allan samsa

Libriano, poeta, escritor, músico e redator. Atualmente está aprimorando sua pequenez.

Allan Samsa

Libriano, poeta, escritor, músico e redator. Atualmente está aprimorando sua pequenez.

Livro é livro e filme é filme

Considerações antes de julgar um filme pelo livro.


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Um fenômeno cada vez mais comum na indústria cinematográfica é o de adaptar livros para as grandes telonas. Isso, claro, não é de agora. Basta lembrar de O Poderoso Chefão (baseado no livro homônimo escrito por Mario Puzo), Trainspotting: Sem Limites (Construído a partir do livro de Irvine Welsh), A Lista de Schindler (Inspirado na obra de Steven Zaillian), O Iluminado (Obra original de Stephen King), Blade Runner (Inspirado no livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Phillip K. Dick), Um Sonho de Liberdade (Baseado no romance Rita Hayworth and Shawshank Redemption, de Stephen King) e por aí vai. Esses são apenas alguns exemplos entre centenas que podemos citar.

É bastante comum reclamações de leitores que vão as salas de cinemas para assistir ao filme do seu livro preferido e depois inundam redes sociais, rodas de conversa, mesa de jantar, enfim, onde ele pode com reclamações colocando o livro como “muito melhor” e que “o filme não chegou nem perto de ter o brilhantismo do livro” e blá blá blá. Estão errados? Não! Na maioria das vezes há argumentos válidos nessa avaliação, porém deixe-me falar um pouco sobre o termo especificidade do meio.

Especificidade do meio supõe que cada forma de arte apresenta normas e possibilidades de expressão bastante particulares. Em termos de cinema pode ser abordada (a) Tecnologicamente: Dispositivos necessários para sua produção. (b) Linguisticamente: “Materiais de expressão” do cinema. (c) Historicamente: Em termos de suas origens (No caso do cinema, os dioramas, câmeras e cinescópios, por exemplo). E ainda, a literatura desenvolve-se já por séculos enquanto que historicamente o cinema tem pouco mais de um século. (d) Institucionalmente: Processo de produção. O cinema é coletivo e o cineasta, geralmente, trabalha com fotógrafos, diretores de arte, atores, técnicos e etc. Livros são individuais, escritores, geralmente, trabalham sozinhos. (e) Processos de recepção: Leitor individual x Espectadores juntos na sala de cinema e acredite: isso faz diferença na percepção da obra.

Ainda, um fato que deve ser considerado é que livros possuem personagens e filmes possuem personagens e intérpretes, algo bem diferente. Imagine um personagem de livro lá em seu estado puro e que você ama de paixão. Pois bem, ao fazer um filme ele vai ser interpretado por um ator ou uma atriz, ou seja, chegamos ao primeiro ponto de possíveis rupturas com essa entidade santa que você ama, porque vai que o ator/atriz não entende bem o que você considera a essência do personagem, ou simplesmente entende de outra forma? Ah mas tem o autor lá pra dizer! Sim, mas não deixa de ser uma interpretação pro bem ou pro mal. Sem falar que tem atores que melhoram os personagens originais em alguns aspectos, por isso que se diz que tem cena que é do ator e não do escritor/roteirista porque ele amplia o personagem. E se o filme for dublado ainda temos que considerar o profissional que faz a dublagem, se ele conseguiu passar as emoções que a trama original tem na língua em que ela foi gravada. Enfim, uma barra.

Outra coisa a ser levada em conta: Roteiro. Na cabeça do leitor, alguns acontecimentos são plausíveis e muito claros porque ele tem acesso, através da narrativa literária, a fatos que não são mostrados, mas ditos e a palavra resolve, como no caso de pensamentos de personagens. No roteiro cinematográfico é um pouco mais embaixo pelo fato de que no cinema tudo é muito visual: Eu não digo o que acontece, eu mostro! Isso torna algumas adaptações mais complicadas e o roteirista tem que se virar e encontrar soluções para passar ao espectador do filme algo que se passa na cabeça do personagem. E têm livros que são inteiramente assim, todo psicológico e no caso de uma adaptação, o cinema tem que dá a visualidade necessária para contar uma história nesse meio específico. É possível? Sim, claro, óbvio, mas não deixa de ser um desafio.

Enfim, longe do falatório cult-bacaninha de endeusar livros – ser superior que ler e não apenas fica vendo esses filmes pra seres inferiores – ou dos fãs - NO LIVRO NÃO É ASSIM! – essa relação livro/filme é feita de erros e acertos.

Espero que esse texto tenha facilitado no entendimento dessa relação e derrube um pouco do fanatismo “LivroxFilme”, pois ambos estão no mesmo time: o da criação humana, o da arte.


Allan Samsa

Libriano, poeta, escritor, músico e redator. Atualmente está aprimorando sua pequenez..
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