anacoluto

As melhores crônicas que você poderia ler.

Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário.

O que a escola nos ensina e o que o mundo espera de nós

Pode parecer que é sobre o velho clichê distópico da massificação da população, mas a ideia aqui é outra: tentar dar mais uma explicação por que o estudo é uma obrigação moral de quem tem acesso.


É fácil fazer uma comparação entre o que o mundo quer que nós façamos e o como ele nos ensina isso. A escola é um lugar que te expõe a sessões de conteúdo científico, diz quais são as informações que serão cobradas na prova, e então depois aplica a prova. Esse trajeto de “dizer o que vai ser cobrado e depois cobrar” significa o que? Avaliação por esforço, obviamente. Porque basta memorizar as informações e procedimentos de resolução. Não há mais nada além disso.

E mais: não só avaliação por esforço, mas bem como unicamente por esforço. Escreveu-se na lousa, copiou-se no caderno. Afirmou-se algo, aceitou-se prontamente. O próprio adjetivo para o modelo das aulas é tipicamente de cabresto: "expositiva", ou se preferir, "eu falo e você escuta". Logo, o que se aprende de fato na escola é o esforço obediente. Isso sim é internalizado. O conteúdo é esquecido cerca de cinco anos depois da aprovação no vestibular. E só não é esquecido o conteúdo da faculdade porque na maioria esmagadora dos casos será usado para fins profissionais. A mente das pessoas virou um HD de péssima qualidade. O cérebro nasce, se desenvolve, aprende umas coisinhas bobas pra passar em etapas da vida, e no fim morre. Tão verdadeiramente útil para o mundo quanto um copo sem fundo.

another-brick-on-the-wall.png Formando meros tijolos da parede do castelo burguês: a reificação do proletário

Logo, se a escola produz pessoas obedientemente esforçadas, onde vamos desenvolver a capacidade de inovação? Inclusive o maior baque é quando o aluno chega ao nível do doutorado, onde tem que se desprender do sistema confortável de ser “obedientemente esforçado” e passar a ser desafiador, questionador, inovador. A inovação é necessária todo dia, não só no último nível de graduação.

Disso pode-se tirar duas lições: a primeira é que o mundo espera de nós que sejamos bons funcionários. Patronato é concorrência pra qualquer um. Pessoas com muito poder não se interessam por uma sociedade crítica e capaz de inovar, seja o mercado, seja a economia, seja a política. Grandes mentes pensantes, inovando o velho status quo o todo o tempo? De jeito nenhum. O poder de inovação não pode estar nas mãos de todo mundo. Quem estudar em escolas comuns (e nisso se inclui até uma boa grande parcela das particulares) não terá isso. Ensino que realmente estimula a criatividade e o pensar fora da caixa é realmente coisa para dois ou três.

A segunda lição é que o mundo só está na velocidade que está por causa desse jeito de educar. Estamos no segundo milênio d.C., e ainda tem pessoas passando fome, dominações políticas absurdas, religiões fazendo bizarrices com as massas. Era pra estar muito melhor do que está. Então, a culpa do nosso resultado é meramente nossa. A maioria esmagadora de pessoas é somente uma mãozinha usada para digitar, embrulhar, apertar o parafuso. Logo, a reinvindicação na educação não é por mais aparelhos de ar-condicionado, cadeiras estofadas ou lousas quadriculadas. É por uma reforma educacional a favor da verdadeira liberdade humana, de poder desfrutar das competências intelectuais e cognitivas que nós temos atualmente, para que tomemos mais as rédeas das nossas vidas, e nos libertemos mais de opressão.

Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário..
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