Cecília Borges

Quando deseducar é a solução

“Libertè, fraternitè e igualitè” foram os princípios da Revolução Francesa. Hoje, se tivesse vivo, Napoleão certamente ficaria arrasado ao ver que toda sua luta não foi completamente alcançada. Analisando os acontecimentos, pode-se dizer que os princípios que carecem em 2016, ainda são os mesmo que faltavam há 227 anos atrás.


imagem texto deseducar.jpgIlustração feita por @tailorgrrrl

Crescemos em uma sociedade arraigada de preconceitos, julgamentos e discursos firmados há décadas atrás que continuamos repetindo sem crivo algum. Pais que pagam puteiro pro filho adolescente porque ele “tem que virar homem logo”, mulheres que se afirmam independentes, mas “primeiro encontro o homem que paga”. São só alguns dos pensamentos que já estão muito fincados no nosso inconsciente, e diversas vezes o discurso “cool” e politicamente correto se contradiz com as atitudes.

Assassinato de homossexuais em Orlando, uma das maiores crises humanitárias na Síria tendo em sua origem questões religiosas, estupro coletivo no Rio... Diversos são os exemplos de casos em que a força de uma sociedade de valores completamente distorcidos levou a consequências extremas. Não se respeita mulheres, não se respeita opção sexual, não se respeita a religião alheia. Fica claro o diagnóstico de uma cultura que não pensa no coletivo, e enquanto isso existir, se proliferam as frases como “nada contra os gays, desde que não seja filho”. Enxergar o outro de perto, com todas as suas fraquezas e sentimentos, parece tarefa rara nos dias de hoje.

imagem 2.pngIlustração feita por @tailorgrrrl

Muitas vezes, esse raciocínio vem à tona de forma inconsciente. A repressão ao olhar uma mulher com roupa curta, o aperto de passo naquela rua a noite apenas com um homem negro, são pequenos sintomas já caracterizados como “naturais” nessa sociedade cheia de falhas. Não é que tem que se libertar das suas intuições, perigo existe em qualquer lugar do mundo e temer certos lugares e pessoas é inevitável. No entanto, também tem que se refletir sobre esses medos e não tomar a opinião geral como absoluta. Falar que é contra algo, mas ficar interessado em ver aquele vídeo compartilhado nas redes sociais, também é uma forma de proliferar essa visão errônea. Temos é que ponderar mais oque lemos, oque ouvimos e o que vamos tomar para nós como ponto de vista.

Já estamos na luta para disseminar esses princípios há anos, e a ferramenta para solucionar sempre foi vista como a educação, porém oque precisamos é deseducar. Deseducar os homens que desde criança são ensinados a terem autonomia sobre as mulheres, deseducar a Igreja que doutrina todos a acharem que apenas uma religião é a “certa”, deseducar os héteros que ouviram em sua adolescência que gostar do que não é oposto é errado. Enquanto continuarmos repetindo os mesmos atos, a situação só tende a piorar. E se piorar, bom, já nem sei se dá pra piorar.


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