Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

A certeza da mortalidade no muro de Sartre

Somos mortais e podemos morrer a qualquer momento. O meu golpe veio no dia 27 de abril de 2012, quando um coágulo grande resolveu instalar-se na minha virilha. Eu poderia ter morrido? Como assim, morrer? Eu não podia morrer assim, sem mais nem menos. Podia. Todos podemos. Puf! Tchau, querida. Senti naquele momento a certeza da finitude me golpeando. E foi no livro O Muro, de Sartre, que encontrei uma reflexão muito parecida com a que fiz na ocasião. "Algumas horas ou alguns anos de espera dão na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno".


Abismo 1.png Imagem do gibi da Turma da Mônica Jovem, Umbra Parte 2, número 75.

Somos mortais. Essa é a única certeza que temos. O ser humano é o único ser que sabe que vai morrer. Então, por que vivemos como se fôssemos imortais? Perdemos um tempo enorme com bobagens, picuinhas, dores e dissabores cotidianos. Gastamos horas, até dias, com pequenos problemas, adiamos felicidades por medo, abrimos mão de abraçar pessoas, dizer a elas que são especiais para nós, porque deixamos para depois. E se o depois não chegar?

Ora, que pensamento mais trágico e destrutivo, não é mesmo? Vamos todos morrer bem velhos, temos todo o tempo do mundo. Sempre ouvimos sobre pessoas jovens, crianças, que adoecem gravemente e morrem; ou de pessoas que se acidentam, são assassinadas e têm suas vidas interrompidas antes da hora. Mas isso parece tão distante de nós. Até que acontece algo com a gente que nos faz acordar para essa realidade. Somos mortais e podemos morrer A QUALQUER MOMENTO.

A vida às vezes se encarrega de nos mostrar isso e, quem conhece a vida – e todos nós conhecemos, já que somos seres viventes – sabe que ela não costuma ser sutil e cuidadosa. Geralmente, ela bate duro, mesmo. Em um só golpe você acorda com um chacoalho. O meu golpe veio no dia 27 de abril de 2012, quando um coágulo grande resolveu instalar-se na minha virilha, “no caminho do coração”, como disse meu médico, e poderia desprender-se a qualquer momento, causando embolia pulmonar, que poderia ter consequências graves, inclusive, a morte.

Eu sabia bem o que era embolia pulmonar, já que meu pai teve há uns anos antes e, inclusive, teve um infarto por conta disso. Além disso, calhou de eu ser médica veterinária e entender como funciona o corpo, como se formam os coágulos, como o pulmão precisa de ar e como o coração pode ser sobrecarregado nessas situações. Calhou também que eu era uma mulher obesa, o que somente piorava meu quadro. Aquilo veio para mim como uma bomba.

Fui ao hospital com um inchaço na perna, achando que seria algo banal, e saí de lá uma semana depois, com recomendação de repouso absoluto, pois o coágulo poderia se desprender a qualquer momento. Ouvi inúmeras vezes do médico sobre a gravidade da situação, vi a cara de preocupação dele quando sentia dor de cabeça (e se tivesse um coágulo no meu cérebro?), bem como não conseguia me livrar do fantasma que me dizia: se sentir falta de ar, chame urgente alguém!

Eu pensei: eu poderia ter morrido? Como assim, morrer? Eu tinha 34 anos, um filho de 6 anos e constatei com muita dureza que não tinha feito nada na minha vida. Nada do que eu queria. Eu não podia morrer assim, sem mais nem menos. Podia. Todos podemos. Puf! Tchau, querida. É assim que é.

Sempre via na televisão e em filmes histórias de superação, de pessoas que quase morreram e renasceram como novas almas alegres e saltitantes por terem tido uma segunda chance. Comigo, não foi assim. Não de imediato, pelo menos. Senti como se tivesse aberto aquelas portas de filme, que a pessoa abre e ao invés de encontrar a rua do outro lado encontra um abismo. Eu abri a porta, balancei, mas não caí. Voltei para dentro da vida. Mas, como esquecer essa porta? Como não achar que a qualquer momento ela poderia aparecer de novo para mim? Como viver com aquela sombra literalmente me assombrando?

Abismo 2.jpg Imagem do gibi da Turma da Mônica Jovem, Umbra Parte 2, número 75.

Quando voltei do hospital, eu era outra pessoa. Sentia que não cabia mais naquela vida que tinha, mas, ao mesmo tempo, não sabia que vida era a minha. E mais, passei a me questionar: para que viver, se vamos morrer? Que diferença faz morrer hoje ou daqui uma semana, ou ainda, daqui um mês, 10 anos? Nada tem sentido. Esse foi meu pensamento. A certeza da finitude e da fragilidade bateu tão forte em mim que eu não conseguia mais encontrar sentido nisso que chamamos de vida.

As pessoas constroem carreiras, matam-se para ter corpos perfeitos, compram bens materiais, mas aquilo parecia um teatro para mim. Achei que todos eram ridículos, vivendo em um mundo inventado, sem sentido. Passei um ano inteiro após o término do meu tratamento (sete meses de tratamento com alguns percalços meio graves no meio) achando que ia morrer. Eu tinha certeza de que meu corpo era como um graveto, que em um sopro se quebraria. Não confiava mais no meu corpo. Um ano inteiro indo dormir com a certeza de que não acordaria me deixou em um estado deplorável e precisei pedir ajuda.

Comecei a fazer análise e, junto com a análise, estudei muito, muito, muito. De filosofia clássica, à filosofia moderna, psicologia, literatura, história, tudo. Minha vida virou de cabeça para baixo, deixei de ser obesa, meu casamento acabou, muita coisa mudou. Sempre tento explicar às pessoas sobre a tal porta que se abre para o abismo e sobre como o tempo que temos aqui, em vida, não deve ser desperdiçado. Ele é curto. Somos frágeis e finitos. Tento explicar como perdi o sentido da vida e como é duro esse golpe, mas não obtenho sucesso sempre.

Recentemente, tive a felicidade de ler o livro chamado O Muro, de Sartre. Eu gosto muito da literatura de Sartre. Confesso que acho as mais de 700 páginas do O Ser e o Nada bastante enfadonhas, mas na literatura, sua filosofia aparece de uma forma muito brilhante. Trata-se de um livro de contos. São cinco contos, sendo o primeiro chamado O Muro. Foi exatamente nesse conto que encontrei uma reflexão muito parecida com a que fiz quando abri a porta do abismo e me deparei com a Dona Morte de frente.

O conto fala sobre três homens condenados à morte por motivo de guerra. O muro, no caso, é onde eles seriam executados a tiros. O conto narra a noite que antecedeu suas mortes e como eles estavam sentindo-se diante dessa certeza de que morreriam em poucas horas.

O conto é narrado por um dos três homens, em primeira pessoa. O personagem chamado Pablo Ibbieta, passa mal a noite toda, suando muito, mesmo no frio em que estavam. Em certo momento, ele começa a se lembrar de coisas que tinha vivido e como as considerava antes. “Aquilo me fez sorrir. Com que ansiedade eu corria atrás da felicidade, atrás das mulheres, atrás da liberdade... A troco de quê? (...) levava tudo a sério, como se fosse imortal”.

Nesse momento, tive a impressão de que teria toda a vida pela frente, e pensei: ‘É uma grande mentira’. Não valia nada, pois havia acabado. Perguntei-me como conseguira passear, divertir-me com mulheres; não teria movido um dedo se imaginasse que acabaria desse jeito. Tinha toda a vida diante de mim, fechada como um saco, e entretanto, tudo quanto estava lá dentro continuava inacabado. Tentei, num momento, julgá-la. Quisera dizer: foi uma bela vida. Mas não se podia fazer um julgamento, pois era apenas um esboço, eu passara o tempo todo fazendo castelos para a eternidade, não compreendera nada. Não tinha saudades de nada; havia uma porção de coisas das quais poderia sentir saudades; (...) a morte, porém, roubara o encanto de tudo”.

Ele continua dizendo que mesmo se lhe avisassem que poderia voltar para casa nesse momento, que estava salvo, ficaria indiferente. “Algumas horas ou alguns anos de espera dão na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno”.

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Bingo! Isso mesmo, Sartre. Foi assim que me senti. Desiludida com o fato de ter sido tão cruelmente informada que não era eterna e completamente desconfiada do meu corpo, aquela máquina falha e frágil da qual minha vida dependia.

Ele começa a questionar todas as “atividadezinhas” das pessoas, “homens que também iam morrer. Um pouco mais tarde do que eu, mas não muito”. Não conseguia mais se colocar no lugar dessas pessoas, “tinha a impressão de que estavam loucos”.

Ele continua dizendo que os guardas “se levavam a sério” e tem vontade de gargalhar ao ver o ridículo da situação, ou seja, pessoas vivendo suas vidas como se fossem eternos, preocupados com banalidades tão absolutamente vazias de importância.

Não vou contar o final do conto aqui, porque é realmente surpreendente. Vale a leitura. Todos os cinco contos do livro são perturbadores de alguma maneira e servem para refletirmos sobre a “existência e a essência” de Sartre. Sempre digo que Sartre chega cortando todos os fios que nos prendem às coisas todas da vida. Afinal, somos nada, segundo ele. Ele nos deixa soltos, no escuro, sozinhos, flutuando, sem ter onde nos agarrar.

Por fim, concluí nesses quase cinco anos após o evento que ter encontrado a Dona Morte deixou de ser uma maldição para mim e passou a ser uma força a mais. Afinal, depois do abismo, nada mais me assusta tanto. Muito poucas são as coisas que me fazem arrancar os cabelos ou perder noites de sono. Sinto muitos medos ainda, mas nenhum se compara ao que senti lá atrás, diante da morte. Enfrento hoje os medos, porque sei que por pior que seja o resultado, se ele não for o abismo, sou capaz de superar.

E o que me fez continuar em frente, mesmo sabendo que a qualquer momento a porta do abismo poderá se abrir para mim novamente e, dessa vez, pode ser que eu não consiga voltar para a vida, foi a ideia de Nietzsche, que diz mais ou menos assim: se a vida não tem um sentido, que bom! Comemoremos! Isso permite que cada um de nós dê à nossa vida o sentido que quisermos. Viver é o sentido da vida. Apenas isso. Estar presente na minha própria vida e esculpi-la do jeito que desejar foi o sentido que encontrei para minha própria vida. Até que o abismo nos separe.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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