amoral

Amor. Moral. Amoral.

Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito.

Quem respeita, também boicota!

Já que não podemos esperar coerência dos boicoteadores de plantão, façamos o nosso próprio boicote.


o-DELETE-BUTTON-facebook.jpg "The Power of Delete", Huffington Post. Disponível em: http://bitly.com/1w70yCS

Nesta semana não se falou de outra coisa que não fosse a campanha do Dia dos Namorados da marca de cosméticos O Boticário. Iniciou-se uma guerra infantil de "likes" e "dislikes" no vídeo da campanha no YouTube. De um lado do cabo de guerra, LGBTs e favoráveis à causa, do outro lado, fundamentalistas religiosos e homofóbicos de plantão. Até o presente momento, o vídeo conta com quase 3 milhões de visualizações, com os "likes" "ganhando" a batalha (358.035) contra os "dislikes" (185.218). A campanha, arriscada, sem sombra de dúvidas, mostrou que investir no "pink money" (expressão americana que se refere ao alto poder aquisitivo de homossexuais) é uma boa jogada. Outras empresas e órgãos públicos entraram na onda e se manifestaram a favor da diversidade, talvez aproveitando que junho é o mês da Diversidade Sexual e da Parada LGBT de São Paulo, a maior do mundo. No final, quem "venceu" mesmo foi O Boticário, que nunca conseguiu tanta mídia gratuita.

Para quem não viu e nem leu ou ouviu falar da campanha (qual a receita?), se trata de um vídeo de 30 segundos onde três mulheres e três homens aparecem se preparando para um encontro ou comprando o novo perfume da marca. A surpresa se dá quando é mostrado quais são os pares formados: um casal heteroafetivo e dois casais homoafetivos (dois homens e duas mulheres). Todos se abraçam. Nem sequer um beijo, nenhum olhar malicioso, nenhuma piadinha de duplo sentido. Sim! O vídeo foi veiculado nas principais emissoras da televisão aberta e foi o suficiente para trazer à tona o já usual ódio que as pessoas têm por tudo aquilo que difira de seus mundinhos limitados. Além de convocarem as outras famílias "de bem" para dar "dislikes" no vídeo, muitos resolveram boicotar a marca. Apesar das diversas reclamações, O Boticário se manteve firme no seu posicionamento. De tudo, essa foi a atitude mais louvável. Qual não é a surpresa quando o querido Silas Malafaia aparece no YouTube (que, vejam só, publicou um tweet parabenizando O Boticário pela campanha um dia depois) gritando (aparentemente ele não sabe falar num tom de voz comum) contra as marcas que fazem propagandas com apologia ao homossexualismo (sic). Tudo isso seria cômico, se não fosse trágico. Esta é um guerra infantil, sem sombra de dúvidas, mas é uma resposta emocional de quem lida diariamente com a discriminação e a invisibilização de suas relações. Há alguns meses vi um tweet de um homossexual que narrava a sua surpresa quando, no Subway com seu namorado, aproxima-se uma menina e pergunta porque os dois haviam se beijado. Eles riram e responderam que era porque se gostavam. A mãe, em outra mesa, explicou: "Ela ficou curiosa e pedi para perguntar a vocês". Quando voltou para a mesa, a mãe esclareceu à filha: "os dois se amam!". Coisas assim são capazes de salvar o nosso dia. Estamos tão acostumados com os olhares raivosos, os gritos preconceituosos do outro lado da rua e o medo da agressão, quando esta não se concretiza, que o mais simples reconhecimento e apoio de nossas relações torna-se uma vitória colossal.

Não sejamos ingênuos de achar que as pessoas que se revoltaram com o vídeo serão coerentes de boicotar todas as marcas que fazem "apologia ao homossexualismo". No entanto, talvez devamos aproveitar essa onda de boicote e tirarmos de vez algumas coisas da nossa vida. A minha primeira sugestão de boicote é o fundamentalismo religioso que nos faz de bodes expiatórios diariamente. Silas Malafaia, Marco Feliciano, Eduardo Cunha, Magno Malta e afins aproveitam-se de nossa vulnerabilidade para fazer com que nós propaguemos os seus discursos. Se foi provado que Silas Malafaia fala mais sobre gays do que sobre Jesus, não é difícil provar que, tomados do ódio que tanto o acusamos, assistimos suas participações nos programas, compartilhamos seus vídeos e replicamos notícias relacionadas a essa "figura". O que, além de ódio, os discursos dessas pessoas acrescentam às nossas vidas? Não sejamos seletivos, afinal os homofóbicos não perdoam nem mesmo os heterossexuais. Não são apenas os religiosos. Devemos boicotear aqueles que adoram nos ridicularizar, desmerecer a nossa luta e nos colocar como vitimistas. A lista é grande: humoristas, tais como Danilo Gentili, Rafinha Bastos; jornalistas e articulistas, tais como Rachel Sheherazade, Ratinho, Reinaldo Azevedo, J.R. Guzzo, Rodrigo Constantino e mais recentemente Alexandre Garcia. Não é preciso muito esforço para conseguir acrescentar mais nomes a essa lista. Quem sabe, o tumblr "aproveita e boicota também" deva ser refeito: não com marcas, mas com nomes de pessoas que se incomodam com a nossa existência? Vamos boicotar todos os tipos de preconceitos: o machismo, o racismo, o classismo, a transfobia, a bifobia, e incluir todo mundo na nossa luta por um mundo melhor e mais justo. E, talvez não menos importante, deixemos de lado a passividade (social e política, obviamente, pois a sexual é divinamente prazerosa). Afinal, quando passar O Dia dos Namorados, o novo Egeo não vai acabar com o preconceito desse nosso cordial (?) povo brasileiro.


Guilherme Freire

Canceriano. Ascendente Touro. Traduzindo: comida, preguiça e amor. Estudante de Jornalismo e poeta nas (raras) horas vagas. Um INFJ que acredita que o mundo ainda tem jeito se todo mundo der seu jeito. .
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