Gica Polina

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Como lidar com discursos de ódio

Na contra-mão de toda a visibilidade que setores "minoritários" estão recebendo na última década (?), as visões abertamente intolerantes se disseminam feito erva daninha nas sociedades em geral. Possivelmente, como consequência do espaço que cada luta está conquistando.
Mas há um grave problema nessa banalização do ódio por tudo e todos que são ou que pensam diferente de nós. Aqui vão alguns mecanismos de que eu me valho para conseguir lidar com os discursos de ódio.


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Eu cresci com a frase proferida por meu pai: "Brigam as pessoas e não as ideias". Foi assim que aprendi. E eu culpo a educação por ter falhado na missão de propagar a igualdade de condições. E a educação dos educadores também que precisam disseminar mensagens criticamente e não apenas repetir conteúdos. Como se não bastasse o pensamento incongruente de grupos que se sentem "prejudicados" ao verem seus privilégios históricos serem diminuídos ou questionados, há uma espécie de verborragia de ódio que se espalha como bactéria entre as pessoas que poderíamos achar que eram "de bem" até abrirem a boca. E é muito difícil lidar com a irredutibilidade das suas visões parciais e pouco afeitas ao diálogo com aqueles que, rotulados, não passam de uma massaroca reduzida a acéfalos diante do seu "saber" empírico. Afinal, que argumento pode ser mais forte que o saber da experiência, de viver e sentir na pele a amargura de ver tudo o que o indivíduo acreditou ser pisoteado de uma hora para outra? Todas as lutas recebem críticas duras, geralmente direcionadas para os emissores em vez de para os argumentos. É uma tática fraca, infantil e reiterada pelos educadores mais antigos até hoje. Quem nunca presenciou uma professora de educação infantil ou uma "dinda" chamar a criança pequena de "feia" por não obedecer em vez de explicar que é necessário respeitar os amigos, as pessoas? Porém, dá muito mais trabalho, não é? E o professor está frequentemente apressado e sobrecarregado pelas inúmeras tarefas e pelo quantitativo de alunos, ou seja, não vale a pena perder tempo. E, como consequência, a criança contrariada reproduz o "bobo, feio, mal" com os colegas quando contrariada. O hábito pode, facilmente, ficar lá no âmago da nossa capacidade de argumentar, quer dizer, de não-argumentar e sim, depreciar o falante achando que assim diminui o argumento. Ingenuidade. Então, não caia na armadilha de tentar difamar/xingar/depreciar o hater. Esse é um jogo dele para tentar tirar do sério a pessoa que possui argumentos.

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Mas, não culpemos exclusivamente a criação infantil. Daremos a César o que é de César. Há culpados diretos: são instituições religiosas, coletivos, partidos políticos, entidades etc. Esses grupos manifestam posicionamentos claros contra outros grupos ou pessoas e, desse modo, reforçam discursos discriminatórios que incitam a violência. E é extremamente difícil estabelecer qualquer diálogo com quem pensa de maneira enviesada. Portanto, decidi organizar os meus mecanismos pessoais para lidar com as alfinetadas dos haters, por isso, este artigo poderia muito bem se chamar "Como eu lido com os discursos de ódio".

Primeiro ponto: É preciso paciência para falar com essas pessoas. E quando falo paciência, também quero dizer carinho, e até amor. Um colega professor, com raiva de beijo gay em novela, xingava a emissora pelo aumento do número de homossexuais. Eu, pacientemente, respirei pensando: "desliga a TV, queridão!", mas, no lugar de criticar o raciocínio do colega de trabalho, respondi: "olha, acho que os gays existem desde sempre, antes de haver televisão nem nada! Talvez, os homossexuais só estejam com mais coragem de se mostrarem por causa da visibilidade da Tv, não acha não?" Ele concordou mas argumentou que se incomodava com caras se beijando. Eu, novamente respirando o ar da minha vocação de professora, ponderei: "mas, imagina, professor, como deve ser doloroso você não poder tocar sua esposa na rua, não poder andar abraçado com ela? Essas pessoas que viveram se escondendo durante anos, que não podiam amar, pegar na mão por correrem risco de vida, imagina como eles devem estar felizes agora que a sociedade está mudando!". E pasmem, ele ficou manso, começou a conversar com calma, e falou: "deve ser muito sofrimento". Para mim, aquela conclusão ter sido proferida por ele foi um microdegrau na minha missão de estimular a empatia em um professor que é disseminador de conhecimento. Exige serenidade, exige ouvir para depois falar. Sabem por quê? Porque quem se desespera, grita e descabela não consegue conversar e perde a argumentação por w.o.: ausência no debate. Segundo ponto: É preciso ter contato com o que difere de nós para viver em sociedade. O diferente nos faz crescer pois exige de nós compreensão, sensibilidade e tolerância. Faz parte da educação social estimular o convívio com o outro. Caetano contou sua própria vivência em São Paulo na canção "Sampa", ao estranhá-la e aprender a apreciá-la: "Narciso acha feio o que não é espelho". Apenas vivendo lá, ainda que a criticasse, o artista começou a entender a cidade e a gostar dela. Da mesma forma, precisamos aproximar os indivíduos diferentes pela estratégia da empatia. E este deve ser um convívio harmonioso ou, ao invés de estimular a quebra das barreiras, contribuirá para aumentá-las com traumas gerados pelo convívio ruim. Desse modo, o trauma vira uma generalização e a generalização, um estereótipo. Causo: Os moradores de um prédio não tinham síndico. Anos após nomearem o primeiro, descobriram que tinham sido roubados por ele, ao fazer seu caixa dois pessoal. O segundo, por azar, deu continuidade à fraude. Ao descobrirem as fraudes consecutivas, concluíram que estavam melhores sem síndicos porque síndicos sempre roubavam. Eis uma generalização. Mas, como desconstruir aquela visão de que síndicos roubavam se a experiência comprovava o oposto? Como dizer que tiveram azar duas vezes e que havia inúmeros síndicos honestos e transparentes? Bom, isso ocorreu naturalmente. Segundo soube, quando tiveram um problema com uma obra, uma moradora tomou a frente na solução do problema e relatou sobre o aconselhamento de um amigo que era síndico. A solução aplicada, a senhora que a sugeriu, por inspirar respeito, recebeu sem pedir a autoridade de síndica do prédio, embora recuse a definição até hoje (a titulo de informação, estão passando bem com uma organização pseudo-horizontal). O trauma, nesse caso, se rompeu com a confiança na mulher que já conheciam. O ser humano costuma se acovardar diante do desconhecido. A covardia pode se materializar em bullying, discurso de ódio e -fobias, portanto, precisamos estimular a aproximação entre os diferentes e os estereotipados a fim de diluir as atitudes generalistas da sociedade em geral.

Terceiro ponto: É preciso educar para a diferença. Adultos e crianças. O pensamento educacional mudou, o que considero positivo. Mas com isso, vemos modificações também por parte dos pais e responsáveis na criação dos filhos. Observo atitudes de permissividades com crianças e adolescente que vão desde a não atribuição de tarefas domésticas, até a não punição de comportamentos assustadoramente equivocados. Não refletir sobre esse fato é tapar o sol com a peneira da ignorância, mas o problema ainda estará lá mesmo que a gente prefira não olhar. Eu vivi um caso bastante simbólico dessa condição de pais permissivos. Um aluno meu deixou de entregar trabalhos nas datas correspondentes e acabou com nota bastante aquém das solicitadas pela escola, ficando para o período de aulas e provas de recuperação, já muito avançado mo mês de dezembro. Os pais solicitaram uma reunião comigo para falar sobre o ocorrido e pediram para eu aceitar os trabalhos em prazo extraordinário. Eu respondi calmamente que não poderia pois faz parte do aprendizado do aluno o desenvolvimento da responsabilidade e que, além disso, seria injusto com os demais alunos na mesma situação. A mãe explicou que a família estava com viagem marcada e que ele perderia a prova de recuperação e repetiria de ano por minha causa. Bom, diante disso, mantive minha defesa, mas fui consultar a direção que mediou o conflito pedindo que eu antecipasse a prova de recuperação do rapaz. Acatei, claro. Mas fiquei com a certeza de que, com a cumplicidade dos pais para burlar o sistema, o menino entenderia que os sistemas devem favorecê-lo, se adaptando à sua necessidade. No caso, todos os alunos conheciam as datas e receberam as indicações do que deveria ser feito ao mesmo tempo. O que a família solicitava era a fatia mais macia do bolo na maior cara-de-pau. Assim, enxerguei que o maior erro veio dos pais ao reiterarem a mensagem do privilégio - ainda por cima, culpando a professora pelo resultado da irresponsabilidade do aluno. Educação vem da escola, sim, no que diz respeito ao cumprimento de regras e ao ensinamento de sistemas, e são vários os sistemas possíveis, mas há que se ter o espírito de coletividade e da igualdade de direitos e deveres aplicado a cada um desses sistemas para se inibir a ideia de que alguém pode ter privilégios sobre outros, recebendo tratamento especial. A educação, da escola e de casa, precisa falar de intolerância para combatê-la, assim como precisa falar de história, matemática ou ciências etc.

Bom, ter paciência para explicar tim-tim por tim-tim, estimular o convívio com o outro e educar sobre as diferenças são caminhos relativamente simples para lidarmos com pessoas minimante abertas a ouvir. Não suponho que eles resolvam o problema por completo, entretanto, de uma forma bem altruísta, é um modesto passo individual que eu sei que sou capaz de dar no sentido de encontrar uma sociedade menos desprezível e indiferente num futuro próximo.

Se você tiver outras sugestões de como lidar com o ódio e com os haters, contribua nos comentários!


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