Gica Polina

Um espaço para por ideias no lugar certo: no mundo.

SIMONE NA CABECEIRA

Entendendo porque alguns discursos possuem uma tendência a diminuir as mulheres a partir da história de Simone de Beauvoir.


Simone_de_Beauvoir_.jpg

Conhecer a história nos habilita a avaliar o presente com mais propriedade e respeitar gênios que mudaram o curso dos acontecimentos de maneira positiva. No caso da história do feminismo, leitura imprescindível para todxs é Madame Beauvoir, embora muitos ainda não apreciem o seu valor.

Na França de 1789, a pauta das mulheres francesas reivindicava direitos políticos, alistamento militar, o direito de participar ativamente da vida pública do país, do mercado de trabalho, de acessar a educação e das representações políticas. Era o começo da batalha histórica da igualdade de condições entre os gêneros, muito antes do surgimento dos debates acerca dos conceitos de gênero, identidade e opressão que pululam nos debates contemporâneos. Portanto, foi lá pela década de 60 que as palavras “autoritarismo” e “colonialismo” vieram à baila e as relações de poder foram problematizadas pelos movimentos sociais europeus e americano. Novas configurações do espaço político e cultural na sociedade ocidental ganharam mais pontos na pauta da militância feminista, o que possibilitou transformar a construção das identidades e, como consequência, as questões de gênero anos mais tarde.

No contexto francês, Simone de Beauvoir já havia inserido no ambiente urbano discussões sobre o papel social da mulher, com a publicação de O Segundo Sexo, de 1949. O texto é um marco para a história do feminismo ocidental com a propagação do questionamento do papel reservado à mulher na sociedade (necessariamente esposa, procriadora, dona-de-casa, não-erudita) e a liberdade a que ela tem direito ao escolher não casar, por exemplo, ou não ter filhos, se assim quiser. Sobretudo, há a defesa de que as escolhas tradicionais não são as únicas formas de realização feminina. Além disso, Beauvoir defendeu a unificação das mulheres, proclamando sua coesão a fim de que pudessem buscar coletivamente as mudanças sociais que as beneficiasse em vez de contribuírem para a manutenção da ordem predominante que as depreciava ou as subjugava à vontade do homem. Acredite, para a época, isso era muito avant-garde. Para tal, ela acreditava que o papel subalterno da mulher nada mais era que uma construção social e que precisava ser problematizada. Ou seja, a mulher era genial – Simone, no caso! E, através da sua escrita bastante autorreferenciada e autobiográfica, narrou, para choque de tantos, a relação fora dos padrões da época – e da época atual também! – estabelecida com o filósofo e amigo Jean-Paul Sartre.

Somente a partir da década de setenta haveria a ideia de um feminismo engajado, o qual, em parte, se deve ao pensamento teórico tecido por Beauvoir anos antes. Ela defendia uma linguagem neutra em lugar do padrão masculino para neutralidade, (o x que hoje usamos na web em “carxs amigxs”!) mostrando que o neutro social é definido, tanto quanto o é o artigo A demarcador de feminino. O gênero masculino, demarcado na linguagem, ainda hoje, é genericamente utilizado dos meios acadêmicos à grande mídia. Um atraso!

Com o texto, Simone de Beauvoir sofreu (e sofre!) críticas severas (e injustas!) que colocam em xeque sua vida pessoal e suas escolhas para desvalorizar suas palavras. Eis uma tática corriqueira contra o feminino, um modo de depreciar o gênero e a sexualidade da mulher em detrimento dos argumentos. A mensagem subjacente é a que sendo intelectual, a mulher deve ser impecável em seus papéis sociais tradicionais, antes mesmo que lhe seja dado o direito à fala. Sim, pois é um homem que concede a elas o direito de se expressarem. Era Sartre esse homem, no caso da Castor (como ele a chamava carinhosamente). A relação com Sartre fez Simone ser respeitada como erudita, mesmo que, por vezes, a contribuição filosófica dos dois ande de mãos-dadas. Não à toa, como trabalhadoras, comumente as mulheres se imputam altas cobranças para não terem “falhas”, a ponto de serem relacionadas ao adjetivo de ambiciosas, em geral, com comentários que fingem estimular, mas que, nós sabemos, depreciam o lugar que as mulheres “querem ocupar”, sob um viés claramente gendrado. A competição, e a ambição até, seriam um comportamento muito bruto para as fêmeas contemporâneas. Mas na visão de quem? É explicável tal comportamento, já que decorre das pressões que o sistema hegemônico, leia-se branco, machista, elitizado e heteronormativo, obriga as mulheres – e qualquer outro grupo oprimido pelo mesmo sistema – a experimentarem, de modo a constantemente terem de provar que são capazes, autônomas, independentes, e por que não?, brilhantes, pioneiras, geniais.

A vida de Simone pode até ter suas contradições – ela não poderia ser santificada e, pelo contrário, não foi o que desejou – no entanto, verdade seja dita, ela antecipou várias das problemáticas femininas para nós. Simone é vanguarda e merece mais estudos, afinal, quer queira, quer não, tem sua memória apedrejada por muitos discursos retrógrados até hoje, ou seja, ela venceu ao tempo. E mesmo assim, ainda estamos atrasadxs nos seus ensinamentos. Quem não aprende com o passado, está destinado a repeti-lo. É ou não é?


Gica Polina

Um espaço para por ideias no lugar certo: no mundo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Gica Polina