amoral

Amor. Moral. Amoral.

Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito.

Longa estadia

Temos uma facilidade imensa de usarmos o desapego como desculpa para não nos envolvermos. Não consigo acreditar que o amor deva ser uma entrada pela porta principal com uma saída rápida pela porta dos fundos assim que a casa começa a ficar bagunçada. Pra mim, o amor tem um pouco de suportar.


DSC_0195_mz-450x298.jpg Fotógrafa retrata intimidade de casal para desmistificar promiscuidade associada à homossexuais Fonte: Catraca Livre/ Patrícia Cholakov

Uma coisa não me entra na cabeça: que o amor deva ser uma entrada pela porta principal com uma saída rápida pela porta dos fundos assim que a casa começa a ficar bagunçada. Será mesmo masoquismo sentar no sofá da sala e esperar a poeira abaixar? Óbvio, tudo tem seus limites. Se o dono da casa quiser enfiar a poeira goela abaixo, não há cristão que aguente. Pior ainda se ele quiser que você limpe a casa dele. Mas acredito que o amor seja um pouco de suportar. Toda casa tem os seus tempos ruins: seja um inverno, onde nem mesmo a sua aconchegante lareira é capaz de esquentar; seja o verão chuvoso, onde nem mesmo as orações a São Pedro fazem com que a água pare de descer. Sair pela porta dos fundos nesses momentos é fácil. Mas há quem se esquece de que um abraço não acaba com o frio, mas com certeza o ameniza. E água, quando tem de sair, é melhor que saia no suave aconchego de uma intimidade bem construída. E intimidade não se constrói numa entrada de cinco minutos, com paciência apenas para o café. Intimidade surge quando a companhia se faz presente mesmo após a porta da sala emperrar, o forno do fogão estragar e o botijão perder o gás. E principalmente, quando o som do salão de festas não funcionar mais e o dono da casa descobrir que, nestes momentos, pode-se contar com o suave aconchego de uma conversa no sofá desgastado da sala de estar.

Sei lá, pode ser babaquice, pieguice, bobeira, romantismo barato, excesso de comédias românticas e projeções neuróticas. Pode ser coisa de outro século. Sei lá. Mas, para mim, amor é entrada na porta principal. A pré-entrada não importa. Pode ter sido uma conversa de bar, uma cantada sem graça no ponto de ônibus, uma cutucada no Facebook, um ‘sim’ no Tinder. Sem moralismos. O que importa é uma boa estadia na casa. Apaixonar-se pelos detalhes. Ser cativado pelas minúcias. E não se desmotivar com os contratempos. A janela, que levou tanto tempo para que você aprendesse a abrir do jeito certo. Os talheres, que foram sendo tirados da gaveta, um a um, e divididos. Os casacos, que ele tinha tanto ciúme de compartilhar, mas que se ajustaram tão bem a você. A cama, que parece cada dia mais macia. Os lençóis preferidos você já sabe de cor. Mas isso não significa que você não possa surpreender com novos. O tão temido sótão, que mostrou um surpreendente aconchego nos momentos necessários. Também lugar dos álbuns de recordação, museus sempre engraçados de serem remexidos. No final, o orgulho e a satisfação de saber que você ajudou e ajuda a abrir a janela, que não se importa nem um pouco em dividir os talheres, que ama os seus casacos, que se satisfaz plenamente com a cama e que respeita o sótão faz com que a vontade de sair pela porta dos fundos desapareça misteriosamente. Ou talvez nem tão misteriosamente assim.


Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito. .
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