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Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário.

A reificação da felicidade

Felicidade é algo que se pode comprar? O tamanho do amor é igual ao preço pago no presente? Qual é o malefício de consumir felicidade? As consequências são individuais ou coletivas?


ATENÇÃO! Que fique claro: esse artigo tem o objetivo de refletir acerca das consequências de certos pensamentos dentro na sociedade, e não o de apontar erros de ninguém.

Quem diria, o deus hétero também é mortal. Esses tempos veio à mídia um choque: Charlie Sheen, ex-ator da série "Dois Homens e Meio", é portador do vírus HIV. A sensação que sobra é que vender utopias tem um alto preço. Uma grande mentira foi contada naquele seriado: a de que se pode fazer sexo sem camisinha e não pegar doenças, de que se pode beber sem limites e tudo terminará bem, de que se pode usar drogas, e overdoses não acontecerão. E o machismo, ao apoiar o sexo como ação de maior valor na vida (afinal, nada é melhor do que uma bela mulher que faz tudo que você quer), por tabela acaba apoiando toda as problemáticas que isso pode desencadear.

Não é raro ver em páginas "conservadoras" no Facebook muitos exemplos de homens que ostentam dinheiro e tudo que ele pode comprar. Dan Bilzerian, por exemplo, é um jogador milionário de pôquer e um ídolo para a ala conservadora e direitista. Mas observe certas anomalias de comportamento: ter fortunas de dinheiro, mas um pensamento estritamente individualista; a autoimposição utópica de perfeição (rico, desejado, forte, galã e uma máquina infalível e insaciável de sexo); a grande admiração por parte justamente de uma enorme massa que não tem nada disso. São exemplos de coisas a se desconfiar: “Será que a vida boa é isso mesmo, ou isso tudo é só a venda de uma ilusão?”

consumer-jesus_baksy.jpg Qual é a ideia central em torno da desreificação (ou seja, a "descoisificação") da felicidade?

De modo geral, quando o dinheiro para de ser a tônica da vida, quando a mulher-objeto vira uma pessoa com a qual também se pode conversar e até ter sentimentos por ela, quando também se pensa em algum destino para o dinheiro além de comprar coisas para si mesmo, como uma ONG (meramente um exemplo), nota-se que certos problemas sociais são atenuados ou até evitados. De verdade, o problema não é a AIDS, o problema não são as drogas, o problema não é gastar o próprio dinheiro consigo mesmo. Isso ainda são só meros sintomas. O problema mesmo é a cultura de que todo esse estilo de vida é o melhor que há, e que não há riscos nem consequências. Como se as vidas e atitudes de cada um fossem independentes do resto da sociedade. Não são.

Para abrir a mente, note qual é o business. Existe uma necessidade dentro de nós: a de sermos felizes. Como a busca pela felicidade é um caminho misterioso, árduo, e diria até, decepcionante, compramos a fórmula pronta: um estilo de vida bastante simplista, como o do Charlie Sheen. E pra não dizer que é mentira: note qual é o argumento mais recorrente e famoso contra tudo isso: “mimimi”. Na verdade, sabe qual é o significado de “mimimi”? É o grito do diálogo que o opressor tem consigo mesmo:

“Não é nada disso não, cara. Eles estão se fazendo de vítima pra tirar o teu direito, que é o de só pensar em si mesmo. Você pode levar uma vida desprevenida e sem consequências, aproveitando tudo que o dinheiro, as mulheres e os pobres te dão”.

Pois bem. Para corrigir esse desvio, é necessário “desempobrecer” o pobre (criar maior igualdade econômica), “desoprimir” a mulher (empoderá-la, bem como também a outros grupos minoritários) e desmistificar esse sonho machista, que age de forma hedonista numa sociedade que já não está mais suportando injustiças. Charlie não é deus, aceitem.


Leonardo Lima

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