Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

A sociedade é uma estranha senhora que hoje sorri e amanhã te devora

Fica claro que há a necessidade de haver tristezas e vazios, porque é disso que essa velha senhora se alimenta, afinal. Pessoas felizes e contentes consigo mesmas não comem demais, não bebem demais, não postam demais nas redes sociais, não compram demais. Assim, conclui-se que a sociedade sempre vai te devorar, seja você quem for.


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Recentemente, saiu notícia sobre uma jovem que faleceu de embolia pulmonar após submeter-se à cirurgia bariátrica. A história ganhou muita visibilidade após postagem bastante emocionante de sua irmã, contando sobre como a moça tinha sofrido durante sua vida inteira por ser obesa, sobre o quanto essa cirurgia significava para ela a chance de uma nova vida e sobre como essa fatalidade acabou matando-a. A história é muito comovente e mexeu bastante comigo por diversos motivos, entre eles, o fato de eu ter sido obesa e ter corrido risco de embolia pulmonar também.

No entanto, dá a impressão, ao sabermos dessas histórias, de que se ela não tivesse falecido, sua vida seria um mar de rosas, ela passaria a ser aceita e amada por todos, porque estaria magra. Seria finalmente aceita pela sociedade. Pois é justamente esse ponto que considero que vale a pena refletir. Tenho uma história de vida interessante nesse sentido, porque posso dizer que existiram duas de mim: a que vivia antes de adoecer, que simbolicamente morreu; e a nova versão de mim, surgida depois do evento.

A primeira versão de mim era muito bem aceita pela sociedade em diversos aspectos. Afinal, segui o roteiro da vida bem sucedida à risca: formei-me em uma boa faculdade, casei e tive um filho. Era uma mulher totalmente normal. Casada no civil, aliança dourada na mão esquerda, casa própria financiada em 20 anos pela Caixa, carro popular, um lindo filho e vários gatos de estimação. Éramos o protótipo da família Doriana: finais de semana no shopping, comendo fast food e indo ao cinema (tirando fotos com óculos 3D e postando: “cineminha com a família”), eventualmente passeios no Thermas, praia ou montanha nas férias, tudo como manda o figurino. Essa velha senhora que é a sociedade me sorria. Quando me perguntavam meu estado civil, eu respondia: ‘casada’, com aquele alívio de ser totalmente normal.

Ocorre que, como todo mundo que vive sua vida no palco alheio, adaptada a roteiros pré-programados e não pensados, eu sentia muitos vazios e muitas angústias. Vivia sempre com a sensação de desconforto de quem não está no lugar certo, aquela sensação que temos quando vestimos uma roupa que não nos serve muito bem. Os outros olham e acham que está ótimo, mas aperta quando senta, incomoda, pinica. Assim, meus vazios eram todos preenchidos da forma mais tradicional: comida, bebida, bens materiais, uso excessivo de redes sociais. Isso me levou a engordar e minha autoestima foi ficando enfraquecida, o que me levava a comer mais ainda. Minha vaidade passou a não existir mais e eu evitava até de sair de casa.

Assim, virei uma mulher obesa e desleixada, antissocial. Pois aí, a sociedade, aquela estranha senhora, me devorava, sem dó nem piedade. Se era padronizada por um lado, passava muito longe do ideal de mulher que a sociedade aplaude por outro, com seu corpo perfeito, cabelos sedosos e roupas da moda. Era a típica mulher que casou e desleixou de sua aparência, de seu trabalho, de sua vida pessoal, motivo de comentários e preconceitos por todos os lados.

Então, minha vida deu uma enorme reviravolta. Diante da perspectiva de morte, muita coisa mudou: meu casamento acabou, meu trabalho decolou, eu perdi 30 quilos e ganhei muita vitalidade. Minha vaidade retornou. Voltei a usar lentes de contato, a comprar roupas em lojas normais (não plus size), a ser paquerada na rua. Ainda mais, tive a sorte de nascer branca, alta e de olhos azuis e, todos sabemos, a sociedade sorri muito para pessoas que nascem brancas, altas e de olhos azuis – ainda que esse não seja mérito pessoal nenhum.

Agora sim, essa velha senhora só tinha motivos para sorrir para mim, certo? Errado. A sociedade é uma estranha senhora que hoje sorri e amanhã te devora. A sociedade não gosta muito de mulheres solteiras, para começar. Lembra daquele filme ‘Mulher solteira procura’ – procura homem, certo? Se você está solteira, com 100% de certeza está procurando um marido. Se falou com alguém do sexo oposto, certamente tem segundas intenções; se não quer sair com algum deles, está escolhendo demais; se quer sair com vários, está desesperada. Se você argumenta que gosta de estar solteira, não convence.

Além disso, a sociedade não gosta de pessoas que se destacam, por nada. Se você venceu a luta contra a obesidade, você é a prova viva de que é possível fazer isso, e isso incomoda; se você se esforça para ser mais culta e estudiosa, acordando mais cedo para ler mais, por exemplo, isso incomoda; se você viaja sem marido, com filho e cuia, se vira e paga tudo do próprio bolso, isso incomoda. A sociedade gosta do médio, do medíocre. O que destaca, incomoda.

Se eu bebo de madrugada, me chamam de arruaceiro; quando eu bato, quando eu brigo, me chamam de barraqueiro; eu vou fazendo o meu batuque, me chamam de batuqueiro; e se eu tô forte, tô na pilha, já me chamam de parceiro, mas se eu tô numa cilada, não passo de maloqueiro; se eu tô sempre numa esquina, viro logo macumbeiro; quando eu mudo a levada, levo fama de funkeiro”, diz a canção da Ana Carolina. “O povo fala, o povo fala mesmo”.

estranhasenhora 1.jpg Foto de Dulla, para a Revista Superinteressante, Edição 348 – Junho de 2015.

Fica claro para mim, portanto, que há a necessidade de haver tristezas e vazios, porque é disso que essa velha senhora se alimenta, afinal. Pessoas felizes e contentes consigo mesmas não comem demais, não bebem demais, não postam demais nas redes sociais, não compram demais. Se estou feliz com meu corpo, não vou gastar dinheiro em academia, dietas, revistas de dietas, livros de dietas, cirurgias plásticas de redução de medidas. Se estou feliz com meu telefone não vou trocar por outro a cada ano. Se estou feliz com minha vida de solteira, não vou instalar 42 aplicativos de encontros no meu celular, nem frequentar assiduamente bares de solteiros.

E a sociedade vai viver de que? O comércio depende de vazios e carências, assim como revistas, mídias, cinema, redes sociais. “Quanto mais rica for sua vida interior, mais você é estruturado pelos valores não apenas morais, mas culturais e espirituais estáveis e fortes, menos sentirá necessidade de, no sábado à tarde, por os filhos no carro para comprar engenhocas inúteis no supermercado da esquina. Recíproca: quanto mais os valores tradicionais se corroem, mais ficamos dependentes e mais nos tranquilizamos consumindo”, disse o filósofo francês, Luc Ferry no livro “A revolução do amor”.

Do que as pessoas medíocres vão falar se não tiver mais gente gorda, magra, desleixada, vaidosa, alta, baixa, rica, pobre, inteligente, estúpida, solteira, casada, gay, negra, etc, mais como assunto principal nas rodinhas de conversas? Para que isso acontecesse, essas pessoas teriam que encontrar assuntos mais interessantes e o perigo seria enorme para essa velha senhora. Assuntos interessantes abrem mentes e aumentam a autoestima, fortalecem os valores morais, culturais e espirituais.

Assim, conclui-se que a sociedade sempre vai te devorar, seja você quem for. Não há saída. Ou você é devorado por ser gordo, ou por ser feio, ou por ser pobre ou rico demais; talvez por ser bonita demais, inteligente, ou até mesmo por ser ignorante; por ser mulher, por ser gay, por ser homem (sim! Se você nasceu homem, branco e heterossexual já pode ser considerado opressor, ainda que não tenha escolhido isso).

Então, para escapar das garras dessa velha senhora é necessário um autoconhecimento honesto e profundo, pois só assim consegue-se fazer escolhas com base em suas próprias vontades, desejos e valores, mas já sabendo que seja qual for sua escolha, haverá uma onda no sentido contrário fazendo uma força enorme para lhe arrastar junto com ela.

E como disse o Zaratustra, de Nietzsche, "( ... ) se te apetece esforçar, esforça te, se te apetece repousar, repousa, se te apetece fugir, fuja, se te apetece resistir, resista, mas saiba bem o que te apetece, e não recue ante nenhum pretexto, porque o universo se organizará para te dissuadir”.

"E, quem dera, os moradores, e o prefeito e os varredores, e os pintores e os vendedores, as senhoras e os senhores, e os guardas e os inspetores.... Fossem somente crianças", finaliza a canção do Chico Buarque, que inspirou o título desse texto.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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