ana gabriela rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão

Ana Gabriela Rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão...
Ana Gabriela Rebelo
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Pau de sê o quê?

Essa é a diferença básica atual entre um pau e uma pá. O pau está demasiado mandado, por isso prefiro a pá ou a pedra. _Pois, a ditadura do fazer está nas coisas?_ Pergunta o caro leitor. Não, não está. A ditadura aparece de forma delicada e invisível no fazer que fazemos com as coisas. A ditadura mansa acontece quando nos desapropriamos do movimento e fazemos da vida, coisa.


255255_439812069372990_249958757_n.jpg fonteFotografias: Luciana Franco

Eu não tenho um pau de selfie. Sou menina. Fui castrada? Tenho fotografias em casa. Fotografias antigas, que são aquelas que escolhemos para ocuparem os porta-retratos. As fotografias novas não se revelam mais. São monossilábicas e vão direto para a rede da vida virtual. A rede é uma imagem um tanto curiosa e contrastante com as fotografias modernas. Rede remete à teia, coletivo, laços. As fotografias não reveladas, expostas de forma exaustiva na rede, são tão solitárias e desinteressadas de outro, que mais valeria colocá-las na própria cabeceira. Ou em caretas de fantoches para levar ao cinema num domingo a tarde. Prestamos contas, todos os dias, de como somos bonitos, de como somos felizes ou magros. As solitárias selfies precisam ser vistas a todo instante. São compulsivas, maníacas e, de início e na maior parte das vezes, são medonhamente sorridentes. Sorriem os dentes que não sabem mais atacar. Quase como tigres banguelas com próteses da Barbie. Mas para que sorrimos, amigos? Sorrimos para as câmeras. E para que as câmeras? Para eu mesmo! Eu na praia, eu no café, eu no fim da tarde, eu de cabelo cortado, eu de batom cor de rosa, eu zangado! Eu tão zangado que a única coisa que pude fazer foi tirar selfies.

Recordo-me de um dia em que estava em um elétrico em Lisboa. Pelos elétricos sempre circulam turistas. Um japonês muito sério sentou-se próximo a mim. Estava sozinho. Ele e seu pau de selfie. Aquela pequena viagem de elétrico rendeu algumas dezenas de fotos do japonês. Pensei em sua família. Tive pena ao imaginar a animada tarde de um fim de semana em que todos se reuniriam para ver as instigantes fotos do parente viajante. _ “Mas, e a cidade?” _ “O que tem a cidade? Que cidade?” _ “Bom, a cidade a qual viajastes!” _ “Ah... a cidade é linda! Veja cá as fotografias!”

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As fotografias estão presas à cara! Se calhar, nem mesmo vossas avós suportam mais vossas caras! Caras limpas, caras brilhantes em séries intermináveis de imagens desprovidas de cidades. Imagens sem cheiros, sem torções, sem ruas, sem vida. Quase como filas de zumbis sem fome. Chato eterno! A fotografia precisa de viagem. Precisa ser viagem. A viagem que se faz viagem é, como diria Leonardo Boff, aquela em que se transcende. As fotografias podem nos dizer sobre as viagens que temos feito. A tecnologia utilizada pode nos indicar o nosso potencial de viagem, na medida em que entendemos sua finalidade. A que fim se destina o pau de selfie? Fico imaginando uma visita a um museu daqui a uns anos. Melhor, daqui a muitos e muitos anos, quando estivermos em outra era e outro povo estiver em vigência no planeta Terra. Imagino o momento em que os seres homo sapiens sapiens sapiens, ao adentrarem a ala do museu que corresponde ao nosso contemporâneo e se depararem com fileiras de paus de selfie, se perguntarão: “What the Fuck?” A que se destinam essas enormes quantidades de selfies? O que queremos dizer com isso? Quer dizer, deve ser algo de fato muito importante, talvez como as pirâmides ou as estátuas da ilha de Páscoa.

Tigres banguelas, para qual caminho indica a vossa tecnologia? Na encruzilhada das escolhas, o gato que ri aparece invisível. Para encontros com o invisível a vida sugere menos apetrechos e mais Carroll. Para vislumbrar caminhos é preciso despregar-se da cara. Penso nos autorretratos de Vincent Van Gogh. Nas pinturas de rostos de modelos que fazia. Eram homens, mulheres, velhos, camponeses e prostitutas. Van Gogh gostava especialmente dos olhos. “... prefiro pintar os olhos dos homens, mais que as catedrais, pois nos olhos há algo que nas catedrais não há, mesmo que elas sejam majestosas e se imponham; a alma de um homem, mesmo que seja um pobre mendigo ou uma prostituta, é mais interessante a meus olhos.” A preferência por camponeses e prostitutas era devido a sua crença de que neles havia uma vida mais intensa, mais verdadeira, pois não se rendia aos polimentos e aparências. Sua pintura tratava da verdade mais verdadeira que a verdade literal. O mais verdadeiro que a verdade literal, refere-se à vida em toda sua essência de desforma. Desconfio que Van Gogh não se agradaria com modelos de selfies.

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Penso nos relicários. Penso no que Van Gogh nos deixou. Os ciprestes de vento, os girassóis de amarelo vida, a vida de sol e dores e paixões. A intensidade e o mistério do vivo, do viver. Penso no que deixo. Penso no que deixamos enquanto rede e o que temos acumulado em nossas cabeceiras para tentar aplacar nossas insônias cotidianas. Nossas tecnologias têm nos indicado um ritmo compulsivo de “fazeres” que distraem a morte. A cada instante uma selfie, assim não pensamos no tempo. Não falo do tempo do relógio, falo do tempo de ser finito, de ser mortal. O tempo de não termos tempo, a intensidade finita do amarelo do sol. Distraímo-nos a todo instante, dopados como narcisos mendigos que guardam espelhinhos e pequenas quinquilharias em uma caixinha suja embaixo do braço. No Rio de Janeiro é carnaval outra vez. E agora lá se vão descendo as ruas de Santa Teresa, um padre, um palhaço e um pau de selfie... A menina está vestida de padre. Ela é uma menina, mas pode ser um cachorro também. Um abajur, uma Cleópatra, bruxa, flor, bicho ou o que quiser. O palhaço, bem... o palhaço está entre a menina-padre e o pau de selfie. Ele chora, ri, transborda coração e segue tropeçando, chorando e brincando pela ladeira. O pau de selfie não fala com a menina-padre, nem com o palhaço. O pau de selfie segue nele mesmo, apenas utilizando a ladeira como acessório secundário da sua compulsão solitária.

_ “Isso é tão triste!” Diz o palhaço... _ “Não fique sozinho assim...” _ “Já sei!” Grita a menina-padre-bailarina-balão. _ “Vamos fazer um bloco! Mas precisa ser um bloco à fantasia.” _ “E vamos fantasiados de que?” Pergunta o pau de selfie. _ “Senhor pau de selfie, vosmecê pode ir como bem quiser! Pode ser arroz, pode ser lombriga, pode ser rainha... Enquanto isso, na direção contraria, vêm subindo umas crianças saltitantes vestidas de pá. O palhaço fica feliz com as pequenas pazinhas gargalhantes. Estende-lhes flores e parte para a brincadeira também. As pás estão livres da cara. As pás estão livres do que fazem. E aí, pá-de-ser-lixo, mas também pá-de-ser- reciclável. Pá-de-ser-paetê, pá-de-ser palhaço, bailarina, padre, galo, Einsten, king kong ou Macunaíma. Pá de ser o que quiser, pá de ser outro, pá de ser livre!

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Essa é a diferença básica atual entre um pau e uma pá. O pau está demasiado mandado, por isso prefiro a pá ou a pedra. _Pois, a ditadura do fazer está nas coisas?_ Pergunta o caro leitor. Não, não está. A ditadura aparece de forma delicada e invisível no fazer que fazemos com as coisas. A ditadura mansa acontece quando nos desapropriamos do movimento e fazemos da vida, coisa. _”E o que fazemossss????” _ Perguntam os leitores. Bom, não sei. Acho que talvez possamos chamar a família do japonês do elétrico para dar alguma sugestão. Acho que essa pergunta pode ter respostas precipitadas e perigosas. Isso, porque somos livres, e a liberdade causa uma angustia tão grande que, às vezes, acontece de fabricarmos paus de selfie em série. Acho que talvez devamos não fazer nada. Manoel de Barros nos fala sobre o homem que catava pregos no chão. Pregos deitados, enferrujados, pregos que não furam mais. Pregos que não exercem mais a função de pregar, são inúteis! O homem que cata pregos inúteis no chão garante a soberania do ser. “Garante a soberania de ser mais do que ter.” Acho que talvez devamos não fazer nada e convidar Manoel para fazer nada juntos! Pense a delícia do vagar do dia, catando pregos enferrujados com Manoel! Pense conversar com o gato invisível de Carroll e deixar que o coelho apressado passe correndo e volte pulando. É, realmente não sei o que fazer, só penso.

Fotografias: Luciana Franco


Ana Gabriela Rebelo

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