ana g.passos

Não sou de difícil de ler...

Goris Passos

Eu vi o mundo e ele começa na escrita...

Às vezes, temos que entender que é preciso ir...

A vida nos surpreende com acontecimentos que é preciso entender as partidas...


clouds-806639_640.jpg Imagem - Gerd Altmann

A vida nos deixa vários aprendizados, reforçados naturalmente pelos sofrimentos, que nos faz refletir: quando nos deparamos com a perda de pessoas tão influentes na nossa vida, e não temos ideia da falta que nos consome, quando tal partida infelizmente acontece.

O convívio em família é composto por laços sanguíneos, que na maioria das vezes, falando-se de modo pejorativo, se transformam em nós cegos. Sabe-se que não é fácil lidar: há sempre demandas de desarmonias somadas aos abraços, consolos que se transformam em desentendimentos... No final tudo se convertem em um mix de sentimentos, que quando colocados num liquidificador, dá uma boa vitamina de mágoas e angústias, com recheio de, digamos, certo equilíbrio...

Por falar em família... É impressionante como a vida inteira, sempre fomos mais que irmãs. Entre nós nunca existia os “nós cegos”. Apesar da diferença de idade (7 anos), compartilhávamos sobre tudo o que acontecia em nossas vidas. Parecia até aquelas promessas no altar: na saúde e na doença, na tristeza e na alegria... Lembro-me que fazia parte do ciclo de amizades, em que seus amigos se tronaram meus amigos também.

Apesar de ser mais nova, achava interessante ir para às baladas, bares, curtir cantores, bandas e músicas, praias, com pessoal de idade maior que a minha. Enquanto meus amigos curtiam Menudos, eu ouvia Caetano cantar “Odara”, que virou hábito no meu cotidiano, e agradeço até hoje pelo bom gosto. Eu só tinha catorze anos, quando aconteceu o primeiro “Rock in Rio”,mas vivíamos planejando ir juntas, e não perdíamos nem os comerciais que passavam a respeito, na época.

Com o passar do tempo, percebi que amadureci muito rápido, que com certeza foi resultado das experiências repassadas por ela, como por exemplo: lidar com preconceitos, saber respeitar as opiniões e gostos das pessoas. Pessoa muito especial, de coração “amanteigado”, se sensibilizava com tudo e com todos, era incrível sua empatia. Se pôr no lugar do outro, era a sua especialidade.

Para se ter uma ideia sobre nossa ligação, sabíamos quando não estava nada bem, com alguma de nós, até pelo tom da voz ao atender ao telefone. O elo existente, era fora do normal, e com o passar do tempo, nossa parceria parecia ser mais fortalecida. Era a famosa “dupla dinâmica” das estórias dos supre-heróis, com versão da vida real.

É comum entre irmãos, existir desavenças, brigas, mas entre nós nunca houve se quer uma voz alterada. Vivíamos sempre em harmonia, o que revela características mais que “mãe e filha”. Se alguém sufocou alguém, foi só de amor, de alegrias, enfim, momentos felizes. Hoje o que realmente me sufoca, é a saudade.

Como a vida é repleta de acontecimentos surpreendentes, de repente me vi num cenário, desconhecido para mim... Vazio... Estranho. A partir de então, ao lado dela, contracenei cenas, de um filme de classificação meio “trash”. E o pior de tudo, sem ensaios. Atos em que ao invés de matar sua sede com água, era orientada para dar dose de analgésicos, morfina, para ironicamente amenizar suas dores.

As roupas que sempre combinávamos em comprar nas lojas e que fossem da última moda passaram a ser uniformes de pacientes, estampados com logotipo do hospital...

As músicas que curtíamos juntas, dos nossos cantores prediletos, foram substituídas pelo som frio de um oxímetro, que teimava a nos dar surpresas ruins, e infelizmente tínhamos que monitorar o tempo inteiro.

Em encontros casuais com amigos, víamos vídeos de shows musicais de nossos ídolos preferidos, quando passaram a ser imagens confusas de exames de ultrassom, que nunca eram muito bem esclarecidos, pelo menos eu achava assim...

Mesmo em um leito de hospital, estava sempre de bom humor, e fazia questão de saber o problema de todos que ali estavam. Dava um jeito de transmitir uma palavra de conforto, uma oração para aqueles que se encontrava na incerteza, ansiosos e desesperados, se sentirem mais aliviados.

E de tão maravilhosa, mesmo em estado grave, com sua voz divina, cantava para mim uma música de Roberto Carlos: “Não se afaste de mim”, que marcou muito, nunca vou esquecer. Em algumas frases a música diz: “Eu pensei que pudesse ficar sem você mais não posso, pois viver sem você meu amor é difícil demais...” Se para ela era difícil, imagina para mim, encarar esse provável desvinculo tão iminente e avassalador que tomou conta do meu ser, como uma contaminação na corrente sanguínea.

Você que sempre me motivou em tantas conquistas na minha vida... Minha graduação, pós graduação, primeiro apartamento, habilitação, etc... Sempre ao meu lado, sempre torcendo e apostando em mim... E agora?

Esses espaços de tempos finais me despertaram para uma coisa importante: nós temos a mania de desperdiçar momentos raros, e, por ingenuidade achamos que podem ser eternos, mas a verdade é que nunca sabemos se tais momentos vão ser os últimos... Depois acontece a perda, vem àquela sensação do tipo: devia ter abraçado mais, amado mais, ter feito o que devia fazer...

É fato que seria egoísmo da minha parte, no estado em que se encontrava querer mantê-la em minha vida. Mas, de alguma forma, o que me conforta é saber que, agora ela está em um plano melhor do que este aqui na terra, repleto de pessoas imediatistas. Sua passagem aqui foi efêmera e ao mesmo tempo marcante, e não poderia ser diferente, com sutiliza, lutou até o fim, e só tinha um desejo no coração: ver todo mundo feliz.

A vida segue, e a viagem que fizestes felizmente deixou uma bagagem de lições que caracteriza realmente a valorização do ser humano. Como almas gêmeas, tua partida me remete conviver apenas com metade de mim. Sei que só estou conseguindo, primeiramente pela força que Deus me concede, e segundo, porque tenho plena certeza que você mesma, onde estiver, está me ajudando de alguma maneira.

Conseguir entender que um dia é preciso ir, não é uma missão tão simples, mas ecoa como um bálsamo reconfortante dentro de mim, e me faz ter a certeza que vamos nos reencontrar, e vivermos novos laços, e agora cada vez mais intensos, pois como você sempre fez questão mencionar: nosso amor é eterno.


Goris Passos

Eu vi o mundo e ele começa na escrita....
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