Gica Polina

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A cultura, a educação e o espaço de cada uma

Cultura e educação são pilares indissociáveis de uma sociedade? Sim, são. Mas o que se aplica para a educação não se aplica para arte e vice-versa.
Se educar, no sentido tradicional, pressupõe estabelecer um conjunto de valores e construir saberes, educar para arte pressupõe ler uma obra artística (e eventualmente produzi-la) justamente para desconstruir valores e questionar lugares-comuns. Então, o que garante que uma junção entre as duas searas não vá contribuir negativamente para a produção da arte? Eis o que quero discutir com vocês.


Há um pensamento reducionista em relação a cultura e educação poderem pertencer ao mesmo barco (ou Ministério) e essa possibilidade carrega consigo vários perigos. A educação, como é praticada, é uma ferramenta de engendramento poderosa que garante que os saberes mais relevantes da humanidade sejam passados de geração em geração. E a cultura, por sua vez, abarca hábitos, tradições, valores e os reinventa inserido a manifestação humana num imbricado mecanismo de produção de sentido a partir das novas concepções de sociedade. Dessa forma, a arte permite a possibilidade de questionar todos os valores, hábitos, tradições, e atualizá-los frente às modificações no pensamento da sociedade. Através da produção artística e do acesso a elas, o ser humano pode se reconstruir, se descobrir e ser livre em sua forma de pensar. Assim, limitar o acesso à arte, como já ocorre naturalmente, restringindo eventos sociais muitas vezes devido a regiões prestigiadas, ou condicioná-lo a um objetivo ideológico, como projetam algumas pautas reacionárias em relação ao currículo escolar, atende apenas a modelos imperialistas de dominação e cerceamento social. E, de mesmo modo, funciona como ferramenta para reiterar sistemas hegemônicos, quando monopoliza a produção e o acesso à arte, por exemplo, e consequentemente, as escolhas ideológicas que as embasam (leia-se financiar galerias, filmes, distribuição de filmes, livros, não propagar a educação para a arte, excluir determinadas matérias do conteúdo escolar, proibir determinados conteúdos culturais, como os que abarcam as matrizes africanas etc). Todas essas iniciativas servem ao mesmo propósito: enfraquecer as mentes e torná-las dirigíveis, sem ideias próprias.

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Há um complexo jogo político que se constrói quando se reduz a autonomia da educação e a liberdade e transgressão da arte. Vemos historicamente a ideologia e a censura transbordarem para a educação no sentido de restringirem o que é discutido e veiculado para os alunos de qualquer nível de escolaridade, vide o projeto imperialista de Hitler difundido por meio das telas do cinema e produzido exatamente para defender sua ideologia fascista. Logo, preciso (precisamos todos) frisar que NENHUMA tentativa de restringir assuntos e temas pode ser considerada DEMOCRÁTICA, independente de valor que se manifeste por trás da "boa" intenção do ato. Mestres como Paulo Freire (antes de criticar, leia!) falam muito da libertação através da educação, o que trás um sentido mais aproximado da concepção de arte que estou aqui defendendo e que não é minha, lógico, mas que faz muito sentido quando pensamos em arte como expressão humana sobre o estar no mundo. O mercado cultural já opera uma verdadeira "pedagogia audiovisual" (vide Robert stam) para ratificar objetivos políticos e ideológicos, então, cercear a liberdade do professor ou a propagação de conteúdos ligados à arte e identidade brasileira é uma afronta aos estudos da pedagogia mais atuais.

Quando se opera um "golpe à educação", é instintivo que estéticas alternativas sejam criadas e floresçam na tentativa de encontrarem escapatória para a censura que se faz sentir em medidas de aparência inofensiva. No entanto, não há como desmembrar a produção artística da cultura e, a cultura de sua identidade. Sendo assim, a arte produz, inexoravelmente, uma identidade cultural. Logo, ter a censura dominando a educação e a arte é problemático, pois a arte institucionalizada não difere o que é produção e o que é reprodução, desse modo, não se pode mais pensar uma arte autônoma e livre voltada para suas ambições transgressoras.

A arte como resistência já se depara com os impedimentos mercadológicos, imaginem se não pudermos falar da matriz africana, num claro racismo via escolha curricular? E se não pudermos falar de machismo e feminismo, numa clara defesa do sistema patriarcal que ainda vigora? E se não pudermos falar de sexualidade, em que espaço ensinaremos o respeito e a tolerância? E se não houver mais educação para a arte, como o humano condicionado e engendrado em regras rigorosas vai extravasar suas emoções e se expressar? Simplesmente, NÃO HÁ DEFESA POSSÍVEL PARA A CENSURA CURRICULAR NAS ESCOLAS E AMBIENTES EDUCACIONAIS. Eis uma luta que não pode esmorecer.


Gica Polina

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