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As melhores crônicas que você poderia ler.

Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário.

Resenha: Admirável Mundo novo, de Aldous Huxley

Prisões são mais eficientes com grades ou com doutrinas? Felicidade é mais valiosa com conquistas ou com drogas? "Iconoclastia" define este romance: este livro te fará pensar sobre o que vale mais: felicidade ou liberdade?


E se pudéssemos ser felizes o tempo todo? Sem exceções, sem pausas, sem devaneios de infelicidade, sem conflitos, sem relações com potencial conflitante, sem nos importar com os problemas, e sem problemas que nos aborreçam além do curtíssimo limite tolerável; sem mágoas ou tristezas, sem a possibilidade de ser infeliz. Não, espere: sem a liberdade para deliberadamente ser infeliz? Necessariamente teríamos que ser felizes? Sim, isso mesmo. Não parece bom? Talvez não, né.

É disso que se trata o romance publicado em 1932, por Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. Uma distopia onde algo que nos parece maravilhoso, capítulos depois, se torna extremamente terrível para nós mesmos que lemos. Esta obra nos faz questionar a moral, afinal de contas, em vários aspectos esta sociedade proposta no livro é moralmente contrária em relação a nós. Tanto isso é verdade, que para lê-lo sem angústias é preciso notar isso e esporadicamente fazer inversões morais pra que possamos entender o sentimento das personagens. Questionamentos do tipo: "se fosse o contrário, nos colocando no lugar deles: nos sentiríamos assim?"

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley Após ler sobre o esforço para manter uma existência frívola, você provavelmente acabará se perguntando: qual é o sentido da vida então? Este tipo de reflexão é riquíssima, e se passa implícita enquanto se lê.

Além do forte apelo para a reflexão acerca da moral dos tempos de hoje, é explícita a crítica ao capitalismo, onde nota-se um vazio abissal de significado neste: economia freneticamente girante, produtos descartáveis, felicidades descartáveis, pessoas descartáveis. Tudo é tão artificial quanto uma garrafa pet. Já de onde termina a crítica ao capitalismo, seguindo à frente, há o questionamento filosófico de uma dicotomia velha e muito conhecida dos filósofos: a felicidade vil e estável ou o sofrimento que provê evolução intelectual? (em evolução intelectual, que se leia: evolução humana, visto que o homem é um resquício animalesco em um cogitar consciente).

Para se ter uma ideia do tamanho dessa questão, temos dois magníficos opositores em pensamento, na história da humanidade: Platão e Nietzsche. O primeiro crê que o intelecto deve sobressair-se, deve gozar de uma primazia especial, visto que ideias são por si só melhores que o mundo falho e imperfeito. Já o outro diz que crer que as ideias são "melhores que o mundo” é um absurdo: a vida acontece aqui e agora; portanto negar a felicidade tátil, o prazer ocular de ver paisagens, o mundo dos corpos e das pulsões é uma blasfêmia contra a vida. Os dois filósofos são convincentes em suas constatações, e o livro – apesar de um pouco tendencioso – não pôde esconder o fato de que tanto os civilizados quanto os selvagens têm loucuras e estupidezes em suas atitudes. E com isso, fica no encargo do leitor resolver este conflito dentro de si: de qual partido tomar, de quem apoiar na história. Mas de que forma?

Simples. Posto que o livro fala sobre uma felicidade obediente, para os que abominam a servidão, para os que não se deixam dominar, e consideram a liberdade um bem inalienável de qualquer indivíduo, estes vão odiar esta sociedade distópica. Já os que cogitam sobre a utilidade da liberdade, versus os prazeres da felicidade pura e densa, numa existência plena e estável, estes vão se deixar seduzir pela obediência feliz. Sobretudo, o autor conseguiu fazer um romance incômodo, cheio de detalhes, criatividades, narrações inovadoras (das quais posso destacar a intercalação de cenas distintas através das falas das personagens, que acabam nos teletransportando para dois ambientes rapidamente). Um livro recomendável para quem não sabe muito ou que nunca refletiu muito sobre a felicidade: um bom primeiro passo.


Leonardo Lima

Tenho duas mãos, tenho o sentimento do mundo, só não sou mártir literário..
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