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Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário.

A sinceridade no olhar da Heroin Chic fashion

Nos anos 90, uma nova estética no mundo da moda chocou os mais conservadores, com sua aparência meio cadavérica, mórbida e cínica. Mas pra que tudo isso? Muito simples: isso se chama [r]evolução.


Como uma maior democratização da beleza, como um cinismo aos padrões anteriores, como uma revolução poética na estética, nos anos 90 surgiu uma nova tendência visual para os modelos: pele pálida, olheiras, aspecto meio doente e extremamente magros. Nome chocante, tudo para revolucionar. As musas encorpadas, saudáveis e sorridentes dos anos 50 já estavam em total declínio. O mundo da moda ganhou uma vibe nova, uma pitada cadavérica, para quebrar paradigmas, para instituir o outro extremo da dicotomia romantismo-realismo. Porque essa idealização de corpo sarado, saúde na pele e nos cabelos, e bochechas rosadas são apenas uma parte das pessoas. Não representa o todo. Nem todo mundo é fitness. Heroin Chic tem a ver com aquele lance de fazer o feio genial.

Já que é tudo muito lúdico, e nada faz uma referência de fato às drogas, o que resta mesmo dessa preferência estilística é só um senso subversivo que tentou – e conseguiu – consagrar-se como um no meio de vários padrões de beleza, ainda que não fosse o mais aceito entre todos. Claro que isso também nos remete à mente o fato de que parece muito fácil controlar os padrões estilísticos do alto da pirâmide fashion. Uma pequena estratégia inovadora, aliada às modelos certas, e voilà: tem-se uma tendência lançada. Entretanto, essa quebra aconteceu aí: as modelos de "corpo violão" perderam seu espaço para modelos magras, com olhares sombrios e um tanto quanto cínicos, que pouco tempo depois representariam a grande opulência moderna da moda: usar CK e ainda por cima fazer carão.

Inclusive pode-se dizer que neste momento caracterizou-se uma grande fissão estética: se antes o tradicionalismo tinha algum espaço, agora as passarelas são palco para pessoas andróginas, carecas, ou com cabelos exoticamente gigantescos. A diversificação surge daí: da despreocupação com o "old marketing" (que consistia em considerar que a aparência saudável das modelos tornaria a peça publicitária mais bela, e com isso, mais eficiente), juntamente com a tendência de se usar o modelo como parte componente do visual. É por isso que não poderiam mais ser pessoas comuns. O manequim falante também tem que contribuir para a construção estética da peça, como um todo.

Heroin-chic.jpg "A tranquilidade no olhar de quem não tem culpa de ser top model, tampouco de usar grifes. Heroin chic é isso: uma espécie de zumbificação cínica e genial da beleza."

O próprio jornal L.A. Times fez um resumo sobre o heroin chic: "é uma visão niilista da beleza". Obviamente, como tudo no mundo, sofreu fortes ataques e críticas, por parte de grupos antidrogas, alegando que se tratava de uma "glamourização das drogas". E o fato desse movimento estético ser reforçado pela cultura grunge não ajuda muito, mas cá entre nós: é só uma revolução estética. Quem quisesse fazer uma revolução moral não usaria meramente a moda como meio para isso. Sobretudo, a revolução artística é necessária, e este passo tomado no mundo da moda foi importante para trazer uma pitada de realismo, somada a outra de diversidade.

Também é claro que vale ressaltar: nunca o padrão de beleza será o comum. Num mundo magro, o padrão deve ser obeso. E num mundo obeso, o padrão deve ser magro. Comercialmente falando, claro. Porque a razão de existir um padrão é criar valor em algo que a maioria das pessoas não têm, de forma que você consiga ajudá-las a se enquadrar através dos produtos que são vendidos, e com isso faturar rios de dinheiro. Mas entre diversos padrões, o heroin chic foi o mais subversivo, e isso no meio artístico da moda é um momento historicamente marcante. Resta agora assistir ao colapso de tudo: lá no futuro, quando tantos perfis inatingíveis forem retratados nas campanhas, e tantas pessoas discutirem tanto esse tema, que a sociedade terá que repensar a sua ética e o seu consumo. Até lá, um viva à diversidade, à inovação e à iconoclastia.


Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário..
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