Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

Tenha coragem e se olhe no espelho

Todas as pessoas que já conseguiram superar a obesidade como eu sabem que trata-se de um processo de mudança interna. Não há dieta da moda ou qualquer fator externo que consiga fazer uma grande transformação. Foi necessária uma mudança de base na minha relação com a comida e perceber quais as lacunas e os vazios que a comida estava preenchendo em mim. É claro que estou usando essa questão da obesidade como uma metáfora, porque os quilos a mais nesse caso equivalem a tudo aquilo que acumulamos e que não gostamos de ter. Precisei encarar o espelho de frente para descobrir quem era eu, afinal.


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Esses dias, recebi uma foto minha de alguns anos atrás, de quando eu era obesa. Essa foto teve um grande efeito em mim e me fez refletir muito sobre isso. Ao olhar aquela foto, eu mesma me assustei: não me lembrava que era daquele jeito. Eu sabia que tinha sobrepeso e que tinha perdido cerca de 30 quilos no último ano, mas mesmo assim tomei um choque com o que vi. Fiz aquela clássica montagem de “antes” e “depois” e a mudança fica muito evidente. O que mexeu comigo ao ver aquela foto foi justamente a noção de que eu não tinha consciência do quanto tinha ganhado peso e do quanto isso mexia com minha autoestima.

Alguém pode questionar: mas como você não tinha percebido, não tinha espelho? Eis a questão! Eu fugia de espelhos cada vez mais nessa época. Evitava me olhar mais que o necessário, evitava ao máximo sair em fotos e proibia que essas fossem postadas em redes sociais. Eu não queria me ver no espelho, eu não queria olhar para mim. Eu sabia que não gostaria do que veria e, por isso, evitava olhar.

Ora, que metáfora incrível para o autoconhecimento percebi nisso. Muitas vezes chegamos em um ponto de nossa vida em que não queremos olhar no espelho, porque não sabemos direito o que vamos ver e já prevemos que não vamos gostar. O interessante é que quando não nos olhamos através do espelho, quem acaba sendo nosso espelho? Os outros. Vemos a nós mesmos através dos outros. Como não gostamos do que somos, invariavelmente veremos nos outros aquilo que tememos ver na gente. Temos a tendência de ver defeitos, apontar erros, ver as feiúras, os excessos, as fraquezas, ou seja, tudo aquilo que não temos coragem de ver em nós, que vemos refletidos nos outros. Ou, muitas vezes, vemos qualidades que sabemos não possuir e, para não admitir isso, diminuímos as qualidades dos outros, dizendo que não têm importância ou que são defeitos, para que não tenhamos que enfrentar a realidade: o outro tem qualidades que você não tem. E vice-versa, é claro.

Vale até lembrar que no livro A Divina Comédia, de Dante Alighieri, os invejosos tinham seus olhos costurados, justamente porque eles eram aqueles que não viam, ou seja, não viam a si mesmos e, por isso, não suportavam ver a alegria e as qualidades do outro.

A grande questão que percebi ao ver essa foto é o quanto é difícil e doído dar esse passo tão importante de ter coragem de se olhar no espelho. Não é nada fácil, não mesmo. Porque muitas vezes vemos o que eu vi: uma quantidade tão grande de quilos acumulados ao longo de alguns anos, que parece que você nunca vai ter forças para eliminar isso. A gente sabe o quanto será difícil e demorado, o quanto será um processo de mudança de hábitos e saída da zona de conforto, o quanto dependerá de uma ação de nossa parte.

É claro que estou usando essa questão da obesidade como uma metáfora, porque os quilos a mais nesse caso equivalem a tudo aquilo que acumulamos e que não gostamos de ter, que sabemos que nos fazem mal à saúde ou outro tipo de mal, que sabemos que derivam de maus hábitos e de questões muito mais profundas do que apenas gostar de comer. No meu caso, os acúmulos se traduziram também em obesidade física, mas obviamente há pessoas com o corpo leve, mas que também não se olham no espelho; bem como há pessoas acima do peso “ideal” e que são leves como uma pluma, melhores amigas do espelho.

Todas as pessoas que já conseguiram superar a obesidade como eu sabem que trata-se de um processo de mudança interna. Não há dieta da moda ou qualquer fator externo que consiga fazer uma grande transformação. A mudança veio de dentro e o corpo somente reagiu a isso. É como se eu tivesse eliminado ou trabalhado arduamente em diversas questões da minha vida que precisavam ser trabalhadas e eu fosse, aos poucos, eliminando essa grossa camada com a qual cobri a verdadeira “eu”, que estava lá, escondidinha.

Foi necessária uma mudança de base, mesmo, na minha relação com a comida. Foi necessário perceber quais as lacunas e os vazios que a comida estava preenchendo em mim e por que ela me gerava um alívio imediato da ansiedade, mas com duração curta e necessitando de cada vez mais. Foi necessário tornar a minha vida mais alegre e com mais significado para que sobrassem menos espaços vazios a serem preenchidos. Foi necessário encontrar outras formas de redução da ansiedade que não fosse comer e, para isso, precisei ir me (re) descobrindo.

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E posso dizer com propriedade e conhecimento de causa que não há nada melhor do que encarar o meu espelho hoje, porque somente assim consigo ver o que gosto e o que não gosto em mim, o que eu posso mudar e o que não posso, consigo ver minhas qualidades e minhas limitações, podendo aceitar as últimas e gostar das primeiras. E o melhor de tudo é que no momento em que passamos a gostar do que vemos no espelho, mesmo com os defeitos, com a testa demasiado grande ou com os cabelos absolutamente indomáveis, os outros novamente passam a espelhar isso, ou seja, hoje o que é refletido nos outros não são mais os meus defeitos ocultos, mas sim, as minhas qualidades.

Hoje eu sei dizer, sem medo de parecer convencida, que eu tenho uma boa memória e facilidade de leitura e escrita e essas características brilham em outras pessoas que as têm quando as encontro. Assim como tenho consciência da grande diferença que existe entre minha capacidade intelectual e minha capacidade motora, de forma que preciso fazer um esforço muito grande na segunda para ter resultados medianos em atividades esportivas, mas isso somente torna mais claro para mim a qualidade de pessoas que têm uma enorme aptidão motora e são realmente boas no esporte. Longe de criticar e dizer que o que importa mesmo é a inteligência – ou qualquer outro tipo de desculpas que nos damos para justificar os nossos pontos fracos -, eu me inspiro nessas pessoas e tento aprender com elas.

O mundo em que um homem vive se molda principalmente pelo modo como ele o vê; assim, ele se mostra diferente a diferentes homens. Para uns, ele é estéril, obscuro e superficial. Para outros, é rico, interessante e cheio de significado”, disse Arthur Schopenhauer. “Cada homem é confinado aos limites de sua própria consciência e não pode ir diretamente além desses limites, mais do que consegue ir além de sua própria pele”.

Então, o mundo que vemos é “filtrado” pela nossa consciência. A forma como eu vejo o mundo me espelha invariavelmente, porque o meu mundo é a minha versão das coisas externas a mim. A beleza que eu vejo no mundo está em mim. Para que eu veja beleza, amor, bondade, gentileza, ou qualquer outra coisa no mundo, tudo isso precisa estar em mim, mas, para isso, preciso me olhar no espelho. Preciso ver de frente quem, afinal de contas, sou eu. O que eu tenho de bom para valorizar e o que tenho de ruim para melhorar. Como pegar a versão atual e transformá-la em uma versão melhorada de mim mesma.

"Os olhos são pintores: eles pintam o mundo de fora com as cores que moram dentro deles. Olho luminoso vê mundo colorido; olho trevoso vê mundo escuro". (Rubem Alves)

Então, tenha coragem e se olhe no espelho, mas se olhe sem preconceitos, com humildade, com respeito, com honestidade. Quanto mais nos conhecemos e nos aceitamos, menos precisamos da aprovação alheia, mais nos tornamos dispostos a nos mostrar verdadeiros, mesmo que isso implique em demonstrar também fraquezas, menos nos ofendemos e mais percebemos que a única mudança possível é na gente mesmo.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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