


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Onde não houver amor, não se demore. Essa frase, de autoria controversa, costuma ser interpretada, à primeira vista, como uma frase de amor romântico não correspondido: se você ama e não é correspondido, parta para outra imediatamente, sem perder tempo. Ou, a amores líquidos, que passam rápido – o famoso, “a fila anda”. Claro, essas são interpretações possíveis.

No entanto, podemos pensar de uma forma mais complexa sobre a ideia dessa frase. A interpretação acima usa a palavra “amor” no sentido de carência. Você está carente, sentindo um vazio existencial e vê no outro a possibilidade de preencher esse vazio. Um amor tipo band-aid. Então, quando você acha que há amor – mas não há, conforme diz a frase -, não se demore e corra procurar outro curativo para sua ferida.

Mas, bem, essa não é a definição de amor que eu mais aprecio na filosofia. Quem já leu mais textos meus sabe que gosto muito da definição de amor de Spinoza. O amor de Spinoza não é o da falta, do desejo, mas sim, é o amor do mundo que se apresenta à sua frente, do mundo real. Spinoza dizia que temos uma energia vital, uma potência, que varia ao longo do dia. Algumas coisas aumentam nossa potência, nos alegram; outras, sugam nossa energia, nos entristecem. Amamos o que nos alegra, segundo ele. Assim, o amor de Spinoza é aquele onde há ALEGRIA.

O amor nada mais é do que a alegria, acompanhada da ideia de uma causa exterior” (Spinoza).

É como se tivéssemos um nível de energia médio, que chamaremos de “A”. Enquanto vamos vivendo, encontramos coisas que nos potencializam, aumentam essa energia, nos deixam animados, sorridentes. Aumentam nossa energia para um nível que chamaremos de A+1, A+2, A+3..., dependendo da intensidade.

Por exemplo, tenho um cachorrinho de quem gosto muito e que tem um poder enorme de me alegrar. Assim, se meu dia está indo de forma mediana, é só encontrar com ele, levá-lo passear que minha energia sobe para A+; sempre, invariavelmente. Esse cachorrinho é uma “poção de energia” para mim. Outras várias coisas tem esse poder sobre mim. Ouvir música, por exemplo; treinar karatê; brincar com meu filho; etc.

No entanto, o mundo nos entristece, muitas vezes. Sofremos acidentes, somos assaltados, perdemos dinheiro, ficamos doentes, pessoas nos destratam, etc. Esses fatos fazem o contrário: pegam nossa energia nível A e levam para A-1, A-2, A-3.... Então, estou vivendo meu dia de forma mediana e torço meu pé em uma atividade física. Aquilo me deixa para baixo, suga minha energia.

Nossa vida oscila dessa maneira. Muitas coisas temos controle, como por exemplo, ouvir uma música ou passear com o cachorro; no entanto, muitas coisas não temos absolutamente controle algum.

Pois aí que entra a tal frase citada no começo. Gosto de pensar essa frase assim: onde não houver amor – ou ALEGRIA - , não se demore. Onde há tristeza, não se demore. Onde há frustração, dor, queda de potência, não se demore. Aí você pode pensar: claro, quem faria isso conscientemente? Pois é, meio que todo mundo. Como? Ora, reclamando, falando mal de pessoas que nos entristecem, gastando tempo em coisas que somente sugam nossa energia.

Por exemplo, vou a um supermercado e o caixa comete um grande erro comigo. Perco tempo, dinheiro e paciência. Preciso chamar o gerente para resolver esse pepino. Minha energia cai para A-5. Então, ao finalmente me livrar do problema, o que faço? Fico falando dele para todo mundo, escrevo um textão no Facebook para contar a todos minha indignação, fico arrumando argumentos sem fim para provar que eu estava certa e que vivi um absurdo, etc, etc, etc... Sim, nesse caso, estou me demorando onde definitivamente não há amor.

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Se não há como evitarmos as tristezas, as quedas de energia, há como escolhermos não nos demorar nelas, não gastar tempo com elas, não passar para frente, tentar nos livrar o mais rápido possível disso. Como? Ora, vá passear com o cachorro se você gosta, como eu; ouça música, leia um livro, passe um tempo com alguém que você realmente ama (ou seja, alguém que lhe alegra).

Ah, mas a pessoa fez isso ou aquilo para mim, eu vou simplesmente esquecer? Resposta: sim!! Afinal, o agressor, no caso, não está sendo afetado de verdade pela sua raiva, indignação, fofoca, etc. Você está se acabando sozinho, enquanto a causa de sua tristeza não está sendo afetada em nada. O afeto está EM VOCÊ.

É como quando você bate o dedinho do pé na quina da cama. A quina da cama agrediu seu pé, mas a dor é toda sua! Se você ficar um dia inteiro contando o quanto você sentiu dor quando bateu o pé, você só prolonga a dor. Você se demora onde não há amor. E a quina da cama continua lá, ilesa e sem sentir nada.

Então, pensemos nessa frase dessa forma: nas coisas sobre as quais você não tem controle e que definitivamente reduzem sua energia e seu ânimo, não se demore. Deixe ir. Apenas foque em manter sua energia de A para cima. Nas coisas sobre as quais você tem controle, escolha o melhor caminho. Livre-se das quinas que você tem o poder de se livrar (um relacionamento abusivo, um trabalho odiado, etc).

É claro que há coisas muito grandes, tragédias, dores muito intensas, como o luto pela perda de um ente querido. Nesses casos, a energia cai para um nível quase insuportável, perto da morte, mesmo. Obviamente, não será uma voltinha com o cachorro ou uma música que lhe colocará em equilíbrio imediatamente. No entanto, não é dessas situações que estou falando. Essas, ainda bem, são exceção. A maioria das coisas que nos tiram do eixo e nos aborrecem no dia a dia são coisas pequenas. No entanto, a somatória de coisas pequenas que insistimos em não largar exaure nossa energia.

Gosto de pensar um pouco nessa coisa do mundo que encontramos como um jogo de videogame, desses que você vai andando e encontrando desafios. O cenário vem até você, apresentando desafios e itens de poder. Nesse caso, é como se esbarrássemos em um inimigo que deixa o Mário pequeno, suga parte de sua energia, e em vez de seguir em frente no jogo, em busca por um novo cogumelo para voltar a crescer e de outros poderes para deixar o Mário mais preparado para enfrentar o mundo, não, ficamos lá, parados no lugar que nos deixou pequenos, reclamando, resmungando.

A ideia é sempre seguir em frente, buscando potencializar nossa energia. Deixar ir aquilo que nos exaure. Lembrando que a quina da cama continuará para sempre indolor, enquanto seu dedo é que sente o afeto. A quina da cama pode ser um amigo traíra, um serviço mal feito, um chefe desrespeitoso, uma torção no pé, uma gripe, um erro de estratégia. Deixe ir.

Uma vez vi em uma crônica da Martha Medeiros a expressão “afogar-se em um pires”. Gosto da imagem que essa expressão traz à minha cabeça: uma pessoa rolando, esperneando, quase se afogando em uma pocinha, dentro de um pires. Há oceanos que nos sugam, mesmo; justamente para enfrentarmos as grandes tempestades, temos que estar com todos os nossos “poderes” carregados. Senão, realmente, “qualquer trovão mete medo e você está sempre temendo a fúria de tempestade”, como diz Zélia Duncan em sua canção.

Não é uma questão de reprimir sentimentos, fingir que não existem. Eles existem, claro. Você cai, tropeça, rala o joelho. Mas, como diz outra canção, “reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Caiu, doeu, perdeu potência, esforce-se para levantar rápido e seguir em frente. Às vezes, meio dolorido, meio torto, mas sempre em frente, deixando para trás as quinas de cama e procurando recuperar-se para o nível A e ganhar cada vez mais potência, cada vez mais vida.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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