ana gabriela rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão

Ana Gabriela Rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão...
Ana Gabriela Rebelo
[email protected] e @Ana.Cravo.Ana.Canela ;))

Nudes, cupcakes e o marido chinês

O problema em recebermos fotos de pessoas nuas pelo celular não são os corpos nus das pessoas, sejam eles jovens, velhos (sim, os corpos envelhecem e não há nada de feio nisso), gordos, tatuados ou magros. O problema é nos fazermos disponíveis a todo e qualquer momento. É a chatice da esvaziada e repetida história, sobre “vazar alguém pelado”, sempre tomando espaço nas manchetes dos jornais. Outra pessoa pelada, mas que raios! Será que não cansamos de ver bundas?!


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Algumas pessoas têm fotos de pornografia no celular. Eu tenho cupcakes. Gosto de ver cupcakes e, às vezes, gosto de enviar fotos de cupcakes para meus melhores amigos. Também gosto de desenhar banheiros. Me acalma e me faz sentir bem quando estou doente. Gosto do cheiro da cor laranja no papel. Gastar um giz de cera laranja, bem laranja, no papel é uma delícia. Gosto de cactos e pequenas plantinhas suculentas. Gosto de cafés, chuvas e barulho de vento. Gosto de morder borrachas. Quando era pequena, minha mãe advertia sobre o perigo de comer borrachas. Aprendi que borrachas não são comestíveis. Aprendi também que continuo gostando de comer borrachas. Comer comê-las não, mas mordo-as todas. São gostosas de enterrar os dentes e provocam um calorzinho bom nas gengivas. Não como as borrachas por conta da nutrição, como as borrachas por gosto dos dentes. Gasto o giz de cera laranja no papel, por gosto do nariz, das mãos e dos olhos. Estou precisando trocar de celular. Resgatei meu celular antigo. Pequeno e sem cores. Ele cabe no bolso da calça e ninguém quer. Ele serve para fazer ligações para pessoas que estão longe fisicamente e não as perturbam com meus pensamentos recorrentes do tédio cotidiano. Uma coisa me vem à cabeça neste momento: telefones com fios. Na casa dos meus pais, em 1990, havia um telefone azul de fio. A primeira ligação telefônica que fiz foi um pouco antes disso, em um telefone cinza esverdeado daqueles que tinham uma rodinha de girar número por número. Meu pai me ensinou a usar o telefone e liguei para a vovó. Para dizer oi, perguntar se estava bem e, claro, usufruir da garantia de fazer esse tipo de “teste” no território seguro das vovós. Quer dizer, as crianças testam as coisas, experimentam, provam. Provar o mundo é uma delícia.

Provo o gosto do café preto todos os dias. Provo as manhãs com Cartola e café preto. Existe alguma coisa sempre nova no provar. Não falo do provar que reprova, tampouco do provar restrito à novidade. Provo cafés a cada manhã. A cada manhã sou café e Cartola. Provar nesse sentido tem a ver com um experimentar brincante. Experimentar sem tempo, ou o melhor seria dizer: com tempo? Minha lista de gostos me faz giz laranja a cada vez que cubro uma folha grande pressionando a cera no papel. Nossas listas de gostos nos dizem aquilo que escolhemos para demorarmo-nos a cada vez que somos. Venho me perguntando: sobre o que temos escolhido nos demorar? A escolha de demorar-se em algo também é uma escolha de liberdade. Quero dizer com isso que o tempo utilitário serve à velocidade, e o tempo de demorar-se não serve a nada nem a ninguém. Ele demora sobre as coisas, ele experimenta a margem mole e porosa das coisas. A escolha de demorar-se é uma escolha de liberdade porque é uma escolha marginal. Demorar-se sobre as coisas é poder transitar pela margem das coisas. O tempo de demorar-se é brincante por poder entrar e sair do que são as coisas, por conhecer o nada que as coisas são.

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Recentemente encontrei minha melhor amiga de infância. Nos conhecemos quando eu tinha oito anos de idade e ela, nove. Tempo de férias e tempo de recuperação de matemática. Sim, a matemática me deu presentes. Minha amiga sempre foi boa de conversa. Suas ideias são boas e é gostoso ter com quem pensar. Por algum motivo, meus melhores amigos, em sua maioria, optaram por viver longe de sua cidade natal. Minha amiga vive, há cerca de dez anos, na América do Norte. E, desta última vez que veio ao Brasil, celebramos seu casamento. Não com um brasileiro, nem um norte americano. Minha melhor amiga casou-se com um Chinês (e certamente isso já me dá um bom título para um próximo texto). Minha melhor amiga de infância tem um gosto pelas feições orientais, pelo feijão preto brasileiro, pela língua inglesa e por escolhas estéticas minuciosas. Costumamos conversar sobre tudo e, nesta breve passagem pelo Brasil, trocando experiências sobre praticidades e cotidianos, eis que surge a nova banalidade que circula como hábito de nossos conterrâneos: a partilha de pornografia na velocidade que o nosso 3G, 24 horas, permite. A todo momento, e em qualquer lugar, receber ou enviar materiais sobre os mais diversos conteúdos, inclusive pornografia, tornou-se rotina.

Bom, aí é preciso que nos demoremos sobre o que margeia tudo isso. Minha amiga falou com espanto sobre esse novo costume, associando o comportamento à cultura brasileira. Disse que seu marido chinês considera estúpido que um homem envie pornografia a outro homem. Bom, eu não sei se é estúpido, sei que isso me desperta curiosidade. Não primeiramente pelo fato de ser pornografia aquilo que partilhamos. O que me instiga é isso que praticamos e denominamos partilha. Então acho que não é antes o conteúdo, mas, sim, o tempo. Me parece contraditório que o tempo da partilha seja veloz. E aí entendo a curiosidade pelo conteúdo. Imagine um encontro entre pessoas na rua. Cada um de nós pode pensar em formas diferentes de um encontro acontecer. Penso em dois corpos que se abraçam longamente... alguém morreu ou são namorados! Ou talvez tenham saudades um do outro. Mas, quem sabe ainda, gostem de se abraçar e dizer versos recém lidos na condução?

Penso em corpos que se esbarram, _ “Desculpa, foi sem querer! ” Sorriem sem graça e seguem, cada qual, seu caminho. Penso em encontros de raiva, tristeza, felicidade, dor, mania, paixão, último encontro, encontro inesperado, primeiro encontro, encontro de negócios, de reaproximação. Para cada encontro um tempo. E é no tempo que se demora, onde posso fazer lugar de partilha com o outro. Meu telefone antigo não suporta pornografia. No sentido de que, definitivamente, não tem suporte tecnológico para esse tipo de trâmite. Ele não tem 3G, wifi, nada disso, nenhuma tecnologia que carregue a marca da modernidade: a velocidade. A troca de qualquer conteúdo pelos celulares modernos é veloz. Assim que recebo uma fotografia do Topo Gigio pelado ou o que quer que seja, eu envio imediatamente para os meus contatos. E eles recebem o Topo Gigio pelado, ou o que quer que seja, aonde quer que eles estejam, cozinhando em casa, trabalhando, trocando fraldas, transando ou chorando em um velório. Meu telefone velho não tem velocidade para pornografias, nem para cupcakes ou nudes do Stenio Garcia. Sempre que meu telefone velho toca eu fico feliz. Pois nesse número só me encontram pessoas de cafés e poesias longas de condução. O tempo longo me parece ter mais afinidade com partilhas.

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O problema em recebermos fotos de pessoas nuas pelo celular não são os corpos das pessoas que estão nuas, sejam eles jovens, velhos (sim, os corpos envelhecem e não há nada de feio nisso), gordos, tatuados ou magros. O problema é nos fazermos disponíveis a todo e qualquer momento. É a chatice da esvaziada e repetida história, sobre “vazar alguém pelado”, sempre tomando espaço nas manchetes dos jornais. Outra pessoa pelada, mas que raios! Será que não cansamos de ver bundas?! Não interessa se é uma bunda famosa ou não, uma bunda é sempre uma bunda, todo mundo tem bunda. O problema é que aquilo que nos choca ainda é a bunda, e não o abuso sobre expor-se o outro contra sua vontade. O problema é a falta de cuidado ético consigo e com o outro. O descuido acontece antes, ao apressarmo-nos, sempre nos colocando na frente do outro. Ocupamos abusivamente todos os espaços de privacidade e solidão. Espaços necessários para que o outro permaneça existindo outro, na sua diversidade e nas suas próprias escolhas. Antes de encontrar o outro, eu saboto o outro, eu vazo o outro, arremesso coisas indiscriminadamente em cima dele. Eu arremesso o outro.

Venho me perguntando sobre o que temos escolhido nos demorar. E com essa pergunta, acabam surgindo sempre as mesmas figuras repetidas e compulsivamente gastas, como a sensação de gozo enfraquecido pelo homem que bate punheta 50 vezes por dia. Não é fácil sair da prática da velocidade, o círculo compulsivo de funcionamento fácil nos faz acreditar na hierarquia da velocidade sobre o tempo. Aquilo que temos escolhido nos leva a pensar sobre nossas práticas de liberdade. Aquilo sobre o que escolho me demorar fala dos sentidos que trago junto a mim. Aquilo que escolho indica o que não escolho, tudo aquilo que não escolho fala da minha liberdade enquanto potência criativa em formas de existir. Escolho cupcakes, borrachas de comer, cheiros de sabonetes de pitanga. Escolho não querer receber mensagens 24 horas por dia. Escolho o gosto de escrever com lápis e papel porque me dá prazer. Escolho questionar se aquilo que escolho foi realmente escolhido por mim. Escolho o tempo de parar, escolho a urgência de nos determos sobre o tempo de demorar-se.

17128094395_847ff42fc9_k.jpg Fotografias Francisco Costa https://www.flickr.com/photos/super_praia/


Ana Gabriela Rebelo

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