alteridade

Um atributo do ser na multiplicidade das ideias.

Samantha de Freitas

se o caminho mais fácil nem sempre é o melhor, eu quero aquele que valha a pena.

A violência nas entrelinhas da liberdade de expressão

"Em nosso país, temos essas três indescritíveis coisas preciosas: a liberdade de expressão, a liberdade de consciência e prudência de nunca praticar nenhuma delas." Mark Twain


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Vivemos em uma época não muito fácil para o Brasil. Todos os dias somos "convidados" a relembrar as mazelas sociais que temos vivido há decadas. Mazelas essas, que sempre existiram e que agora, mais evidentes e destacadas aos nossos olhos - muitas vezes em nossa pele também, instiga no inconsciente coletivo o desejo pela vingança malbaratado de "segurança nacional". Diante disso, várias personalidades do mundo político (de deputados a presidentes) cientes desse cenário, assumem posturas que satisfazem a esse incômodo social e desenvolvem metodologias de alcance político que instigam ainda mais o sangue nos olhos daqueles que só desejam uma única oportunidade de abrir a boca pra ratificar direitos autoritários criadores de bolhas sociais.

Meu objetivo aqui não é defender sistemas partidários. É apenas levantar questões sobre valores morais que ainda nos faltam, e que são necessários para uma harmoniosa convivência minimamente democrática. Ao contrário do que muitos pensam, o nosso gênero de sobrevivência, o homo sapiens só chegou até aqui porque soube trabalhar em conjunto. Comparados às outras espécies de homos, nós não éramos nada e a extinção seria certa se tivéssemos alimentado a intolerância e violência dentro do próprio clã. Você pode até questionar que o homem pré-histórico só pensava em satisfazer seus desejos (fome, sono e reprodução) e não direi que é mentira! Mas, considerando que o referencial de vida da época era garantir a sobrevivência, saber trabalhar em grupo respeitando o espaço do outro e colaborando projetos de caça, por exemplo, eram habilidades essenciais.

Ao meu ver, parece que não nos distanciamos muito. Nosso cérebro cresceu e desenvolveu, fabricou tecnologias primordiais à qualidade e aumento da expectativa de vida. Entretanto, nossos valores morais parecem estar estagnados e isso não faz a menor importância na vida de muitos. Temos comida de sobra à mesa e agora que estamos fartos, vamos em busca de conquistas que nos deem mais prazer e troféus para esbaldar numa sociedade líquida. Desse modo, se ansiamos pelo desenvolvimento do Brasil, seja como potência econômica ou como sociedade mais igualitária, temos que entender de onde vem esse desenvolver. Partido nenhum, presidente nenhum, deputado ou governador são capazes de proporcionar alicerces à desenvoltura individual. Eles representam um reflexo daquilo que somos em parte e que no momento da escolha do voto, ansiamos por alguém que nos represente, ou seja: Que seus valores morais estejam minimamente de acordo com os nossos.

Nesse sentido, não vou elencar muito menos abordar as opções que temos para esse ano. Porém, há algum tempo venho acompanhando esse verdadeiro toma-la-da-cá de opiniões políticas, de pessoas que defendem um lado X e não podem ver a postagem de outro do lado Y que sai manifestando o seu "Deus me livre" ou "não dá mais" ou qualquer outra afirmação que cutuque e incomode o lado vizinho. Então, o lado vizinho se irrita e responde com bem menos elegância do que se espera. Só que um tempinho depois, não achando pouco, o lado vizinho posta ou comenta algo que cutuque o antigo ofensor. Aí eu te pergunto: Quem está certo? Qual deles demonstrou maturidade política para entender que não se trata de vencedor ou perdedor, mas sim de atitudes coletivas que fazem a diferença?

Se eu questionasse os dois separadamente, garanto que dariam quase a mesma resposta: eu estou certo porque estou no meu direito de liberdade de expressão! Mas aí eu te relembro de algo que deve ter esquecido e que é ensinado no primário das escolas: antes do seu direito existe o dever de respeitar a decisão, o voto e a opinião do outro e se caso não te agradar, não seja inconveniente de despertar o pior dele por algo tão pequeno quanto a sua preferência política. Porque grande mesmo são as nossas atitudes e elas são tão políticas quanto quem está em cima do palanque.

Portanto, quero ressaltar que a liberdade de expressão é de fato um direito inerente a todos os seres humanos, mas que ela não se sobrepõe à dignidade do outro. A sua manifestação política não deve ser feita para reprimir um lado, até porque sob o meu ponto de vista temos vários e geralmente eles não se encontram nas extremidades desse dipolo social que vivemos. Não se esqueçam que a violência também está presente em discursos inflados, bem-vestidos e bem posicionados na hierarquia social. Geralmente ela sabe se camuflar bem entre as bordas das intenções, mas surge à tona quando é confrontada de frente. A verdadeira face aparece quando a máscara cai na ruptura do Ego e hoje podemos ser os beneficiados desse sistema que escolhemos no calor das circunstâncias, mas amanhã poderemos ser nós os diminuídos. Afinal, o mundo dá voltas e a impermanência da vida sempre nos relembra o nosso devido lugar.


Samantha de Freitas

se o caminho mais fácil nem sempre é o melhor, eu quero aquele que valha a pena. .
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