Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos

A urgência da tolerância em época de eleições

Sempre que achamos que somente a nossa ideia é correta, que ela não permite interpretações, e que todos aqueles que discordam dela devem ser ou eliminados ou convertidos, estamos sendo fundamentalistas. O fundamentalismo e a intolerância andam de mãos dadas. É necessário tolerar a existência do diferente, lidar com o afeto negativo e respeitar, em nome de uma melhor convivência em sociedade.


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Certa vez, escrevi um texto que discorria um pouco sobre a arte da convivência e abordei a questão da tolerância. Agora, no atual cenário que vivemos em véspera de eleições tão polêmicas, em um cenário absolutamente polarizado, achei que esse assunto deveria voltar à tona com mais força em nome de mantermos, inclusive, nossa sanidade nos dias que se seguirão. Por que é tão difícil conseguirmos tolerar certas diferenças de gostos e condutas? Por que a gente sente vontade de xingar ou agredir pessoas que apoiam aquele candidato com o qual discordamos em absolutamente tudo? Por que é tão difícil termos tolerância?

De acordo com o professor Clóvis de Barros Filho, a tolerância é uma virtude moral, já que se baseia em nossa capacidade de lidar com o ódio. Talvez aí esteja uma das chaves da nossa dificuldade, já que a moral depende de uma avaliação racional, de um pensamento complexo e elaborado.

O filósofo holandês, Baruch Spinoza, tinha uma definição de amor que eu gosto muito — a minha preferida, em toda a filosofia. Para Spinoza, temos uma potência, uma energia vital, que oscila durante todos os momentos do dia. Há coisas que aumentam nossa potência, nos tornam seres mais energéticos, gerando o que ele classificou como alegria. Quando sentimos alegria, ou seja, aumento de potência, e conhecemos a causa dessa alegria nós sentimos amor. Então, para Spinoza, amor é o aumento de potência associado a uma causa.

O ódio é o contrário: queda de potência associada a uma causa conhecida. Então, se identifico algo que tem capacidade de reduzir minha potência de agir, de reduzir minha alegria, sinto ódio por essa coisa.

É importante ficar claro que esses afetos citados por Spinoza não dependem da nossa vontade, não podem ser controlados pela nossa razão. O aumento e a diminuição da potência são manifestações de nosso corpo e não temos como evitar isso. Isso significa que possivelmente você vai sentir um bolo no estômago toda vez que vir um amigo defendendo o abominável candidato que você odeia. Sua potência vai baixar, independentemente da sua vontade.

No entanto, temos controle sobre as nossas ações, ou seja, sobre o que vamos fazer diante desses afetos todos. Sentir um bolo no estômago ao ver o sorriso da criatura em questão na sua timeline do Facebook independe da sua vontade, mas xingar a pessoa que postou, não. Você pode escolher não xingar e agredir, apesar de sentir raiva.

Dessa maneira, a tolerância é justamente a capacidade que temos de lidar com o ódio, de aceitar a existência de pessoas/gostos/condutas que sabidamente reduzem nossa potência, que nos geram desconforto, que reduzem nossa alegria. Por isso, a tolerância é uma virtude moral.

É necessário que nós ativamente lidemos com o ódio, com o desagrado que condutas e gostos muito diferentes daqueles que nos geram alegria provocam em nós e que aceitemos com respeito a existência dessas condutas e gostos. Obviamente, não seremos capazes de admirar pessoas que nos geram esse tipo de desconforto. Dessa forma, tenderemos a buscar a convivência mais próxima com aqueles com quem temos mais afinidade, ou seja, aqueles que têm gostos e condutas semelhantes aos nossos.

Por exemplo, nesse cenário caótico que vivemos, senti uma necessidade de pesquisar amplamente como pensam as pessoas que discordam tão radicalmente de mim em diversos quesitos. Assim, tentei colocar de lado um pouco os meus valores e tentar entender quais eram os valores dessas pessoas apoiadoras do candidato que eu abomino com todas as minhas vísceras.

Afinal, muitas dessas pessoas são cidadãos honestos e do bem, inteligentes e trabalhadores. Pessoas da minha família e do círculo de amizades intimas. Ao invés de pensar: como pode Fulano apoiar esse ser desprezível? Tentei entender o que move essas pessoas? Quais seus medos, anseios, valores, crenças?

Isso fez com que eu mudasse de lado? Obviamente, não. Mas fez com que percebesse que não adiantaria nada argumentar com essas pessoas, pois seus valores, medos, sentimentos, anseios são outros e não há argumentação racional que mude isso. O buraco é mais embaixo e temos que aprender, acima de tudo, a lidar com nossas emoções, inseguranças, incoerências, medos e anseios.

O psicólogo social americano, Jonathan Haidt explica muitas coisas sobre essa polarização moral, muito presente nos Estados Unidos. Ele explica que nossas decisões políticas, por exemplo, são tomadas de uma forma intuitiva, por mecanismos cerebrais que não controlamos de forma racional, e que usamos a razão quase que somente para justificar nossa decisão já tomada.

Assim, não é que eu avalio racionalmente o candidato “x” e, depois, me decido por ele ou não. Na realidade, decido de uma forma intuitiva baseada em valores muito arraigados, medos, inseguranças, emoções qual candidato me agrada e utilizo os argumentos racionais para apoiar minhas decisões.

Dessa forma, percebi que podemos aprender muito com um cenário de polarização política e com o exercício da tolerância. Aprendemos sobre nós e sobre os outros. Podemos desenvolver mecanismos de tolerância e de moral. Esse exercício, por exemplo, deixou claro para mim quais são alguns dos valores dos quais não abro mão em hipótese alguma. Assim, quando se trata de escolher pessoas com determinados valores para cargos importantes na minha vida — seja como presidente do meu país, seja para dividir a vida comigo ou uma sociedade comercial, por exemplo — não abro mão desses valores sob nenhuma hipótese.

No entanto, a vida em sociedade exige que a gente conviva com todo tipo de pessoas. Dessa forma, é extremamente necessário que se exercite a tolerância, que as pessoas consigam compreender que, apesar de determinados gostos e condutas baixarem sua potência, é preciso lidar com esse afeto negativo e respeitar a existência de pessoas que são diferentes de você, evitando ter comportamentos fundamentalistas.

Sempre que achamos que somente a nossa ideia é correta, que ela não permite interpretações, e que todos aqueles que discordam dela devem ser ou eliminados ou convertidos, estamos sendo fundamentalistas. O fundamentalismo e a intolerância andam de mãos dadas. É necessário tolerar a existência do diferente, lidar com o afeto negativo e respeitar, em nome de uma melhor convivência em sociedade.

Assim, fica claro que a convivência em sociedade não é tarefa fácil. Temos que estar sempre pensando, avaliando, ponderando, lidando com nossas oscilações de afeto. Também fica claro que a ética presume uma grande participação da razão, do pensamento crítico, da capacidade de fazer ponderações complexas, da capacidade de exercermos o nosso lado humano, ponderando nossos afetos para que a convivência não se torne uma guerra de todos contra todos, mas, ao mesmo tempo, sempre trabalhando em nome de defendermos dentro dessa convivência as nossas bandeiras, os nossos valores, as nossas verdades.


Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.
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