Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

Preste atenção nas críticas: elas dizem mais sobre você do que sobre o outro

Sempre que nos pegamos criticando alguém, irritados com comportamentos alheios que não nos dizem respeito ou nos pegamos incomodados com críticas feitas a nós, vale fazer a pergunta: por que isso me incomoda? No momento em que nos damos conta de que não podemos mudar ninguém além de nós mesmos, podemos usar as críticas – feitas a nós e feitas por nós – como oportunidades para fazer com que a nossa paz pertença cada vez mais a nós mesmos.


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Vira e mexe vejo textos que defendem a tese de que quando os outros nos criticam ou ofendem, o problema está com eles e não conosco, que aquilo é apenas a opinião da outra pessoa, que devemos deixar de lado essas críticas e opiniões todas e continuar nossa vida exatamente como ela está, porque isso não tem nada a ver com a gente. É coisa de gente recalcada, invejosa. De fato, a inveja é um dos motivos que leva pessoas a criticarem outras. “A inveja faz as pessoas rebaixarem justamente aquelas que valorizam e admiram”, diz o psiquiatra, Flávio Gikovate.

No entanto, minha proposta aqui é outra: ao invés de assumirmos a posição de vítima de pessoas mal amadas ou invejosas que só sabem nos criticar porque não conseguem lidar com suas próprias frustrações, passemos a aproveitar as críticas – tanto as que nós fazemos aos outros, como as que fazem para nós – como oportunidades.

Faz tempo que eu instalei na minha cabeça um pequeno juiz, mas não um que me julga o tempo todo e me coloca para baixo, mas sim, um que me cutuca toda vez que alguém me critica e eu me ofendo ou quando eu me vejo criticando as pessoas, mesmo que intimamente. Esse juiz tem o papel de me fazer a seguinte pergunta: por que isso incomoda você?

Por exemplo, vejo uma pessoa na rua caçando um Pokémon em seu celular e, na hora, fico profundamente irritada. O tal homenzinho me pergunta então: por que isso incomoda você? Por que uma pessoa que está usando o tempo dela, o celular dela, a internet dela, incomoda? A não ser que ela esteja lhe incomodando de fato – pisando no seu pé ou usando o seu celular, por exemplo -, a questão é: o que você tem a ver com isso? Será que isso me incomoda porque sou uma pessoa muito preocupada, tensa, trabalhadora e não consigo me dar o direito de relaxar e apenas brincar, mesmo com algo inútil, de forma que me incomoda ver pessoas se divertindo e relaxadas? Será que de alguma maneira estou me sentindo preterido pela pessoa que está comigo, mas prefere caçar Pokémon? Será que sinto-me excluído, porque não entendo nada desse tal de Pokémon, meu celular não é muito avançado e eu não sei jogar essa porcaria de jogo?

Você pode substituir a pessoa jogando Pokémon Go por pessoas que aderiram ao desafio da foto em preto e branco do Facebook, por pessoas que postam demais sobre suas vidas, por pessoas que postam de menos, por pessoas que escolhem não trabalhar fora e cuidar dos filhos, por pessoas que escolhem não ter filhos, por pessoas que têm relacionamentos com outras do mesmo sexo, por pessoas vaidosas demais, por pessoas vaidosas de menos, etc... Sempre que uma atitude tomada por outra pessoa, mas que não lhe afeta diretamente, irritar você demais, cabe a pergunta acima.

O mesmo vale para quando pessoas nos criticam e nós realmente nos incomodamos. Alguém diz algo de você que supostamente não é verdade, mas aquilo dói em você, incomoda. O juiz vem e pergunta: por que isso lhe incomoda? O historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal, falou certa vez que nós só nos ofendemos quando não nos conhecemos. Ora, a ofensa só tem duas respostas: sim, é verdade e, nesse caso, não há motivo para se ofender; ou não, não é verdade e, portanto, também não há motivo para se ofender.

“A pessoa que tem domínio de si jamais se ofenderá. Eu só posso me ofender se eu não me conhecer. Alguém me insulta dizendo algo sobre uma questão pessoal. Só há duas hipóteses: a pessoa está dizendo a verdade ou ela está mentindo”, diz Karnal em uma aula sobre Hamlet. Em nenhum dos dois casos, há ofensa.

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Isso fica muito claro quando a característica colocada em cheque pelo outro é óbvia e não gera nenhum tipo de dúvidas. Por exemplo, se alguém algum dia me disser, a título de ofensa, uma frase como: ‘você é uma magrela’, isso vai gerar em mim uma grande perplexidade, porque eu passo muito longe de ser magrela. Assim, concluirei que a pessoa que me disse isso tem algum problema muito sério de visão, pois é óbvio que isso é uma inverdade. Sendo assim, não chega nem perto de me ofender.

O problema começa a aparecer quando as características envolvidas nas ofensas alheias são características sobre as quais não temos certeza. Se eu tivesse alguma insegurança com relação à minha inteligência, por exemplo, e alguém me visse caçando um Pokémon na rua e me dissesse: ‘você é idiota, porque caça Pokémon’, eu poderia ficar insegura, balançada. Talvez partisse para a briga ou para uma contra-ofensa. Talvez escrevesse um textão no Facebook para tentar convencer, principalmente a mim mesma, de que eu não sou idiota. Ora, se eu tivesse plena convicção de que não sou idiota, jogando ou não Pokémon Go, isso soaria para mim como o xingamento de magrela.

Gikovate fala que todas as críticas, mesmo as construtivas, nos incomodam, mas ele defende essa mesma tese que falei acima, ou seja, de que as críticas podem nos ajudar muito a nos conhecer melhor. “Toda pessoa inteligente deveria pensar muito depois, com calma, sobre aquilo que ouviu, porque, às vezes, aprendemos muito sobre a gente mesmo, mesmo com as pessoas que falam as coisas que falam por pura maldade”.

Muitas vezes, as pessoas veem coisas na gente que nós não queremos ver, preferimos fingir que não temos, não gostamos de admitir que, realmente, pode haver um fundo de verdade naquela crítica. Independentemente dos motivos pessoais que levaram a pessoa a lhe criticar, porque isso é, de fato, problema dela, cabe a você avaliar se, afinal, aquilo mexeu com você, qual foi a ferida cutucada? Que monstro será que está escondido no armário que você prefere não ver? Qual o ponto cego que você não está conseguindo – ou querendo – ver?

Assim como também podemos aprender muito com a inveja – a nossa, nesse caso. Gikovate diz que é quase impossível nos livrar definitivamente da inveja, já que ela deriva de dois elementos da psicologia humana: a vaidade, presente em todos nós, e a comparação, que nos faz nos sentir humilhados quando percebemos pessoas que consideramos melhores que a gente em determinados aspectos. Assim, a inveja vai gerar algumas das críticas que fazemos aos outros. Dessa forma, ela pode nos ajudar a nos conhecer melhor e a crescer.

Criticamos quando invejamos ou quando vemos nos outros características não tão desejáveis que não queremos admitir que existem em nós – a chamada projeção. Criticamos também quando estamos inseguros de nossa posição e queremos reiterar determinados pontos de vista – por exemplo, pessoas casadas, mas nem tão felizes, que criticam as pessoas solteiras, como forma de tentar se autoconvencer de que esse é o caminho certo (ou vice-versa). Ofendemo-nos com críticas quando estamos inseguros de nossas características.

Em todos esses casos, vale agarrarmos as oportunidades para tentar nos conhecer melhor, para tomar as rédeas e resolver as pendências, uma vez que, de fato, a única pessoa sobre a qual temos controle é a gente mesmo. Você pode, com razão, achar que os outros são críticos e cruéis demais, que não deveriam opinar sem serem convidados a isso, perceber-se alvo de inveja alheia, mas sobre nada disso você tem controle. A única pessoa que podemos mudar é a gente mesmo.

Assim, cabe a nós decidirmos nos afastar de pessoas que realmente só nos fazem críticas destrutivas, correr atrás daquilo que percebemos que invejamos nos outros, domar nossas emoções para não sermos nós os críticos cruéis movidos pela inveja, admitir e mudar características indesejadas em nós mesmos, ter coragem de mudar situações que nos desagradam, buscando sempre caminhar no sentido de fazer com que nossa paz pertença a nós mesmos e a mais ninguém.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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