amanda lopes

palpitações diárias

Amanda Lopes

Sobre a poesia em um engarrafamento


O acidente na Avenida Brasil deu um nó na cidade. Um motoqueiro havia morrido após ser atingido por um ônibus e a interdição da via durou cerca de três horas. Na Zona Norte, esperei pelo ônibus por 40 minutos, algo incomum para o horário.

Assim que subi os degraus, percebi que seria uma longa viagem: não era possível passar da roleta. Passageiros se amontoavam e se equilibrar não era tarefa fácil.

Imagem: Pinterest

O motorista me ofereceu o motor. “Senta aí, coloca a mochila ali no vidro”. A camaradagem e a cortesia dele, em meio ao pior dos cenários – um veículo abarrotado, somado a uma previsão de engarrafamentos infernais –, eram evidentes. “Olha, meu carro é coração de mãe. Não vou deixar as pessoas na mão, né? Olha aquela ali, tá indo trabalhar, com certeza. Como não vou parar? As pessoas precisam chegar”.

Naquela manhã turbulenta no Rio, o motorista foi, sem saber, um respiro.

Ele sabia que aquela não seria sua última passagem por Del Castilho, onde estávamos. Ainda faltavam algumas idas e vindas para que ele completasse seu expediente, por volta das 15h. Ao contar que se levantava às 3h30 para ir para a garagem, lembrou que perto do ponto do acidente as coisas realmente iam mal. “Levei mais de uma hora para sair de Benfica”. O desfecho da manhã era imprevisível, mas ele não desanimava. “Sabe o que seria pior? E se o carro não tivesse ar condicionado, imagina?”

E rimos.

No caminho, arrumou tempo para ligar o rádio numa FM qualquer e cantarolar uma música sertaneja. Ofereceu aos passageiros o jornal do dia, as páginas espalhadas pelo painel do veículo. “Peguem o que vocês quiserem aí para distrair".

Também criticou a redução das linhas de ônibus pela prefeitura, abriu a porta de trás para as crianças entrarem sem pagar e esperou pacientemente a menina que desceu com um bebê nos braços. Avisei que ela estava levantando e ele prontamente respondeu: "Já parei, tô paradinho".

Eu levei 2h30 pra chegar ao Centro. Pedi pra descer pela porta da frente, rodando a roleta sem passar. Desejei bom dia e agradeci pela generosidade, afinal, fiz o percurso sentada ao lado dele, colada ao câmbio da marcha. Na saída, ele me desejou um bom trabalho “porque não está mole não”.

Fui embora com a certeza de que a poesia nos empreita nos detalhes.


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