anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

BANALIZEMOS O AMOR?

Quantas vezes experimentamos de amores? Isso mesmo, substantivo minúsculo plural preposicionado, nada do Amor imperativo, maiúsculo, distante – sem fim – protegido pelo triste séquito de solidões, desamparos e loucuras. Já pensou de onde brotariam os instintos de guerra, se construíssemos um amor em cada esquina?


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O refinado ideário que envolve o mundo dos vinhos, a taça ideal para cada degustação, as maneiras de combinar o tipo da uva à carne ou ao peixe que o acompanha... tudo isso pode ser um verdadeiro tiro no pé. Pra lá do pequeno grupo de entendedores, estes preceitos e ritualísticas conseguem deixar intacta a distância que há entre a bebida e seu grande público potencial. Vinhos devem nos brindar sabores, antes de qualquer outra coisa. Ponto.

As palavras do somelier e produtor de vinhos continuaram ecoando no meu corpo e juízo mesmo depois de dias da entrevista à radio. E não só atiçaram meus palato e olfato, mas outros centros de percepção: não padecemos da mesma estreiteza de perspectivas, quando falamos de amor?

Inaceitável que um país de brasileiras dimensões consuma menos vinho que Portugal, disparava ele. Inaceitável que tagarelemos tanto sobre O Amor – com artigo e substantivo agigantados – e sejamos tão mesquinhos, quando ele nos brinda com suas facetas acesas, vivas, com suas peripécias e imperícias. Subservientes que somos, ou todo-poderosos demais, chegamos a considerar menores os amores que brotam do corpo, por exemplo. Sejamos francos: inaceitável que só assumamos publicamente O Amor com as cores que nos contam e cantam, limpo e sem manchas como os cordeiros oferecidos aos deuses, e neguemos publicamente, sob o manto de nossa odiosa hipocrisia, todos os amores possíveis, sejam os vividos por nós ou ensaiados por outrem.

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É tão fácil negar nossos sentidos mais pessoais, em nome de preceitos que nada têm de nossos... Às pessoas que identificamos como autoridades em determinados assuntos, confiamos nosso julgamento, mesmo que todo o nosso corpo-alma clame o contrário. Será mesmo certo que só amamos de verdade a uma pessoa na vida? Como um sentimento tão nobre pode ser assim encurralado? Alguém me diga o nome do órgão, em nosso corpo, responsável por pendurar a plaquinha do fechado para novos amores, quando já estamos amando alguém.

Osho provoca com sabedoria, no seu Livro dos Homens: Quem nunca viu nos generais várias listras coloridas presas ao uniforme? Aquelas listras continuam aumentando à medida que o general mata e destrói a si mesmo (...) São respeitados e grandes heróis. E o que foi que fizeram? Assassinaram muitas pessoas do seu próprio país e de vários outros países. E esses assassinos ainda são recompensados. Alguém já viu alguma sociedade recompensar seus amantes? Não, amantes devem ser condenados. Nenhuma sociedade permite qualquer tipo de respeito aos amantes, pois o amor é uma maldição para a sociedade. A primeira coisa que todos os interesses institucionais têm a fazer é desviar o homem do amor, o que eles têm conseguido até agora.

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Poderia ser diferente? Como se sustentariam as instituições estatais e religiosas, por exemplo, se priorizássemos o poder libertador dos amores, no lugar das listas de proibições que as constituem? Que sentido fará pensar na vida-após-a-morte, quando nos ocuparmos em construir paraísos possíveis nos aqui-agoras? Já pensou se, contra toda violência que sentíssemos, plantássemos um amor, como os ativistas que plantam mudas de árvores cada vez que presenciam um ataque ao meio ambiente?

Cada vez que banalizamos algo, as instituições que lucram com a escassez precisam se reorganizar. Algumas simplesmente desmoronam. O que seria da indústria de cosméticos, se todas as mulheres se vissem lindas do jeito que são? Já pensou o que seria do Estado se nos sentíssemos seguros? Nas palavras do arauto cubano Silvio Rodriguez: que diria deus, se amas sem a Igreja e sem a Lei?

Um brinde à vida e aos amores! Com o vinho mais barato ou com o mais extravagante que queiramos. Evoé!


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades .
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