anárquica chancelaria

pelo prazer da dúvida, do desjuizo.

Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades

JÁ ENCOMENDOU SUA MANDINGA DE AMOR?

A ideia é mais antiga do que pensamos, e pese a ser coisa muito nossa, não é exclusividade brasileira ou latina. Usar de artifícios mágicos para 'trazer o amor de nossa vida' é coisa mais comum do que se admite, e algo moralmente justificável para muita gente. Você? Já encomendou sua mandinga de amor?


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Esse é o tipo de pergunta para a qual não podemos esperar respostas honestas, admito. Lembra as do Departamento de Imigração do Tio Sam que, à entrada do aeroporto, nos pergunta Você é terrorista? Ou as perguntas das pesquisas de rua, Você joga lixo na rua? Quem responderia que sim? Os terroristas existem – muitos deles norte-americanos de nascimento. Muita gente joga lixo nas ruas, ou não teríamos os problemas urbanos que temos. Não são poucos os que usam de artifícios místicos para curar mal de amor, conseguir os supostos homem ou mulher da sua vida, trazer de volta o marido que saltou do casamento.

Nosso cancioneiro está cheio de letras que abordam o tema.

Apoiado pela Patota do Cosme, o personagem de Nilson Bastos e Carlos Sena, imortalizado pelas voz e malandragem de Zeca Pagodinho, escapa de uma arapuca, e pode responder alto, Mulher, mulher, mulher, você não terá o meu amor/Pode tentar o que quiser/Levou meu nome na macumba/Pra me amarrar.

No seu Canto de Ossanhaaqui na dulcíssima voz de Mônica Salmaso – Vinícius de Moraes e Baden Powell advertem-nos com sabedoria: Coitado do homem que cai, no canto de Ossanha, traidor! Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. Eu complementaria: coitados também do homem ou da mulher que fazem de suas mandingas de amor. Como conviver com a dúvida sobre a veracidade do amor do outro? Que ganho haverá em compartilhar a vida com alguém que chegou até nós através de ardis desse tipo? O que acontecerá quando o efeito passe? Tudo passa, não?

E antes que me venham com o argumento de que essas coisas não funcionam, me adianto: para nós não importa se funciona ou não. Discutimos aqui as intenções de quem, em nome do amor, decreta a prisão do outro.

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Olhem o que diziam, nos tempos da Jovem Guarda, os moços da banda The Sunshine: agora você/Quer me deixar/Resolveu me abandonar/Não vou permitir/Você partir/Pois escolhi você pra ser meu amor/E se você partir/Eu vou buscá-la seja onde for. Não caberia, hoje, uma bela denúncia de cárcere privado?

Aclare-se desde já: a crítica aqui vai diretamente ao nosso lado negro da força, não ao conteúdo destas obras e, menos ainda, à genialidade de seus autores. O que impressiona, nesses e noutros tantos exemplos, repito, é que tomemos por natural, que alguém se intrometa na vida de outrem, justificando suas ações por amor.

Em meio a tais dramalhões, há inclusive os que pedem para continuar embruxados. Refiro-me à cumbia do popularíssimo cantor chileno Américo, intitulada El Embrujo: Se é verdade, deixa-me assim, enfeitiçado e embruxado por ti. Por que não? Sou feliz. Não me rompas o embruxo, mulher, quero estar sempre junto a ti. Oi?

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Nenhuma canção, contudo, me chamou mais a atenção que a baladinha Eu Sei, de Serginho Moah, transformada num hit em 2006, depois de virar tema da novela de Manoel Carlos e Fausto Galvão, Páginas da Vida:

Eu sei, tudo pode acontecer... O compasso é preguiçoso, e nos remete a um lual. É de fechar os olhos e sentir a brisa marinha. Eu sei, nosso amor não vai morrer/Vou pedir aos céus, você aqui comigo/Vou jogar no mar flores pra te encontrar...

Uma oração para o Universo, dirão alguns dos meus amigos. Talvez um mantra a la Rhonda Byrne e seu O Segredo. Uma pequena maravilha, não fosse por um detalhe: o destinatário da prece, mantra ou inocente vibração sussurrada ao Universo é uma outra pessoa, com seus desejos, gostos, escolhas e caminhos próprios, não deveria ser alvo de nada nem ninguém, pelo menos não às escuras, como parece ser o caso. Liga pra ela, compadre. Manda um e-mail. Whatsappeia ela! E se ela também quiser como a queres... aí sim, vale tudo.

Pra não restar dúvidas sobre as intenções do bom moço, a letra segue assim: Não sei por que você disse adeus... Se alguém diz adeus a outra pessoa, qualquer tentativa de impedi-la de seguir seu caminho é cerceamento de liberdade, não?

Com que facilidade dizemos amor, quando a palavra adequada é obsessão, mesquinhez, ou prisão? Com que falta de cuidado – quiçá, em alguns casos, deva-se dizer com que esmero! – estamos ensinando tais preceitos aos nossos filhos, perpetuando dissabores que nos adoece a todos? O que é que nos falta para levar adiante, com responsabilidade, nosso desejo coletivo de plenitude e felicidade?

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E para que não terminemos nosso canto-conto com certo gosto de sabão na boca, deixo cá uma sugestão de um canto outro, de proa oposta a tudo isso, ao sugerir-nos sutis enrosques com a liberdade possível diária, plausível entre pessoas de sensibilidade vívida, queredoras de futuros mais aprazíveis. Se chama Pra Te Acalmar, do hermano Marcelo Camelo.

Passo essa canção pra te acalmar/Esteja, morena, você onde for/Você sabe bem onde fica toda dor, morena/A chuva e um tanto de tempo pra molhar/O vento que bate pra gente secar

Passo essa canção pra te acalmar,/Esteja morena, você onde estiver,/Achada no peito de um outro protetor, ou solta/Que a gente na vida foi feito pra voar/No vento que bate pra gente se secar,/Que a gente na vida foi feito pra voar/No vento que bate pra gente se secar.

E aí? Bora ser livre agora? Já?


Bruno Albuquerque

escreve quase sempre à sombra. Autor de livros e músicas, é piloto marítimo, palestrante, e gosta de tudo o que cheira a liberalidades .
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