ana gabriela rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão

Ana Gabriela Rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão...
Ana Gabriela Rebelo
[email protected] e @Ana.Cravo.Ana.Canela ;))

Precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy também

Nós adultos fingimos tudo! Fingimos que gostamos quando não gostamos. E também fingimos que não gostamos quando gostamos. Quando crianças, sentíamos o que sentíamos e pronto. E aí vamos crescendo e sendo educados a esconder o coração, não tirar melecas e participar de coisas chatas por mera formalidade. Nos tornamos adultos carregados de melecas velhas e quinquilharias no coração.


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Não gosto de amigo oculto. Quer dizer, não gosto daqueles amigos ocultos convencionais de presentes pré-determinados e apáticos. Principalmente quando acontecem no trabalho. Existe alguma coisa mais formalizada informal que presentes utilitários trocados com uma pessoa com a qual você nunca chegou, sequer, a trocar palavras? E, depois, ainda é de praxe aquele meio abracinho, em uma fotografia sem graça de sorrisos amarelos. Bem, o último ano que passou não foi muito bom para mim. Uma das coisas, porém, que posso listar no “lado bom da força” foi que, pela primeira vez em muito tempo, não participei de amigo oculto nenhum. Isso, com certeza, nos poupa um belo tempo gasto em trabalho não remunerado. Tem pessoas que gostam, e eu juro que, às vezes, tento entender como alguém pode gostar de atividade tão impessoal de pseudo-intimidade-alegre. Às vezes fico pensando porque não trocamos notas de dinheiro dentro de envelopes coloridos. Acho que seria mais divertido, ao menos poderíamos colorir os envelopes e, talvez, escrever neles várias sugestões de presentes os quais você acredita que, realmente, têm afinidade com aquela pessoa. Daí ela recebe aquilo, vê seu colorido, seu traço de desenho tosco... Talvez o papel venha com alguma mancha de gordura que você deixou cair enquanto desenhava e comia rabanadas na cozinha à noite. E aí você pode até se desculpar pela mancha, explicar que estava fazendo rabanadas, e talvez então surja uma boa conversa. Uma conversa que não precisa ser alegre, mas que tenha vontade de conversa. É, às vezes tento entender e penso mais ou menos por aí: o amigo oculto pode ser bom, mas precisa ter brechas para o oculto. Se isso não acontece, fica tudo comercial, e aí realmente é aquele horário político obrigatório que ninguém quer ver, mas todos fingem que se interessam pra não pegar mal.

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A coisa já começa ruim, quando primeiro tem aquele momento em que você torce para tirar alguém com quem você tenha o mínimo de proximidade. Ou, ao menos, que não seja aquela pessoa nova que apareceu de paraquedas na última hora, da qual você não sabe absolutamente nada. E se você apertou os olhos e pediu com todas as forças para não ser aquela pessoa, você errou. _ “Que não seja Zezinho, que não seja... é esse mesmo o nome dele?...” Pronto! É o Luizinho... Luizinho! É esse o nome... Sabia que era alguma coisa com “inho”! Bom, agora comece rapidamente a pensar o que você vai falar sobre ele. Lembra o dia que você esbarrou com ele no corredor e ele estava... Como ele estava?... De lado! Isso, ele estava meio de ladinho, passando rápido pelo corredor e aquilo te irritou muito, pois você estava de TPM naquele dia, e aquela criatura correndo rápido de ladinho te lembrou uma porra de um siri gigante que atrapalhava teu caminho! Que inferno! Esse puto de siri! Ótimo, você já tem algo a dizer. O presente. Bem, “presente” me parece uma palavra meio equivocada neste caso. Equivocada porque não me parece que tenha a ver com o ato de presentear alguém. Presentear alguém envolve uma troca íntima. Acredito com todas as forças que precisamos saber presentear sem que isso envolva um ato comercial. Presentear não deve, necessariamente, precisar de dinheiro. Presente é gostoso quando é algo pensado, algo que tenha um pouco de si e do outro. Não gosto de ter que sair, com pressa e sem vontade, no meio do horário de almoço, para comprar uma bolsa de couro de determinada marca para o Zezinho! Ou Luizinho! Whatever! Aliás, eu nem gosto do “fulanoZINHO”. E gosto menos ainda de fingir que gosto! Nós adultos somos muito ruins com isso. Fingimos tudo. Fingimos que gostamos quando não gostamos. E também fingimos que não gostamos quando gostamos. Quando crianças, sentíamos o que sentíamos e pronto. E aí vamos crescendo e sendo educados a esconder o coração, não tirar melecas e participar de coisas chatas por mera formalidade. Nos tornamos adultos carregados de melecas velhas e quinquilharias no coração. Não vou ser romântica e dizer que gosto de conversar com crianças. Não gosto de conversar com todas as crianças, tem crianças que são chatas. Tem crianças que só falam do homem aranha, e ficam gritando, e passam horas fazendo explosões com a boca. Mas isso não é um problema, elas também não conversam comigo quando me acham chata. É uma questão de afinidade e sinceridade. Por isso gosto das crianças, mesmo quando são chatas.

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Trabalhei com crianças em vários momentos da vida. Meu penúltimo emprego era com crianças. Trabalhava em uma equipe de vários profissionais que faziam atendimentos de natureza psicossocial com crianças. E foi com essas pessoas que vivi minha mais recente experiência de amigo oculto. Mas ali era diferente, convivíamos com crianças, poderíamos brincar, sabíamos brincar! Fiquei animada e logo me inscrevi na ata de reunião para propor meu fabuloso plano de amigo oculto i-no-va-dor! _ “Então... vamos presentear nossos amigos com brincadeiras! Cada um propõe uma brincadeira que acha que tem a ver com seu amigo. Ou também pode ser uma música, uma performance, uma esquete!” Bom... As caras não foram muito receptivas, então eu tentei outra coisa. _ “Então vamos nos presentear com brinquedos. Não brinquedos caros... porque atualmente os preços de brinquedos estão absurdos... Podemos escolher besteiras, brinquedos simples, dessas lojinhas de um e noventa e nove. Que tal?” Novamente as carinhas não foram lá muito boas. Os narizes estavam torcidos e os olhos de pena para mim foram tantos, que cheguei a pensar que realmente havia algo de errado com a minha pessoa. O silêncio se demorou por alguns dez segundos, até que alguma boca salivando se rebelou: _ “Eu quero um cinto bonitoooo! Não sou mais criança.” As outras boquinhas rapidamente também começaram a salivar com bolsas e cremes, maiôs, sandálias e maquiagens. Estava decidido, precisávamos de cintos bonitos para combinar com as calças.

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No final dos anos setenta Mafalda pergunta a su mamá:_”...com quantos anos a gente fica velha?” Su mamá lhe responde que é tudo uma questão de manter o espírito jovem. O que leva a menina a outra pergunta:_ “Tudo bem... mas e o espírito... com que idade ele começa a precisar de maquiagem?” Ai Mafalda... tantos anos trabalhamos com estas crianças e nunca, nem sequer em uma única reunião, te convidamos! Convidamos Sigmund Freud e o senhor Lacan, mas nunca a Mafalda! Gostaria de saber dos livros de cabeceira do senhor doutor que me trata. Acho que, antes de nos propormos a cuidar de alguém, deveríamos cuidar melhor da nossa lista de convidados. _ “Que lista de convidados?” Pergunta o senhor Lacan. Bem, na verdade, falo de várias listas. A lista de convidados para as reuniões da ONU, lista de convidados para as conversas mentais que temos antes de dormir, listas para aniversários, casamentos, conversas em mesa de bar e camas de motel. Também falo das listas de convidados para reuniões de família e direção de trabalho. Não falo “direção” no sentido de cargos profissionais, falo sobre direcionamento de sentido do que fazemos. Também não falo do “cuidar” só no sentido de tomar conta ou conduzir um tratamento de saúde. Falo de direção e cuidado como pensamento, reflexão. Sempre que vamos pensar sobre alguém ou sobre alguma coisa, ou simplesmente pensar, devemos fazer uma boa lista de convidados que saibam brincar. Do contrário, podemos estar diante do mais extraordinário nascimento de estrelas, que não conseguiremos ver nada mais que chuviscos a perturbarem nossos olhos. Poderemos estar diante de naves extraterrestres pousando na lua, mensagens em três diferentes línguas, amores capazes de fazer cantar. Gritarão tristezas e alegrias e todos os tipos de coisas misteriosas e inexplicáveis, e tudo que teremos ainda serão belos cintos de couro para combinarem com nossas calças.

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O melhor amigo do Calvin é um tigre, o Haroldo. O melhor amigo do Charlie Brown é um cachorro, o Snoopy. O Linus também é amigo do Charlie e do Snoopy. Aliás, quem não é amigo do Snoopy? Eu gosto de todos eles e tenho todos na cabeceira e na bolsa. Gosto de convidá-los para minha casa. Deixo meus convidados virem como quiserem, de calças, vestidos, descalços, pintados, com perucas... Não pré-combinamos isso, porque isso não é o principal. Exceto, é claro, quando é festa do chapéu, do pijama ou da gravata maluca. Acho mesmo que precisamos falar mais sobre Paty Pimentinha e Mafalda. Acredito (e isso apazigua meu coração) que, se elas estivessem naquela reunião de trabalho, teriam topado o tempo de brincadeira. Afinal, trabalhamos duro e... Estamos fazendo isso e... Quer dizer, pra quê mesmo isso tudo? Uma vez, o Charlie perguntou pro Linus porque eles precisavam estudar. O Linus disse que era para que tirassem boas notas. E para que boas notas? Bom, para que consigamos nos formar e conseguir um emprego que nos pague bem e assim consigamos matricular nossos filhos em boas escolas para que... Bem, para que eles tirem boas notas!

Você pode estar se perguntando se seria mesmo uma boa dar ouvidos a um menino que casualmente troca ideias com um cobertor azul. Ou talvez se pergunte, por que questionar tanto um simples amigo oculto? E o que posso lhe dizer é que não questiono o amigo oculto. O que questiono é o oculto. A falta dele quando deveria haver, e o pseudo-oculto que se desvela em um acordo coletivo onde mantemos a mediocridade esvaziada de todo dia. Esvaziada de desejo, de sentido, de autenticidade. Lembro-me de Antunes Filho e o convido também, junto a Calvin e companhia, para brincar na nossa festa. Em uma de suas declarações, Antunes diz:_ “Está tudo se esfarelando. A fé no outro se esfarela. Você não pode contar com ninguém, você fica cada vez mais solitário e contando com os eletrodomésticos.” Pois é disso que se trata esse “amigo oculto da depressão”: a dureza com que levamos tudo só nos permite brincar brincadeiras didáticas que corroboram com nossas vidas de realidades vazias de sentido, que precisam a cada fim de ano serem apertadas com belos cintos. Brincadeiras didáticas são chatas. É quase como o que acontecia nas antigas aulas de informática das escolas nos anos 90. Você ia para a aula todo animado, porque sempre no final a professora dava 30 minutos de tempo livre no pc! Tempo livre no pc, que demais! Vamos jogar! Então, você e sua dupla abriam os jogos que tinham instalados e... eram to-dos didáticos. Dinossauros são legais quando são dinossauros e não quando ensinam a gente a resolver funções matemáticas. O último ano que passou não foi bom para mim. E isso é algo que eu espero compartilhar com um amigo. E mesmo que ele não me entenda ou fale merdas e me dê conselhos estúpidos, ou simplesmente não faça nada além de ser meu amigo, ok. Passaremos madrugadas sozinhos na cozinha comendo rabanadas. Também encheremos nossas caras quando der na telha, teremos dores de cabeça, sentiremos raiva e medo e também acharemos estranhas e desconfortáveis mais da metade das coisas que acontecem no mundo. Os sorridentes entusiastas de Recursos Humanos que me desculpem, mas é muito solitária essa vida de polir cintos e dentes. Cansei de falar sobre produção, precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy também.

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Ana Gabriela Rebelo

Crônicas, cartas e bilhetes no papel de pão... Ana Gabriela Rebelo [email protected] e @Ana.Cravo.Ana.Canela ;)).
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