amoral

Amor. Moral. Amoral.

Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito.

Eles têm medo

Eduardo Cunha e afins não são dignos de temor. São vozes dissonantes, de uma espécie destinada à extinção. Se há muitos que o seguem, não significa que nossa luta é vã. Pelo contrário. Incomodamos, na mesma proporção dos seus gritos. E eles têm medo da nossa voz.


blendpic_20156279311639.jpg Beijo da Marinha americana foi estrelado pela primeira vez por dois homens Foto: Petty Officer 2nd Class Kyle Carlstrom/US Navy

Há algum tempo, Eduardo Cunha conseguiria fazer o ódio percorrer o interior mais profundo de minhas veias. Hoje, a sua figura caquética e esbravejante só consegue fazer com que eu sinta pena, no máximo um asco velado. Ele, juntamente com todas aquelas queridas celebridades que adoram mostrar o seu “amor ao próximo”, representam uma espécie em vias de extinção. Seu grito reverberante não é digno de ódio, talvez nem mesmo temor: apenas comiseração. É um bicho que luta pela sobrevivência dos seus, tenta, inutilmente, segurar o seu suspensório do poder e revive, com uma nostalgia comovedora, as épocas da barbárie, onde as suas ofensas não eram retrucadas, suas ações vis não eram apedrejadas e seu preconceito escancarado não era ridicularizado. E se são muitas as vozes que se unem a esse coro isso não é, nem por um segundo, sinal de que nossa luta é vã. Pelo contrário. Incomodamos, na mesma proporção dos gritos.

Essas vozes reacionárias, agentes passivas de reação à nossa ação de visibilidade gritante e escancarada, estão fadadas ao fracasso. Não devemos temê-las, se não combatê-las. A sua extinção é certa, mesmo que demorada. E estas vozes não devem ser reverberadas. É disso que elas se alimentam: do nosso ódio, do nosso medo, da nossa falta de esperança. Elas querem adeptos, mas cada vez mais geram escárnio. O mundo tal qual essas vozes gritam já não existe. Um mundo sem vozes dissonantes, sem cores das mais diversas, sem diversidade.

Com isso, não desfaço, nem minimizo o preconceito gritante, cortante, assassino e desumano que sofremos dia após dia. As palavras que machucam, os gritos de quem mais amamos, os milhares que são expulsos de casa diariamente, a dor causada pela sensação de que somos menos. Não desfaço, quem dera!, a sonora estatística: um homossexual morto a cada 26 horas no Brasil. Nem tampouco, afirmo que a luta está acabada. Pelo contrário, falo da esperança em prossegui-la.

London-Pride-Gay-Parade-2-007.jpg Parada Gay em Londres Foto: Paul Brown/Rex Features Paul Brown / Rex Features/Paul Brown / Rex Features

Porque não somos mais invisíveis. Estamos em todos os lugares. Nas mesas dos bares “de família”, onde somos diariamente expulsos e expulsas e voltamos, com a cabeça erguida, para beijarmos. Mas não voltamos sós. Estampamos as páginas dos jornais, diariamente, semanalmente, mensalmente, ano após ano. Decoramos as páginas das revistas com nossos beijos, nossas uniões, nossa arte, nossa música, nosso amor. Protagonizamos os filmes. Adentramos as telenovelas, as minisséries, os telejornais, os programas de entretenimento e os seriados nacionais e internacionais. A nossa imagem choca, mas não se apaga. Há vozes que gritam para que voltemos aos nossos armários, mas eles não existem. Não mais. Invadimos, sem possibilidade de retrocesso, a esfera pública que nos foi negada. Nossas mortes ficam impunes, mas nunca escondidas. Porque não somos mais mudos.

Gritamos a nossa voz para o mundo. Gritamos os nossos amores, nossas dores, as delícias e as penúrias de sermos quem somos. Exigimos os nossos espaços. Garantimos os nossos direitos. Somos uma onda que se arrasta furiosamente e, como tal, não pode ser detida. Eles têm medo, nós, audácia. Olhando de longe é fácil perceber quem está em desvantagem.


Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Guilherme Freire