Gabi Favarini

redatora com ascendente em conversas aleatórias, porém profundas.

a culpa não é das abelhas

O futuro é um mundo sem abelhas, em pleno desequilíbrio e onde o ódio fala mais alto.


black_mirror.jpg

Black Mirror é um soco no estômago e a crítica à sociedade moderna de cada episódio faz a gente se mexer na cadeira na tentativa de se sentir um pouquinho mais confortável. A última temporada estreou no Netflix em 21 de Outubro e, antes do fim do mês, Black Mirror já era assunto em toda a roda, conversa e grupo de whatsapp. Como parte do grupo que correu para o binge-watching, eu assisti aos seis episódios em dois dias. A terceira temporada já começa com um tema fascinante e num ritmo mais-do-que-atual, mas foi o último episódio, “Hated in the Nation”, que me tirou do lugar comum e fez minha cabeça fervilhar.

Vou explicar rapidamente o episódio e, se você não viu, aconselho a guardar esse post para depois por motivos de spoilers. A trama, situada em um futuro não tão distante, envolve: internet, abelhas robôs, hashtags, haters e a polícia. Tudo começa quando uma jornalista, depois de publicar um texto polêmico que viralizou na internet, é morta em sua própria casa. O bizarro é a causa da morte: uma abelha robô. O que é uma abelha robô? Nesse futuro um pouco distante onde todas as abelhas do mundo morreram, o governo criou abelhas robôs capazes de fazer a polinização e espionar o cidadão comum, mantendo tudo em irônico equilíbrio. Além da jornalista, outra pessoa acaba sendo vítima das abelhas, o que chamou ainda mais a atenção da polícia. Uma das investigadoras descobre o quê as duas vítimas tinham em comum: haters da internet. Antes de morrer, elas foram alvejadas com menções de ódio seguidas pela hashtag #DeathTo. Do alto de sua alienação, o que as pessoas não sabiam era que a hashtag #DeathTo fazia parte de um jogo com consequências reais e que a simples “brincadeira” valeria muitas vidas.

blackmirror_.jpg

Uma metáfora triste que, infelizmente, diz muito sobre como vivemos em sociedade e a forma como usamos a internet. Em sites e redes sociais encontramos mensagens que reproduzem nada mais do que o ódio, que machucam pessoas e que podem destruir vidas. A mídia também participa ao empurrar informações vazias que manipulam e alienam. Informações que exigem da gente o mínimo de pensamento crítico e questionamento — e quando não acontece, passamos informações falsas e nos tornamos os agentes da alienação e do ódio. O que me lembra das palavras da professora e filósofa Márcia Tiburi, no livro Como Conversar Com um Fascista:

“O que acontece é o falar por falar. Repetir o que se diz nos meios de comunicação. Ficar muito tempo ouvindo a mesma coisa para dizê-las de qualquer jeito. Ou dizer sem pensar no que se diz. No gesto do mero compartilhar sem ler que se tornou fácil, agimos no vazio. Estamos na mera reprodutibilidade da informação que nada quer dizer, mas é análoga ao fazer”.

Assim, formamos uma rede de informações vazias que levam à alienação e criamos uma internet repleta de mensagens de ódio, que ferem e que machucam.

O fato é que somos interdependentes, vivemos em sociedade e nossas ações têm grande impacto no mundo e na vida das pessoas. Parece básico, mas o nosso olhar míope encurta a nossa visão de sociedade fazendo a gente enxergar não além do próprio umbigo. Um olhar que não lê nas entrelinhas e acredita em tudo o que vê, sem questionar, argumentar e dialogar. Um olhar focado em construir uma bolha que cria a ideia de que existe o “eu” e o “outro”, que exclui o significado de comunidade e faz vista grossa para a responsabilidade das nossas ações. E, por incrível que pareça, ainda tem gente que pensa que a culpa é das abelhas.


Gabi Favarini

redatora com ascendente em conversas aleatórias, porém profundas. .
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Gabi Favarini