Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

“A inteligência é como o pênis”

"A inteligência é como o pênis. Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras, urinárias. (...) Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar prazer e para fecundar. Um pênis ereto é uma promessa de amor e uma possibilidade de vida. E o que é que produz o pênis ereto? (...) Qual o fator excitante original? Sem excitação não existe ereção” (Rubem Alves).


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Recentemente, levei meu filho de 11 anos para assistir a um concerto de música erudita e fiquei pensando um pouco nisso: por que devemos levar as crianças para eventos culturais como um concerto de música, uma exposição de quadros, ou visitas a museus?

Estava assistindo ao programa Roda Viva feito com o Rubem Alves, em 2003, e, em um dado momento, um dos entrevistadores o questiona, de forma bastante provocadora, sobre a possibilidade de se levar crianças e adolescentes para ver obras de arte, dizendo que se tentasse isso com seu filho adolescente, ele acharia “um saco” e se recusaria a ir ver, por exemplo, uma exposição de Monet.

E foi o próprio Rubem Alves que fez uma analogia muito interessante para a questão da inteligência no livro Ao professor, com meu carinho. Segundo ele, “a inteligência é como o pênis”, ou seja, se não for provocada, excitada, fica em estado flácido. “Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras, urinárias. (...) Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar prazer e para fecundar. Um pênis ereto é uma promessa de amor e uma possibilidade de vida. E o que é que produz o pênis ereto? (...) Qual o fator excitante original? Sem excitação não existe ereção.

É assim, precisamente, que funciona a inteligência. Lá está ela, flácida e ridícula. (...) Não se nota que ela está assim, porque ainda não houve um objeto de amor que a excitasse para ter uma ereção.” Assim, percebi que expor meu filho ainda criança a um concerto de música erudita ou a outros eventos culturais é uma forma de excitar sua inteligência.

E que fique bem claro: estamos falando de inteligência, e não de produtividade, eficácia, alta performance. Para isso, existem centenas de manuais ao estilo “x hábitos para se tornar altamente eficaz”. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ser altamente eficaz no mercado equivale a ter ótimo desempenho no vestibular. Uma pessoa bem treinada e com boa memória passa no vestibular e isso não indica, de forma alguma, inteligência.

No entanto, assim como acontece no caso de “conteúdos” da escola, não adianta tentar enfiar goela abaixo obras eruditas com o intuito de incluir nossos filhos no clube privilegiado dos seres pensantes. Isso não funciona com crianças. “Há professores – e incluo aqui os professores de escola, pais, mães, instrutores – que têm a extraordinária capacidade de criar impotência de inteligência. (...) Exibem seus talos de saberes para humilhar os que ainda não sabem”, continua Rubem Alves.

Assim, nenhum adulto que se coloque nessa posição de superioridade e tente forçar na criança uma obra “erudita” como forma de torná-la mais culta vai obter sucesso. A criança vai enxergar o Monet como uma folha de alface ou um prato de feijão, que é obrigada a engolir para se manter saudável. Não vai de forma alguma despertar sua inteligência. É como colocar um homem diante de uma mulher extremamente atraente e tentar obrigá-lo a ter uma ereção. Todos sabemos que não é assim que funciona – mesmo que a mulher em questão seja realmente muito atraente.

Se você chegar para uma criança e disser: vou levar você a uma exposição de um pintor famoso, porque isso será bom para seu cérebro, certamente receberá uma cara feia de volta e terá a companhia de uma criança aborrecida durante a exposição, louca para voltar a seu tablet. É necessário dar a ela a possibilidade de degustar as obras, é necessário que ela divirta-se durante o evento, é necessário que tudo seja lúdico. Para isso, precisamos também ter olhos de crianças, olhos curiosos, inteligência com capacidade de excitação e ereção. Assim como no sexo, afinal, porque se há uma obrigação de desempenho e não há leveza e diversão, não há excitação nem prazer.

O problema é quando achamos que, ao estudar profundamente a obra de um artista conseguimos senti-la melhor e, dessa forma, dado nosso extenso conhecimento erudito, somos mais aptos a apreciar uma obra de arte do que uma criança. Tem engano maior que esse? “Porque a inteligência é a procura do desconhecido que não foi ensinado e não é sabido”.

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Rubem Alves compara, ainda, a mente com o útero: “nela, o pensamento procria. É nela que se geram os poemas, a literatura, as obras de arte, as invenções, as teorias científicas”. É necessário, portanto, um vazio na mente para que a excitação provoque a inteligência e essa gere pensamentos, tudo de forma leve, lúdica e, acima de tudo, prazerosa.

As crianças têm olhos que enxergam o mundo ainda. Isso me lembrou o poema de Fernando Pessoa: “Pensar é estar doente dos olhos”.

O regente do concerto que assistimos disse que não é necessário ter conhecimento da obra para que se possa apreciá-la. Assim, as crianças podem muito bem apreciá-las, ainda que, segundo ele, o conhecimento sobre a obra possa aumentar o prazer da apreciação. Em minha opinião, o conhecimento só aumenta o prazer quando conseguimos manter a porta aberta para o novo, quando conseguimos preservar nossos olhos (e ouvidos) de criança. Porque mesmo que a gente escute 1.500 vezes a mesma sinfonia do Beethoven, somos capazes de ter sensações e emoções diferentes a cada execução, além de descobrir detalhes que não ouvimos nas 1.499 vezes anteriores.

Meu filho e eu vimos no último ano 4 exposições de pintores: Frida Kahlo, Picasso, Portinari e Anita Malfatti. O que posso falar com conhecimento de causa é que meu filho foi a melhor companhia que poderia ter tido. Quem nunca percorreu uma exposição de Picasso com uma criança, não sabe o que está perdendo. A visão que ele teve dos quadros foi extremamente diferente da minha. Ele ficou sinceramente encantado com Picasso. Em nenhum momento fez aquele típico comentário de adulto chato de que “aquilo nem era arte, bla bla bla”. Ele viu homens e violões, viu banhistas na praia, viu detalhes, viu muitas coisas.

Já o Portinari, foi ainda mais interessante, porque ele tinha estudado várias de suas obras nas aulas de história e conhecia muito mais do que eu. Mesmo tendo estudado na escola (arte enfiada goela abaixo), enxergou muitas coisas que eu não tinha enxergado, me deixou de olhos arregalados e tentando acompanhar aqueles olhos vivos e curiosos. Ele ainda tem muito mais vazios do que eu e uma inteligência tinindo, pronta para ficar ereta.

Todos nascemos poetas e viramos adultos em um dado momento. Crianças que são expostas a artes desde pequenas têm menos chances de se tornar adultos cegos, pois aprendem o prazer de degustar o mundo quando se tem vazios e olhos não doentes. Talvez seja por isso mesmo que trabalhe-se tanto para mantê-las sob o cabresto, dominadas pelos tablets e YouTubers. Assim, desde cedo começamos a cegá-las, para que tudo continue como está, ou seja, um mundo cheio de adultos cegos e de mundo estreito, mas altamente eficazes para o mercado.

Então, não sejamos nós os professores broxantes da inteligência de nossos filhos. E, quem sabe, não possamos ainda aprender – e muito! – com eles. Quem sabe seus olhos que ainda não são doentes não nos ajude a acordar a inteligência que pode estar há muito tempo flácida, parada, confundida com habilidade, que são “automatismos desenvolvidos para resolver exercícios”, ou com a memória, que é o “lugar onde ficam guardadas as repetições”, como disse Rubem Alves.


Juliana Santin

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