Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

Você acha que a música tem o poder de mudar as pessoas?

Sobre como a arte nos abre novos mundos, novas possibilidades, gera perguntas, amplia nossa alma e nos transforma. "Vivenciamos algo e, por intermédio dessa vivência, outro algo acontece em nossas vidas. É uma espécie de reação química". (Haruki Murakami)


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Escrevi aqui um texto certa vez que contava sobre como uma sonata do Beethoven me levou a um livro de Tolstói e sobre como o poder da música foi descrito nesse livro, que tem o mesmo nome da sonata – A sonata de Kreutzer. Beethoven continua abrindo as portas do mundo para mim. Outra música dele me levou a outro livro, outro autor, outro mundo de informações e emoções transformadoras.

Há uma música-poema do Oswaldo Montenegro, chamada Metade, que diz o seguinte: “Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba”. Pois eu acho que muito mais do que respostas, a arte nos aponta mesmo são as perguntas. Perguntas profundas, perguntas simples. Perguntas que nos levam a ampliar nosso mundo, nossa cabeça, nossos sentimentos e emoções, estufar nossa alma para “caber mais mundo”, como diz Viviane Mosé.

A música dessa vez é o Trio Arquiduque. Eu digo que essa é a música mais linda do universo – ao que meu filho retruca: “na sua opinião”. Claro, ele está certo, mas acho que essa música entraria em um top 10 absoluto das músicas mais bonitas já compostas. O trio é de piano, violino e violoncelo. O livro é de um autor japonês chamado Haruki Murakami.

Eu - confesso - não conhecia Murakami. Quando fui ler sobre ele, vi que é um fenômeno de vendas no Japão e no mundo. O livro chama Kafka à beira mar - título estranho, à primeira vista. Resolvi ler para descobrir onde entrava a música do Beethoven. O livro me pegou de jeito. Comecei a ler e não parei até acabar.

kafka.jpg Fonte da foto: https://cabaredasideias.com.

Murakami claramente tem uma admiração e certa influência de Kafka. Isso é percebido não somente pelo nome da personagem, mas pelos elementos fantásticos presentes na história. Aquele fantástico tipo Kafka, que está lá, mas não é non sense, que aparece como se não fosse fantástico, e que sempre tem um sentido mais profundo. A narrativa de Murakami é mais leve que a de Kafka, mas tem aquele poder de tocar lá no fundo. Depois desse, li outro livro dele, de contos, chamado Homens sem mulheres e esse livro é daqueles que até dói quando a gente lê certas passagens.

Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? (...) Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio”. (Trecho da carta escrita por Franz Kafka a Oscar Pollak, em 1904).

No livro de Murakami, há a pergunta que dá nome ao meu texto: “Você acha que a música tem o poder de mudar as pessoas?”. E continua: "Acha possível que uma música que certa pessoa ouviu em determinada época da sua vida possa mudar muito, mas muito mesmo, algo dentro da pessoa?".

A resposta: “Com certeza. Essas coisas acontecem. Vivenciamos algo e, por intermédio dessa vivência, outro algo acontece em nossas vidas. É uma espécie de reação química. Posteriormente, quando fazemos autoanálise, descobrimos que todos os nossos parâmetros internos melhoraram consideravelmente. E que o nosso mundo se ampliou. Eu também tive experiências parecidas. Raras, mas algumas foram assim. É o que acontece quando amamos”, responde a personagem chamada Oshima. “Se jamais passarmos por tais experiências, nossa vida não terá sentido nem sabor”.

Mais uma linda definição sobre o poder da música sobre nós. E a música tem papel de personagem no livro de Murakami. Não só esse trio do Beethoven, mas muitas outras músicas são citadas ao longo do livro. Elas têm importância grande. Assim como os gatos. Mas isso já é assunto para outro texto.

Murakami 2.jpg Há uma passagem em que chovem sardinhas e cavalinhas no livro. Fonte da imagem: http://www.haruki-murakami.com.

Pensando sobre a arte e todo esse poder de gerar perguntas, abrir portas, mundos, expandir a alma, lembrei-me de Nietzsche. “A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida". Ele dizia que somente a arte leva à afirmação da vida. A arte não tem aquela “vontade de verdade”, que existe nos conceitos e na linguagem. Mas ele via a arte como uma forma de exercitar a intensidade e a perfeição, e não somente como uma válvula de escape para os afetos. A verdadeira arte é aquela que tem precisão, que leva ao equilíbrio perfeito entre as forças que nos movem. Como um atleta que executa movimentos perfeitos, sem desperdiçar energia, sem errar um centímetro e obtém algo próximo à perfeição. Essa é a arte de Nietzsche. A arte na qual devemos transformar nossa vida.

E lembrei-me de Picasso, da exposição que visitei em São Paulo recentemente. O nome da exposição é “Mão Erudita. Olho Selvagem”. Exatamente a arte de Nietzsche. Intensidade nos olhos, nos sentimentos; precisão nas mãos, na técnica da pintura. Picasso que disse que já “pintava como Rafael” aos 12 anos de idade e que afirmou que “leva-se muito tempo para ser jovem”.

Percebo que juntei em um mesmo texto Beethoven, Tolstói, Murakami, Oswaldo Montenegro, Viviane Mosé, Kafka, Nietzsche, Picasso. “Ponho em meus quadros tudo aquilo de que gosto. Azar das coisas, elas que se arranjem entre si” (Picasso). Elas se arranjam. A arte sempre nos aponta uma resposta. Mesmo que ela não saiba.

Abaixo, o primeiro movimento do Trio Arquiduque, do Beethoven, com o Gryphon Trio, do Canadá:


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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