anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento.

DE SOMBRAS E LIBERDADES

Foi Simone de Beauvoir quem disse, 'Querer ser livre é também querer livres os outros'. Por que frases desse tipo ainda nos soam tão distantes? Para uns, não fazem qualquer sentido; para outros, soam a utopia, quando deveríamos tomá-las como sentença fundante para nossas relações. Como reverberam em você?


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À palavra liberdade é comum associarmos individualidade, respeito ao que é nosso, exercícios de vontades, ou mesmo a coragem deliberada de negar nossas vontades, coisa que outros animais não podem fazer, afirmam categoricamente os filosofores. Pasmem os menos familiarizados com tais termos, mas a tradição do pensamento que cultuamos diz que liberdade é fazer o que não queremos, é a possibilidade de agir fora do determinismo instintivo que partilhamos com os demais animais – boa referência para os mais ousados é o livro Subliminar, de L. Mlodinow, sobre as novidades da neurologia extendidas ao campo psicossocial.

Pese a todos os matizes e controvérsias, costumamos entender, ou simplesmente repetir, que nossa liberdade faz fronteira com a liberdade do outro, o que já exige um alto grau de educação dos sentidos e de alteridade, para que se pratique. É olhar em volta para saber que, em nossas relações, promovemos muito do oposto disso. As instituições que construímos, e nas quais nos apoiamos, promovem mesmo a invasão dos espaços privados em nome da lei e da ordem. Se sobra quem diga não passarem de exercício intelectivo as divagações sobre liberdade, com que deboche não receberão a proposta de engendrar liberdade a coletividade?

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Reconhecer que nossa liberdade só se realiza com a liberação do outro gera inquietude mesmo entre libertários de carteirinha, mas quem sabe não seja exatamente este o ponto, o embasamento da liberdade no âmbito relacional, que torne possíveis caminhos jamais realizáveis sob a perspectiva da liberdade-no-singular?

Para vislumbrar, contudo, esta perspectiva, vale um comentário inicial sobre um conceito bem conhecido de muitos, mas tão indispensável quanto pouco considerado justamente pelos que veem, na individualidade, a possibilidade de libertação. Me refiro ao conceito da Sombra Pessoal:

‘A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. À medida em que nos identificamos com as características ideais de personalidade, que são encorajadas pelo nosso ambiente, vamos enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à nossa autoimagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida (...) Age como m sistema imunológico psíquico, definindo o que é Eu e o que é Não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não.’ [Do livro Ao Encontro da Sombra, organizado por Connie Zweig e Jeremiah Abrams, Ed. Cultrix, p. 16]

No esforço de abrir nossas clareiras e caminhos, erguer nosso nicho e nele estampar nossa identidade, quase sempre negligenciamos o que de sombras e egoísmos nos mantém firmes, rumo aos nossos objetivos. Assumir o que de sombrio nos habita – e nos impulsiona! – é condição para que nos relacionemos com o outro de forma mais verdadeira. Quem pensa que só oferece o melhor de si aos demais, está sendo ingênuo ou desonesto e, em quaisquer dos casos, estará formando uma relação coxa com o outro, logo estarão ambos presos à rede de sombras que cada um traz. Do contrário, se ambos se assumem portadores de luzes e sombras, abrem-se às possibilidades de tais conteúdos, e naturalmente alcaçarão melhor trato com eles. No reconhecimento de nossas finitudes, a possibilidade de infinitar.

Bem se vê que não se trata de caminho fácil, ainda mais se pensarmos nos modernos movimentos das soluções ao alcance de um click. É algo que demanda, de antemão, muito desprendimento, honestidade consigo e com os demais, e mais confiança no caminho em si, que na espera por supostas recompensas, mas nos entrega força e pujança boas de serem vividas – corrijam-me os que já as experimentaram.

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Destaquemos, finalmente, dois pontos que fazem valer a pena esse blá-blá sobre liberdade no âmbito relacional: o primeiro, quanto à sua efetividade; o segundo, sobre o alcance que com ele podemos ter.

Com efetividade, me refiro à possibilidade de distinção entre a enganosa sensação de liberdade, e a liberdade propriamente, cada vez que a exercitemos com alguém. A dois, fica mais fácil perceber quando a relação estabelecida entre ambos é de subordinação ou de equiparidade, por exemplo. Em um grupo, ficam bastantes mais evidentes quem são os líderes e os liderados, os tipos de elos que os ligam e, consequentemente, se nele são respeitadas as Presenças de todos. Bem distinto é engodo da sensação de liberdade, com a qual iludimos nosso eu interior, enquanto nos separamos, pouco a pouco, da vida e suas vicissitudes cotidianas. Sob a perscpectiva da liberdade-no-singular, uma se confunde com a outra mais das vezes.

Quanto ao alcance, necessitamos de menor palavreio: aonde cargas d’água iria com minha [suposta] liberdade solitária? Que herança nos deixam os que, desde seu eu mais profundo, iluminam-se e se condensam com o universo?

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Um pouco antes de finalizar estas linhas, pude assistir ao lançamento do filme A Colina Escarlate, nas telonas. Aliando belíssimos figurino e fotografia a efeitos especiais contundentes – a exemplo do também seu Labirinto do Fauno – Guillermo Del Toro nos brinda com um enredo centrado, justamente, sobre o embate entre suas três principais personagens e suas sombras, ou ainda melhor: nos desmandes resultantes do desconhecimento de nossas sombras, bem como nas possibilidades de redenção e crescimento dos que as acolhem, e podem assim rebalizar seu comportamento. Vislumbre garantido aos amantes da sétima arte.


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Poeta e autor de músicas, é piloto marítimo nas horas de descanso. Gosta de tudo o que cheira a liberalidades. Astrólogo e treinamento..
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