Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

Sobre como me transformei em pipoca

"Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. (...) A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado" (Rubem Alves).


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No texto anterior que postei aqui, contei um pouco sobre meu encontro com a Dona Morte e como foi para mim o choque da dura constatação da minha mortalidade e finitude. Na verdade, o que não contei no texto anterior, foi que, de fato, eu morri. Naquela ocasião, estava sendo celebrada a minha morte, ainda em vida, e eu nem sabia. A realidade é que a pessoa que eu era até aquele dia morreu e foi necessário nascer de novo, dessa vez, uma nova pessoa.

De vez em quando encontro com pessoas que não me viam há muito tempo e sempre ouço sobre como eu mudei, como estou diferente do que era. Eu sei que, além da questão da aparência física (já que deixei de ser obesa), muito mais coisas mudaram. Eu costumo dizer isso: é que eu tive que morrer para poder viver.

Rubem Alves tem uma crônica bastante conhecida chamada A Pipoca. Eu gosto demais das crônicas de Rubem Alves. Os textos dele até doem de tão bonitos. Quando leio Rubem Alves, sinto-me até um tanto quanto tola por achar que posso escrever alguma coisa. Claro, até posso, mas nunca como Rubem Alves. Suas crônicas são como as sonatas do Beethoven. Se você nunca leu Rubem Alves, leia, urgentemente; hoje, se possível. De preferência, leia em um livro dele, porque há muita coisa atribuída a ele na internet que não são dele.

Essa crônica sobre a pipoca discorre justamente sobre o processo de transformação de um grão duro, pequeno, em algo tão saboroso como a pipoca. “os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer”. Mas, como isso ocorre? Qual o fenômeno que precisa ocorrer para que o milho se transforme em pipoca? O fogo.

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser”.

Tem uma comparação mais incrível do que essa? Ele tem absoluta razão. Eu era milho de pipoca. Minha doença foi o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso, a possibilidade da grande transformação”.

E ele continua: “Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado”.

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Foi exatamente assim que virei pipoca. Foi assim que descobri em mim forças e talentos que não sabia que tinha, que descobri beleza onde eu não conseguia ver, que me descobri leve. Foi assim que descobri que, afinal, eu sempre fui pipoca, mas aquilo estava tão apertado dentro do grão duro, que não havia como se desenvolver.

Mais interessante ainda foi a constatação, também nada fácil, de que a fala mansa, a animação, o amor, o discurso, nada disso é suficiente para fazer com que milhos virem pipocas! Depois do que eu passei, tinha vontade de gritar para todos à minha volta: gente, atenção, vocês são pipocas enrustidas! Não se deixem enganar pela sociedade, pelas aparências, pelas amarras invisíveis que nos são impostas, muitas vezes, por nós mesmos.

Mas parecia que eu estava andando na Avenida Paulista em um desfile de zumbis. Todo mundo andando para frente, meio hipnotizado, à procura de cérebros. E eu lá, pulando como uma pipoca, tentando, sem sucesso, chamar a atenção.

É claro, tente colocar um milho de pipoca em cima da mesa e comece a falar com ele, explicar que ele pode, sim, ser uma flor branca e saborosa, que tudo está dentro dele, basta ele deixar aflorar isso. Nada vai acontecer. Você vai ficar a vida inteira tentando. O milho só vira pipoca sob o calor do fogo. À vezes, por amor, mesmo, achamos que devemos poupar pessoas queridas do fogo. Achamos que podemos fazer com que ela evite qualquer tipo de sofrimento. Achamos que o fato de nós enxergarmos a pipoca que está dentro dela e amarmos essa pipoca é suficiente para que ela também enxergue, ame e aflore. Ledo engano. O fogo é necessário, porque o calor que levará à transformação vem de dentro para fora. A pressão aumenta dentro do milho.

Talvez, a superproteção, que pode vir de pais para filhos, mas ocorre também, muitas vezes, entre adultos, especialmente quando um deles é muito imaturo, seja justamente a privação desse milho de ser exposto ao fogo. Porque, creio que temos dentro de nós possibilidades infinitas de novas pipocas. Às vezes, a vida nos coloca diante de uma fogueira, como foi o caso da minha doença; mas muitas vezes, somos expostos a pequenos calores que já são suficientes e necessários para pequenas transformações.

Essa ideia lembrou-me também de Nietzsche que disse: “A todos aqueles com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doenças, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança, e a desgraça dos derrotados”. Claro, esperamos que o calor não precise ser tão intenso assim para que nossos queridos milhos se tornem pipocas. A dureza das palavras de Nietzsche não precisa ser levada ao pé da letra.

Rubem Alves ainda usa a metáfora do piruá, que são os milhos que não estouram, e que são como aquelas pessoas que, mesmo sob o calor do fogo, recusam-se a mudar. “O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira”. Eu não sabia até ser exposta ao fogo se seria pipoca ou piruá. Hoje, virei pipoca que, segundo ele, “são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira”.

Por fim, lembrei-me de uma crônica de Martha Medeiros em que ela fala sobre quantas vezes nós morremos em vida. “Morte é a antessala da luz. Não a morte definitiva, que encerra o assunto, mas as diversas mortes em vida, os vários falecimentos a que somos submetidos. É preciso morrer bem enquanto se vive”.

Ela fala de mortes de amores, de ilusões, do passado, de crenças, de ciclos. Podemos pensar que cada uma dessas mortes é uma oportunidade para uma nova pipoca. E que cada nova versão de pipoca que nos tornemos seja cada vez mais leve, mais saborosa, mais nutritiva, mais simples, mais cheirosa, e que possa cada vez trazer mais alegrias para mais pessoas.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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