ana g.passos

Não sou de difícil de ler...

Goris Passos

Eu vi o mundo e ele começa na escrita...

Loucas pra casar: afinal, o que significa a loucura?

O filme não expressa só a submissão em que as mulheres têm que viver para agradar seu homem, mas mostra, também, a parafernália que o nosso “cérebro” absorve e é capaz de transformar nossas vidas, e até criar vários personagens existentes dentro do nosso ser, às vezes ainda adormecidos, mas, quando aflorados dão um show à parte na busca pelas compensações. Vale a pena assistir.


021.jpg Foto: google

Era uma vez, uma garota que sonhava com um príncipe encantado de belos cabelos loiros esvoaçantes, de músculos aparentes e barriguinha “tanquinho”. De sorriso contagiante, vinha ao seu encontro, montado num cavalo andaluz, roupa estilo medieval, espada na cintura para defendê-la. Rosas azuis em uma das mãos e na outra exibia um lindo anel de brilhantes. Fazia um ritual de gentileza, e ajoelhando-se a pedia em casamento, e foram felizes para sempre... Ops! Que tal acordar e assistirmos “Loucas pra casar”?

O filme, dirigido por Roberto Santucci (De pernas pro ar, Até que a sorte nos separe), retrata exatamente o apego excessivo de uma mulher em se casar. Conta a trajetória de Malu (Ingrid Guimarães, a qual ia às famosas festas de casamento, e sempre pegava o “buquê”, sonhava em passar por aquele momento, que até então parecia tão... Tão... Distante.

O autor (Marcelo Saback), tenta abordar o tema de maneira interessante, descontraída, bem humorada e ao mesmo tempo mixada com drama. Ao longo da história, cenas demonstram três mulheres com estilos bem diferentes, que se apaixonam pelo mesmo homem, o cordial Samuel (Márcio Garcia): Malu a quarentona, responsável e profissional bem sucedida, acompanha o seu namorado Samuel, nos negócios imobiliários. Vive um namoro duradouro, que parece não ter fim, e que não demonstra interesse em levá-la ao altar. Já Lúcia (Suzana Pires), dançarina de boate, ousada e sensual, está sempre seduzindo o seu homem. Maria (Tatá Werneck), jovem religiosa e virgem, aceita todas as condições em que seu “namoradinho”, impõe, e se sente feliz com isso.

Malu também vivia um sofrimento com sua mãe, a qual passa por problemas psiquiátricos, causados pelo abandono do esposo, o que a levou para estado profundo de depressão. Mas, o namorado perfeito como Samuel, está sempre lhe apoiando nesses momentos difíceis, como companheiro, e também no quesito financeiro.

O cenário se revela, quando Malu desconfiada, contrata um detetive que inicialmente descobre sobre as outras mulheres, que interferem na sua vida amorosa, e ela obviamente, decide conhecê-las. Daí começa uma tremenda confusão aliada à disputa do único homem que está em jogo, e que para todas parece ser totalmente perfeito, ou seja, o príncipe encantado.

A surpresa por trás de toda essa celeuma mostra-se quando finalmente, após ganhar a disputa acirrada, chegando ao altar, Malu, começa a ter pequenos surtos de loucura, como se estivesse falando com o mundo invisível, e sai correndo para se jogar de uma ponte, e para seu espanto encontra com Lúcia e Maria, praticando o mesmo ato. De repente só ela é salva por Samuel, seu noivo, que fica extasiado sem nada entender, e infelizmente, mais uma vez... Nada de casório.

Diante da sua obsessão por “casar”, Malu reencarnou personagens ilusórias, na vida real, às vezes era Lúcia tentadora e atraente. Em alguns momentos era Maria, religiosa e obediente, meio “santa”, e seu namorado aceitava tudo, achando que vivia fantasias de amor com a amada que para ele estava tudo perfeito, nem precisava casar tão cedo.

Foi então que Malu descobre sobre seus transtornos de identidade e depois de longas terapias, ao passar em frente à mesma igreja, durante saída do pessoal de um determinado casamento, Malu lamenta não ter realizado o sonho, que foi boicotado por ela mesma. Um amigo mostra que Samuel está lá, cumprimentando os noivos, e Malu, diz que o amigo está louco, porque na sua cabeça, até então ele era um homem atlético, lindo, “sarado”, enfim, perfeito. Sua amiga fiel (Fabiana Karla) afirma que é ele mesmo, e quem mudou foi ela, pois Samuel na verdade, era calvo, usava óculos, meio desengonçado...

Enfim.. No final, depois de alguns diálogos, passam a se conhecer novamente e finalmente conseguem se casar, e tem um final feliz, mas, nem sempre é assim.

Toda essa trama nos faz lembrar sobre os defeitos do ser humano, e por sinal, o mais terrível deles: julgar. Ao julgarmos, não temos ideia que podemos anular a felicidade das pessoas, e até a nós mesmos, pela falta de coragem de viver aquela “loucura” que queríamos viver.

Alguém já se questionou o que levou Malu, a ter tais atitudes insensatas? Será que foi o medo de passar pelo que a mãe passou? Viver o resto da vida, abandonada e à base de consumismo de remédios de tarja preta no cotidiano?

O fato é que a descoberta da possível “loucura” de Malu, nos remete também a analisar sobre a nossa própria vida. Será que em alguns momentos não temos nossos acessos de loucuras? Será que a loucura é tão ruim assim, a ponto de acabar com o sonho de alguém? A música cantada por Alcione traduz um pouco da “estranha loucura” quando diz: “É tentar te entender e não ser entendida... É fazer dos teus erros num motivo qualquer a razão da minha culpa”. Ou Rita Lee, quando fala que: “Mais louco é quem me diz e não feliz... Sim sou muito louco, não vou me curar, já não sou o único que encontrou a paz...”.

Afinal de contas, como distinguir o que é sanidade, e o que é loucura, diante de algumas atitudes que praticamos? Será que criar fantasias na realidade, e ser feliz na ilusão, é pecado? Tantos questionamentos assim surgem com respostas diferentes, que brotam até dentro de nós mesmos, do nosso intimo, que por vezes nunca são expostos, pois temos medo de colocar para fora e explorar nossa loucura. E aqui para nós, vamos assumir que no fundo, no fundo nos faz tão bem...

Resumindo, o filme não expressa só a submissão em que as mulheres têm que viver, para agradar seu homem, mostra também, a parafernália que o nosso “cérebro” absorve e é capaz de transformar nossas vidas, e até criar vários personagens existentes dentro do nosso ser, às vezes ainda adormecidos, mas, quando aflorados dão um show à parte, na busca pelas compensações.

As pessoas muito conscientes às vezes podem ser completamente loucas... Podemos considerar a felicidade com fantasias, e não ficar apenas na realidade torturante. E... Um brinde à loucura, que às vezes faz um bem, que a realidade não faria.


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