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Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário.

Marx e Nocivo Shomon: dois pichadores

Um picha muros de São Paulo, e canta poesia em forma de rap. O outro escreveu teorias que revolucionaram a economia e o jeito de enxergar a sociedade. O que os dois têm em comum? Eles 'picharam' o status quo.


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“Desculpe então madame, se a senhora se assustou: somos apenas a praga que o seu sistema criou”. Essa frase é da música “Pixadores”, do rapper Nocivo Shomon. Não há duvidas de que mesmo mergulhada em gírias e referências, é um grito social; legítimo e importante. Tanto a música quanto a pichação, gritam as injustiças sociais, a desigualdade em diversos âmbitos, e com isso, a revolta contra o status quo da sociedade. É a indignação do pobre em ver belos edifícios que ele nunca terá. É a despreocupação com a conservação do patrimônio do rico. É um dedo do meio para o jogo cujas regras ele não concorda. É uma forma provocativa de reivindicar uma distribuição de bens mais justa, uma distribuição de oportunidades mais justa. Tudo isso é uma consciência antiquíssima que as classes baixas têm. Não precisava Marx ter inventado o socialismo para as pessoas perceberem a desigualdade.

Contudo, ele foi quem usou o poder da elite contra ela mesma. Usou a ciência social e econômica contra a aristocracia para esfregar na cara de todos que existia uma desigualdade que só poderia ser resolvida através da revolução. Revolução? Sim, revolução. Porque sem a revolução não há movimento. Sem vanguardismo, sem consciência do mundo externo não existe mudança. Ele pichou as ciências econômicas, e disse que economia não é a arte de aumentar lucros, e sim, ver como esses podem ser melhor redistribuídos. Ele quebrou as algemas de muitas pessoas, que eram presas por religiosidade, ou por falta de conhecimento. Quem tem peito pra denunciar tudo isso? Quem tem peito e disposição pra mostrar como as relações de poder tendem a se conservar por conta da dominação ideológica? Pobres se formando? Negros sendo artistas? Mulheres ocupando altos cargos? Um ultraje.

pichacao.jpg“Dizem que é crime, que canto apologia; pra mim é sentimento em cada caligrafia”

Sentimento em cada caligrafia: cada dia uma pichação, cada dia uma desesperança. Esse é o sentimento das pessoas que só têm duas mãos e o sentimento do mundo. Arte é uma expressão do modo de viver de uma sociedade. Por exemplo, se vemos uma pintura do período barroco, podemos entender como o mundo parecia ser para aquele pintor. Então, parar de tratar a arte apenas pela estética e mais pelo significado é muito mais proveitoso. Sendo assim, o que se pode entender da arte urbana, das verdadeiras pinturas rupestres contemporâneas? Um grito de dor, de revolta, de subversão.

Que fique claro: nem mesmo os pichadores são a favor da pichação. Por eles, estariam pintando belos quadros, com belas paisagens, num mundo belo, numa vida maravilhosa. Entretanto, querer acabar com a pichação sem querer acabar com os motivos que despertam essa manifestação é algo muito estúpido. Como querer acabar com a tosse sem tratar a pneumonia. Agora observe: o único comentário que se faz é que “é feio”, “deixa a cidade com má aparência”, “coisa de vagabundo”. A análise das motivações foi ignorada completamente. Pichação só agrada quando é transformada em cores, em desenhos bonitos. Aí ela vira a forma aceitável: o grafite.

Essa atitude vanguardista de Marx, antes de tudo, foi corajosa. Porque se o conhecimento é um possível instrumento de dominação (uma vez que gera poder), usar o mesmo conhecimento para denunciar essa dominação absurdamente cruel e torturante foi um ato de muita coragem. Inclusive, de dedicar-se aos estudos exaustivos da filosofia e da economia sem o objetivo de ser “palestrante, bem sucedido, referência no mundo business”. Pelo contrário, ser inimigo do sistema, escancarar para todos como a injustiça se mostra perene, a cegueira é cultivada no proletariado, como tudo é um jogo de interesses apoiado nas costas de quem não reclama. Como diria Shomon: “ Se é pra ter uma paz sangrenta, ‘nóis prefere’ uma guerra santa”.


Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário..
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